O Jogo ao Vivo

França

Como se desenha um crime hediondo: a morte de um professor de cidadania num ataque terrorista

Como se desenha um crime hediondo: a morte de um professor de cidadania num ataque terrorista

Era segunda-feira, 5 de outubro, e o professor de História-Geografia encarregue das aulas de educação para a cidadania resolveu falar aos alunos de liberdade de expressão na escola de Bois-d"Aulne, em Conflans-Sainte-Honorine, regiao de Paris.

E explicou-lhes que era o que estava em causa no caso das caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal satírico "Charlie Hebdo", uma liberdade consagrada constitucionalmente que não foi aceite por um comando islamista radical e acabou com a morte de 13 pessoas num atentado.

Samuel Paty, era esse o seu nome, mostrou um desenho, Maomé agachado com uma estrela na nádega. Houve quem não gostasse, não se sabe o circuito de difusão da polémica, apenas que o caso chegou ao pai de uma aluna que apresentou uma queixa em que denunciava, até, pedopornografia. Nem o pai, nem a aluna responderam à convocatória das autoridades para serem ouvidos, mas o professor e outros foram-no no seio escolar, que concluiu pela lisura da aula e do docente, que acabou a queixar-se por difamação. Porque a história chegou às redes sociais, pelas mãos de um pai que chama Samuel de delinquente, alegava que o professor pedira aos alunos muçulmanos para se identificar a sair (o que veio a verificar-se ser mentira) e que pedia que se pusesse "um fim" a este tipo de situações. Outro vídeo de outra pessoa pediu a expulsão de Samuel, ameaçou com manifestações e acusou o presidente francês de "atiçar o ódio contra os muçulmanos". E telefonemas com ameaças caíam, multiplicadas, na secretaria da escola.

Foto no Twitter

Samuel Paty tinha 47 anos e era pai de uma criança. Às 16.57 horas de sexta-feira, depois de alunos o identificarem, foi abordado por Abdoullakh Abouyezidvitch A., russo de origem chechena nascido em Moscovo em 2002, sem ligação à Rússia desde 2008, gozando do estatuto de refugiado e sem sinalização por radicalização. Único registo: um delito menor em 2016. Até sexta-feira. Com uma faca de 30 centímetros, decapitou Samuel, em frente à escola. Foi abatido pela Polícia pouco depois. Não vivia nem estudava ali.

Antes de morrer, juntou o texto que escrevera às 12.17 horas no telemóvel à fotografia que tirou a Samuel e publicou o lote na conta @Tchetchene_270, no Twitter. Está confirmada como sendo dele. "Em nome de Alá, todo misericordioso, muito misericordioso, a Macron, dirigente dos infiéis, executei um dos teu cães do inferno que ousou rebaixar Maomé, acalma os seus semelhantes antes que vos infligemos um castigo duro".

O choque é generalizado, posto em causa o dever de ensinar a Constituição, a homenagem a Samuel será nacional, no dia 21. E a investigação por terrorismo estende-se. Quatro familiares do atacante estão detidos, como outras seis pessoas, entre elas o pai que publicara um dos vídeos e cuja irmã se alistou no "Estado Islâmico" na Síria em 2014. Há um militante islamista referenciado e membro do Conselho de Imãs de França, Abdelhakim Sefrioui, entre os detidos - aparecia nos vídeos...

Outras Notícias