Ciência

Cientistas testam vacina da BCG no combate à Covid-19

Cientistas testam vacina da BCG no combate à Covid-19

Investigadores australianos vão testar uma vacina utilizada para tratar a tuberculose, a BCG, em profissionais de saúde contagiados com a Covid-19. Na Europa, vários países seguem o mesmo caminho e acreditam que esta pode ser uma arma importante no combate ao novo coronavírus.

"Embora originalmente tenha sido desenvolvido para tratar a tuberculose e de ainda ser administrado a mais de 130 milhões de bebés anualmente, o BCG (Bacilo de Calmette-Guérin) também aumenta o consumo de substâncias imunológicas básicas do corpo", explicou um dos investigadores do Instituto Murdoch, em Melbourne, para justificar a experiência com profissionais de saúde.

Em declarações à Agência France Presse, o líder da equipa de investigadores, Nigel Curtis, explicou que, se o BCG atuar como é previsto, haverá "uma redução na frequência e gravidade dos sintomas" da Covid-19 nos profissionais de saúde que estão infetados.

O ensaio clínico vai envolver cerca de quatro mil profissionais de saúde nos hospitais australianos para verificar a capacidade desta vacina na redução dos sintomas da doença provocada pelo SARS-CoV-2. Testes que vão ser feitos noutros países, como Alemanha ou Reino Unido. A Holanda planeia avançar esta semana com a vacinação de cerca de mil médicos e enfermeiros.

"Vão testar se uma vacina secular contra a tuberculose (TB), uma doença bacteriana, pode acelerar o sistema imunológico humano de uma maneira ampla, permitindo combater melhor o vírus que causa a doença de Covid-19 e, talvez, impedir a infeção", escreveu, a 23 de março, Jop de Vrieze, jornalista holandês especializado em ciência, que também é médico e investigador.

Mas há quem acredite que a vacina do BCG é uma proteção que milhões de pessoas já têm, uma arma inoculada nos primeiros dias da vida, nos últimos 100 anos. "Há alguns dias, foi publicado um mapa da Alemanha, detalhando o desenvolvimento da Covid-19 e existe uma diferença significativa entre a antiga Alemanha Oriental e a antiga Alemanha Ocidental", observou Lyubima Despotova, presidente da Sociedade Búlgara para os Cuidados Continuados e Paliativos.

"A Alemanha Oriental é até três vezes menos afetada. E, novamente, há uma coincidência entre o uso massivo de BCG na antiga Alemanha de Leste, a ex-RDA, e a Alemanha Federal que, nos anos noventa, deixou de a aplicar", acrescentou Despotova, referindo uma correlação entre a existência de mais casos em países onde a BCG foi abandonada ou nunca foi generalizada.

"Os países que abandonaram a vacina contra a tuberculose (BCG) há décadas estão atualmente no meio de uma epidemia e são severamente afetados", acrescentou Despotova, em declarações à Rádio Nacional Búlgara, e reproduzidas pela TSF.

Os Estados Unidos da América, que registaram um recorde de mortos em 24 horas, 1169, numa altura em que contabilizam já mais de 240 mil infetados, nunca usaram de forma generalizada a vacina da BCG. "O mesmo ocorre com a Espanha, severamente afetada, enquanto o vizinho Portugal vacina os seus filhos desde o nascimento até aos 12 anos de idade. E essa é a diferença", adianta a investigadora búlgara.

Portugal abandonou a BCG em 2017

A curva de progressão da Covid-19 é menos acentuada em Portugal do que em outros países. Porque o país olhou para Itália e Espanha e agiu mais cedo, impondo medidas de restrição e distanciamento social, fechou escolas e universidades e teve mais tempo para se preparar.

No entanto, Despotova acredita que a BCG, incluída desde o primeiro momento no Plano Nacional de Vacinação, criado em 1965, e retirada em 2017, é um dos fatores que ajuda a achatar a curva.

Durante 52 anos, a esmagadora maioria dos portugueses foi inoculada com a BCG, uma vacina administrada numa única dose, aos bebés recém-nascidos, de preferência antes de saírem da maternidade, desde que tivessem mais de dois quilos de peso.

