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Covid-19 no Brasil. Uma tragédia anunciada que põe o mundo em risco

Covid-19 no Brasil. Uma tragédia anunciada que põe o mundo em risco

Há mais de um ano que o mundo enfrenta o desconhecido e combate o novo coronavírus apenas com uma pequena luz ao fundo do túnel. O Brasil bateu e continua a bater recordes no que diz respeito ao número de mortos e infetados. O país está em "guerra" com um vírus invisível, visto como "uma gripezinha" pelo presidente Jair Bolsonaro.

A situação pandémica no Brasil piora de dia para dia. Em 2020, no pico da primeira vaga, as imagens que chegavam da cidade de Manaus, no estado do Amazonas, chocaram o mundo. O colapso dos hospitais e das funerárias foram o expoente máximo do inferno que a região do interior brasileiro viveu. E quando se pensava que o pior já tinha passado, eis que o país sul-americano volta a tropeçar nas suas próprias fragilidades e cai numa segunda vaga, que se tem revelado mais letal e preocupante que a primeira.

A previsão dos médicos, epidemiologistas e outros cientistas era de que o colapso visto no Amazonas se viria a repetir no resto do país por diversos motivos: as festividades de fim de ano, a baixa adesão da população às medidas restritivas e a variante mais contagiosa que se espalhava a todo o gás. O presságio confirmou-se.

De acordo com o boletim epidemiológico semanal da Organização Mundial da Saúde (OMS), o aumento das mortes por covid-19 no Brasil é um dos maiores entre os países mais afetados pela doença. Mais de 12% dos óbitos no mundo são no Brasil. A verdade é que há mais de 40 dias que a média de mortes no Brasil está acima de mil e as previsões apontam que este valor vai continuar a crescer. Ao todo, mais de 260 mil brasileiros já perderam a vida, mas os especialistas acreditam que o pior ainda está para vir.

Mas a situação brasileira é também um risco para o mundo, porque se há coisa que esta pandemia mostrou é que a desgraça de uns rapidamente atinge todos. E a ciência tem uma certeza, o descontrolo pandémico no Brasil pode pôr em risco os avanços feitos pelo resto do mundo contra a covid-19.

O país em alerta vermelho

"Pela primeira vez, desde o início da pandemia, verifica-se em todo o país o agravamento simultâneo de diversos indicadores, como o crescimento do número de casos, de óbitos, a manutenção de níveis altos de incidência de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), alta positividade de testes e a sobrecarga de hospitais", segundo um boletim da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o maior centro de investigação médica da América Latina, no início desta semana. Quarta-feira, foi registado o maior número de vítimas mortais até ao momento, num total de 1910 em apenas 24 horas.

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A fundação afirma ainda que, no momento, 19 dos 26 estados brasileiros apresentam taxas de ocupação das unidades de cuidados intensivos (UCI) acima de 80%, quando no boletim anterior, 15 dias antes, eram 12. "O cenário alarmante, segundo a análise, representa apenas a ponta do icebergue de um patamar de intensa transmissão no país. Perante isso, os pesquisadores acreditam ser necessária a adoção de medidas não-farmacológicas mais rigorosas", diz também o documento divulgado pela Fiocruz.

Veja aqui a evolução da ocupação de unidades de cuidados intensivos.

Vários estados vivem o colapso dos seus sistemas de saúde, tanto nos hospitais públicos como nos privados. Em São Paulo, a maior cidade do país, três dos maiores hospitais privados estão muito próximos de esgotar a capacidade. No hospital Albert Einstein, onde foi diagnosticado o primeiro caso de infeção no Brasil, bateu-se o recorde de internamentos em fevereiro.

O mesmo acontece em cidades do interior do estado, que até tinham sido mais poupadas, mas que desde o início do ano atingem novos recordes. Por exemplo, em Araraquara, uma cidade com 238 mil habitantes a 270 quilómetros de São Paulo, não há vagas nas unidades de cuidados intensivos há uma semana e em janeiro e fevereiro morreram 113 pessoas, mais do que em todo o ano anterior por causa da covid-19.

No entanto, há uma região brasileira que não escapou ao drama da pandemia na primeira vaga e repete a dose, agora, no pico da segunda.

A variante de Manaus, o terramoto covid no maior estado brasileiro

As imagens mais chocantes e dramáticas da pandemia de covid-19, no Brasil, vieram de Manaus, a capital do estado do Amazonas. Os caixões empilhados, as valas comuns enormes e o caos dos hospitais eram o levantar do véu do terror que se viveu na cidade, durante o pico da primeira vaga da pandemia.

