Perfil

Kamala, a menina do autocarro, a mulher que chegou mais longe

Kamala, a menina do autocarro, a mulher que chegou mais longe

Vice-presidente é filha de imigrantes e bate todos recordes.

Será ou não coincidência, mas, no ano de maiores tensões raciais desde a era Luther King, uma mulher de cor, filha de imigrantes, uma indiana e um jamaicano, chega à vice-presidência dos Estados Unidos. Não será coincidência. Terá sido escolhida por isso, também. E porque tem sangue na guelra. Chama-se Kamala Harris e, para lá do tom da pele, é mulher. Nunca nenhuma chegou tão alto no país das oportunidades. "Conseguimos!", disse ontem ao presidente eleito, Joe Biden, num telefonema. Conseguiram uma eleição que é muito mais do que deles, diz ela. "É sobre a alma da América e o nosso desejo de lutar por ela".

E a alma da América, disse-o sempre, é a de gente como ela, como a mãe, Shyamala Gopalan, a investigadora oncológica que voou de Deli para a Califórnia, casou com Donald Harris, economista negro jamaicano, e, certo dia, ensinou isto às filhas: nunca devem permitir que lhes digam quem são. As filhas cresceram com isto em mente, uma, Maya, seguiu o dito à letra e fez-se ativista dos direitos, a outra seguiu pela ciência política na "Harvard Negra" (Universidade Howard) pela justiça, chegou a procuradora (a primeira negra na Califórnia), subiu ao Senado (a segunda negra a fazê-lo) e estará, a partir de 20 de janeiro, no Observatório Naval de Washington, residência dos vice-presidentes dos EUA.

Crescer entre protestos

Kamala Harris, 56 anos, tem o sangue a ferver desde cedo. Escreveu-o na brigaria: tem memórias precoces de "um mar de pernas a mover-se em toda a volta" dela em protestos. E, num dia de 1977, miúda de 13 anos, liderou uma manifestação contra o proprietário de um prédio de Montreal, no Canadá onde vivia com a mãe, porque proibira as crianças de brincar no jardim. Ganhou a causa. Notabilizou-se, mais tarde, com decisões que lhe valem o epíteto de "juíza vermelha" entre os republicanos e as críticas de excessiva moderação (com veredictos sobre polícias, por exemplo) ou excessiva dureza (agressiva mesmo) entre os democratas.

Kamala é, afinal, apenas pragmática. E, diz-se, ideologicamente maleável. Diz-se, também, que é a "Obama no feminino", colocada naquele centro a olhar para a esquerda de um partido onde o seu agora novo chefe, Joe Biden, se posta no exato meio. Escolhê-la foi o compromisso para agradar a progressistas e moderados, com a certeza de que defenderá as políticas de saúde herdadas de Obama e irá mais fundo na dignificação das políticas migratórias.

Kamala era ainda proponente a candidata democrata quando mostrou a fibra de que é feita: num debate às primárias democratas, olhou Biden e disse-lhe que fora, outrora, daqueles que questionavam as políticas contra a segregação racial que consistiam em levar crianças negras para escolas fora dos bairros. "Havia uma menina na Califórnia que era transportada para a escola todos os dias. Essa menina era eu."

PUB

A menina impôs-se. Casou com um judeu branco. Ouviu o presidente dos EUA chamá-la de monstro e fingir não lhe conseguir dizer o nome. E conseguiu passar-lhe a perna. Biden, o líder, faz 78 anos no próximo dia 20. Kamala é, sobretudo, a grande reserva democrata para o futuro.

NOMEAÇÃO

Mais de dois meses de burocracia até à Casa Branca

Passado o dia eleitoral, de meio deste mês até 14 de dezembro, e após os resultados terem sido certificados, o governador de cada estado emitirá os certificados de verificação. Até 8 de dezembro, os estados têm de ter resolvidos quaisquer diferendos em relação aos seus grandes eleitores. Essa resolução tem de acontecer até seis dias antes da reunião deles. Só assim os seus votos serão considerados válidos pelo Congresso. A 14 de dezembro, os grandes eleitores reúnem-se nos respetivos estados e votam para o presidente e vice-presidente. Nove dias depois, aqueles votos têm de chegar às mãos do presidente do Senado. Em 6 de janeiro, o Congresso reúne-se para contar os votos dos grandes eleitores. O atual vice-presidente, Mike Pence, enquanto presidente do Senado, supervisiona a contagem e anuncia o resultado. O processo eleitoral termina obrigatoriamente a 20 de janeiro, com a tomada de posse do presidente e do vice-presidente.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG