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Salman Rushdie esfaqueado em Nova Iorque antes de discursar em palco

Salman Rushdie esfaqueado em Nova Iorque antes de discursar em palco

O escritor Salman Rushdie foi atacado esta sexta-feira em Nova Iorque quando se preparava para discursar em palco. O ataque ocorreu no dia em que passam 33 anos após ter sido ameaçado pela primeira vez devido à publicação do romance "Versículos satânicos".

Salman Rushdie foi vítima de um ataque na manhã desta sexta-feira, quando se preparava para iniciar uma conferência na zona central de Nova Iorque, na Chautauqua Institution.

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Mal o nome do escritor inglês de origem indiana foi anunciado, um homem irrompeu pelo palco e começou a esmurrá-lo e esfaqueá-lo, perante a surpresa generalizada

Um repórter da agência noticiosa Associated Press presente na sessão captou o momento do ataque e da pronta intervenção dos seguranças no local. Em poucos segundos, Rushdie foi arrastado do palco e o atacante detido. Testemunhas no local descrevem os ferimentos que o escritor sofreu, incluindo uma ferida no pescoço. Um agente da polícia que se encontrava na sala deteve o atacante enquanto Salman Rushdie foi transportado de helicóptero para o hospital.

Uma médica presente na plateia contou ao jornal norte-americano "The New York Times" que ouviu alguém dizer que o escritor "tinha pulso". O moderador da intervenção sofreu ferimentos ligeiros na cabeça. O incidente ocorreu no dia em que passam 33 anos sobre as primeiras críticas públicas das autoridades religiosas islâmicas ao livro "Versículos satânicos".

Publicado em 1988, o romance seria violentamente atacado pelo líder iraniano de então, o Ayatollah Rohollah Khomeini, que emitiu uma "fatwa", o equivalente a uma sentença de morte, exortando os muçulmanos a matá-lo, com a promessa de receberem três milhões de dólares.

Com o passar dos anos, as autoridades políticas do Irão distanciaram-se do decreto, mas em 2012 uma fundação religiosa semi-oficial subiu a recompensa em meio milhão de dólares.

Desconhecem-se para já mais detalhes sobre o estado de saúde de Salman Rushdie.

No próximo dia 17 de setembro, Salman Rushdie tem prevista uma vinda ao Porto para participar num evento na Livraria Lello.

Escritores "em choque"

Vários escritores, jornalistas e celebridades reagiram prontamente ao ataque.

O influente escritor norte-americano Stephen King fez votos para que Rushdie "esteja ok", enquanto o autor britânico Nel Gaiman se declarou "chocado": "Estou em sofrimento por ver o meu amigo Salman Rushdie a ser atacado antes de uma conferência.. É um homem bom e brilhante. Só espero que fique bem".

A governadora do Estado de Nova Iorque, Kathy Hochul, agradeceu a rápida intervenção policial num "acontecimento horrível" e sublinhou ter envidado esforços para que seja levada a cabo uma "rápida investigação policial".

O jornalista Scott Simon, editor da estação radiofónica NPR, citou o próprio Salman Rushie: "O que é a liberdade de expressão? Sem a liberdade para ofender, ela desaparece de imediato".

Presidente da associação de escritores PEN American, Suzanne Nossel enfatizou "o choque e o horror por um ataque tão brutal e premeditado" ao antigo dirigente, destacando que "não se lembra de um ataque tão violento ocorrido em solo americano contra um escritor".

"Os Versículos satânicos" e não só

A famigerada 'fatwa" de que foi alvo, em 1989, pode ter catapultado o autor natural de Bombaim (atual Mumbai) para o primeiro plano da notoriedade pública, mas a sua carreira literária precede em muito essa fama.

"Grimus", o seu primeiro romance, publicado em 1875 e disponível em Portugal, é uma aventura épica desconcertante em que encontramos elementos de ficção científica, fantasia e folclore.

Um dos picos da sua produção ficcional, "Os filhos da meia-noite" chegou em 1980 e veio consolidar o seu nome no panorama literário. História da Índia no século XX num registo de realismo fantástico, o romance segue os passos de Saleem Sinai, criança com poderes especiais cujo percurso se confunde com o do seu próprio país.

De longe a obra mais popular do autor sino-britânico - apesar de a generalidade da crítica não acompanhar esse entusiasmo -, o romance "Os versículos satânicos" enfureceu a comunidade muçulmana por, alegadamente, ofender o Islão e condenou Rushdie a uma vida de reclusão quase absoluta durante mais de uma década e meia.

Os protagonistas do romance são dois indianos muçulmanos que, após sobreviverem a um atentado à bomba a um avião, provocado por separatistas sikh, desenvolvendo posteriormente traços demoníacos, ao mesmo tempo que sonham conhecer o profeta Maomé.

Apesar das ameaças à sua vida, Salman Rushdie continuou a escrever e a publicar de forma intensa ao longo da década de 1990, através de títulos como "O chão que ela pisa" ou "O último suspiro do mouro", insistindo no recurso de fábulas alegóricas, com laivos históricos e filosóficos, nas quais o diálogo e a contaminação entre o Ocidente e o Oriente estão fortemente representados.

Na década seguinte, marcada pela receção crítica favorável e pela conquista do Hutch Crossword Book Award, publicou "Fúria" e "Shalimar, o palhaço", dois dos seus livros mais bem sucedidos comercialmente.

A sua obra mais recente, "Quichotte", encerra uma trilogia e propõe "um Dom Quixote épico para a vida moderna", apresentando Sam DuChamp, um escritor medíocre viciado em telelixo.

Em entrevistas a propósito do livro, o escritor sublinhou o seu desencanto pela evolução da sociedade nas últimas décadas, afirmando que "o Mundo, tal como sempre o conheci, está a chegar ao fim".

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