Quando, no final de dezembro, o número de casos de covid-19 voltou a subir expressivamente em Manaus, os cientistas ficaram surpreendidos. Isto porque, apesar das incertezas que existem relativamente à imunidade dos doentes curados, um estudo publicado na revista Science estimava que 76% da população de Manaus tinha sido exposta ao SARS-CoV-2 até outubro. Por isso, seria expectável que as pessoas estivessem pelo menos "temporariamente" imunes.

A justificação chegou no início de janeiro. As autoridades brasileiras confirmaram a existência de uma nova variante do vírus em circulação no país, oriunda do estado do interior do Brasil, a P.1 também comummente conhecida como a variante de Manaus. Atualmente, mutação brasileira está presente em 29 países.

Em comunicado divulgado na altura, a Fundação Oswaldo Cruz explicou que as amostras dessa nova variante acumulavam "um número incomum de alterações genéticas, além das verificadas na chamada proteína 'Spike'", e que se "assemelhavam ao padrão observado" nas variantes detetadas no Reino Unido e na África do Sul. Surgia, assim, mais uma mutação do vírus.

Apesar de não ser um organismo vivo, o coronavírus consegue replicar-se, infetar, matar e até adaptar-se às mais variadas condições. É esta capacidade de adaptação que pode explicar as mutações e o aparecimento de novas variantes. A verdade é que faz parte do processo natural de evolução do vírus sofrer mutações para tentar sobreviver.

Segundo dois estudos preliminares já divulgados, acredita-se que esta nova variante brasileira tem uma carga viral até dez vezes mais elevada e é capaz de iludir o sistema imunitário de quem já tinha anticorpos.

"Provavelmente, faz as três coisas ao mesmo tempo: é mais transmissível, invade mais o sistema imunitário e deve ser mais patogénica", disse à agência espanhola Efe Ester Sabino, professora de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do grupo da USP que participou na investigação.

O estudo preliminar, realizado por investigadores brasileiros e ingleses, sugere que a nova variante detetada no estado do Amazonas seja entre 1,4 e 2,2 vezes mais transmissível do que as outras. Em janeiro, a nova variante do coronavírus estava presente em 91% dos casos de infeção analisados no estado do Amazonas.

Os cientistas também concluíram que a nova variante é capaz de se evadir ao sistema imunitário, concretamente entre 25 e 61%, e causar uma nova infeção, mesmo em indivíduos já infetados. "Não se podem explicar tantos casos a não ser pela perda de imunidade", disse Ester Sabino, que coordenou o estudo juntamente com o investigador Nuno Faria, da Universidade de Oxford.

Um outro estudo dos investigadores da Fiocruz indica que a carga viral no corpo de indivíduos infetados com a P.1 pode ser até dez vezes maior.

Se a situação hospitalar já era débil antes da chegada do coronavírus, a crise pandémica só veio adensar o problema. Desde o final do ano passado que se assiste ao colapso do sistema de saúde nos hospitais de Manaus, que já chegaram, inclusive, a ficar sem oxigénio para tratar os doentes.

A verdade é que o estado do interior brasileiro reunia as condições perfeitas para este cenário catastrófico. Desde o início que os níveis de respeito pelas regras de isolamento social são dos mais baixos do país. O presidente de Manaus, Arthur Virgílio, admitiu que as autoridades fracassaram no combate à propagação da covid-19 na cidade. "Fracassámos aqui, o governador e eu. No Amazonas não acataram as nossas recomendações, os decretos não foram obedecidos e o povo está nas ruas", lamentou Virgílio, durante uma entrevista ao jornal Valor.

As medidas restritivas e a crise política

É certo que a covid-19 se trata nos hospitais, mas é na rua que se previne a propagação do vírus. Por isso, as medidas de contenção são extremamente importantes na hora de salvar vidas e de garantir a capacidade de resposta das unidades hospitalares. Depois de semanas a abrandar as medidas, os estados brasileiros começaram a apertar o cinto no que diz respeito às liberdades dos cidadãos.

O Rio de Janeiro é a mais recente cidade a anunciar um encerramento parcial, ao colocar restrições nos horários de funcionamento dos bares e restaurantes e ao suspender a atividade comercial nas praias.