"Basta uma dose para conferir proteção", dizem as orientações da DGS, que ainda estão disponíveis no site da Direção-Geral de Saúde, apesar de a BCG já não fazer parte do PNV. Segundo este guia, a tuberculose normalmente afeta os pulmões mas pode apresentar qualquer outra localização.

Tuberculose e Covid-19 têm sintomas muito semelhantes

A tuberculose, uma infeção respiratória, tem sintomas muito similares ao da Covid-19. Numa noutra, o principal sintoma é a tosse, mas pode manifestar-se também cansaço, febre ou dores torácicas.

A grande diferença é que a tuberculose é de origem bacteriana, combate-se com antibiótico; a Covid-19 é vírica, não tem, para já tratamento. Apesar de haver alguns medicamentos em desenvolvimento, um dos quais já em testes e com resultados prometedores, a maior esperança para o combate da humanidade ao Sars-Cov-2 é uma vacina, a ser tentada, criada, testada em vários países do Mundo.

Mas há uma antiga, com mais de 100 anos, que pode ser uma ajuda importante enquanto a Ciência, que trabalha unida como talvez nunca se tenha visto, não consegue fazer chegar ao mercado uma vacina.

Um artigo publicado na revista científica Science refere que a BCG "pode aumentar a capacidade do sistema imunológico de combater outros patógenos que não a bactéria da TB, de acordo com estudos clínicos e observacionais publicados há várias décadas pelos investigadores dinamarqueses Peter Aaby e Christine Stabell Benn".

A dupla de cientistas, que dirige o projeto de saúde Bandim, na Guiné-Bissau, onde vive e trabalha, concluiu que a vacina da BCG previne cerca de 30% das infeções por qualquer patógeno conhecido, incluindo vírus, no primeiro ano após ser ministrada.

E compensa vacinar os mais velhos e aqueles que não foram vacinados?

"A vacina BCG, administrada após o nascimento, pode evitar as formas mais graves da doença", pode ler-se no site da DGS. "A vacinação dos recém-nascidos pode protegê-los contra a meningite tuberculosa. Pode proteger ainda as crianças com menos de cinco anos de outras formas graves de tuberculose. Após os 12 meses de idade, a proteção que a vacina confere é variável e menos efetiva", lê-se no documento.

Mas Despotova está disposta a desafiar as probabilidades elencadas pela DGS. Caso a vacina da BCG seja comprovada como eficaz na luta contra a Covid-19, aquela especialista búlgara defende a vacinação das pessoas, independentemente da idade e das recomendações das autoridades nacionais de saúde, cujas diretrizes, em alguns casos, podem ser quase tão antigas como a centenária vacina.

Como a BCG pode treinar sistema imunológico para combater a Covid-19

Quando um agente patogénico entra no corpo, os glóbulos brancos, a nossa primeira e inata linha de defesa, atacam e conseguem lidar com 99% das infeções. No caso de falharem, as células "adaptativas" do sistema imunológico, as células T e as produtoras de anticorpos B, juntam-se à batalha.

Quando o agente patogénico é eliminado, uma pequena porção das células invasoras é transformada em células de memória que vão acelerar a produção de células T e B, preparando o sistema imunológico para uma reação mais rápida a um novo ataque do mesmo agente patogénico.

O romeno Mihai Netea, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, descobriu que a BCG ativa não só a células B e T micobacterianas mas também estimula a células inatas durante um período mais longo.

"Treino imunitário", define Netea, que juntamente com Evangelos Giamarellos, da Universidade de Atenas, na Grécia, está a desenvolver uma investigação para verificar se a BCG pode aumentar a resistência a infeções em pessoas idosas.

Eleanor Fish, imunologista da Universidade de Toronto, no Canadá, diz que a vacina, provavelmente, não vai eliminar as infeções causadas pelo novo coronavírus, mas que certamente terá impacto na diminuição dos efeitos do Sars-Cov-2 nas pessoas.

Fish diz que se pudesse seria vacinada com a BCG, mas manifesta reservas na forma como está a ser conduzido o estudo de Netea, que vai admnistrar placebo a uns e vacina a outros, para poder comparar resultados.

A vacina deixa uma marca no braço, para toda a vida, e para evitar que aqueles que tomam o placebo se apercebam disso, o local da "inoculação" será tapado, enquanto durar o ensaio. Mas é pouco provável que todos resistam a espreitar e isso pode comprometer os resultados, diz Fish.

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