O governador de São Paulo, João Doria, anunciou que o estado com 46 milhões de pessoas vai voltar à fase mais restrita do confinamento, a partir do próximo sábado. A mudança prevê que apenas os setores essenciais como farmácias, supermercados e transportes funcionem, antevendo-se, assim, uma redução de fluxo em 80%. O governador declarou ainda que "as próximas duas semanas serão as duas piores da pandemia".

Também o governo de Pernambuco anunciou o encerramento das praias, parques e clubes sociais aos finais de semana e limitou a circulação na rua, impondo recolher obrigatório entre as 20 horas e as 5 horas.

Mas enquanto as regiões tentam recompor-se do embate da covid-19, o presidente, Jair Bolsonaro, líder da extrema-direita negacionista no país, reagiu com duras críticas a essas medidas e avisou que só vão agravar a crise económica, afirmando que "o povo quer trabalhar" e "não ficar trancado em casa".

Desde o início da pandemia que Bolsonaro está em pé de guerra com os governadores do país e recusa-se a aceitar a gravidade da pandemia. Na última frase marcante sobre a pandemia, o presidente pediu ainda aos brasileiros que "parem de choramingar" por causa da covid-19.

"Por quanto tempo vão continuar a chorar por causa disso. Quanto tempo mais vão ficar em casa e fechar tudo? Já ninguém o suporta. Lamentamos as mortes, mais uma vez, mas precisamos de uma solução", afirmou Bolsonaro num evento esta semana.

Numa entrevista concedida à BBC, o governador de São Paulo considerou Jair Bolsonaro "maluco" por atacar "governadores e presidentes de câmara que querem comprar vacinas e ajudar o país a pôr fim a esta pandemia".

"Infelizmente, o Brasil tem de combater, neste momento, dois vírus: o coronavírus e o vírus Bolsonaro. Isto é uma tristeza para os brasileiros", declarou João Doria.

Para combater a inação do governo federal, os governadores dos estados anunciaram na terça-feira que se vão unir para comprar vacinas diretamente aos fabricantes.

O plano de vacinação brasileiro

A grande aposta do mundo para travar a pandemia do novo coronavírus e restabelecer a normalidade passa pela vacinação.

O Brasil iniciou a imunização contra a covid-19 a 18 de janeiro. Desde dessa data, a campanha de vacinação brasileira já foi interrompida, em vários estados, por falta de vacinas. Apesar das complicações, mais de sete milhões de brasileiros já tomaram a primeira dose da vacina e cerca de dois milhões já finalizaram a imunização, ou seja 3% da população, segundo dados da G1.

O Brasil é o país da América Latina que vai receber mais doses de vacina covid-19 no âmbito do programa Covax, criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para assegurar a distribuição equitativa de vacinas. Vai receber cerca de 9 milhões de doses até maio, mais 3,6 milhões do que o segundo país da região, o México.

Além disso, o governo federal vai fazer um acordo para comprar doses de mais duas vacinas contra a covid-19, da Pfizer/BioNTech e da Johnson & Johnson. A intenção é adquirir 138 milhões de doses até o fim deste ano.

Como o fracasso do Brasil põe em risco o mundo?

O surto descontrolado de coronavírus no Brasil tornou-se uma ameaça global que corre o risco de gerar novas e ainda mais letais variantes, alertou um dos principais cientistas do país sul-americano.

"O mundo deve falar com veemência sobre os riscos que o Brasil está a colocar à luta contra a pandemia", disse Miguel Nicolelis, um neurocientista da Duke University ao "The Guardian". "De que vale a pena resolver a pandemia na Europa ou nos Estados Unidos, se o Brasil continua a ser um terreno fértil para este vírus?", rematou.

O cientista a viver em São Paulo garantiu que a atual realidade é um terreno fértil para o vírus. "O Brasil é um laboratório ao ar livre para o vírus proliferar e eventualmente criar mutações mais letais", advertiu Nicolelis. "Isto é sobre o mundo. É global", garantiu.

A nação com mais de 210 milhões de habitantes é o segundo país do mundo com mais vítimas mortais pela covid-19, apenas atrás dos Estados Unidos.

"Se nada for feito podemos perder 500 mil pessoas no Brasil até ao próximo mês de Março. É uma perspetiva horrível e trágica, mas neste momento é perfeitamente possível", disse o cientista, numa altura em que o país vive o capítulo mais mortífero da pandemia.

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