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O pássaro azul meteu-se com Trump e ele ameaçou "fechar" redes sociais

O pássaro azul meteu-se com Trump e ele ameaçou "fechar" redes sociais

Donald Trump ameaçou "regular" ou "fechar" as redes sociais, um dia depois de o Twitter ter assinalado, pela primeira vez, duas das suas publicações com alertas de verificação de factos.

Até quarta-feira, o Twitter era o canal de comunicação oficial do presidente dos EUA. Porque, para Donald Trump, os outros sujeitam-se aos desígnios dos média, mentirosos e perseguidores. Até ontem. O Twitter resolveu tratar dois tweets do inquilino da Casa Branca como tem tratado a desinformação sobre a pandemia de covid-19 e sublinhou as publicações com ligações para verificação de factos. Atentado à liberdade de expressão, gritou Trump, em maiúsculas, prometendo regular ou mesmo fechar a rede social. E, do ponto de vista de investigadores em comunicação, terá algum fundo de razão: se o Twitter não alargar a prática a outros políticos e figuras públicas, pode legitimar as queixas de perseguição.

Em causa estiveram publicações em que o presidente republicano critica o envio de votos por correspondência aos eleitores pelo governador (democrata, claro) da Califórnia, acusando-o de tecer uma operação de fraude eleitoral, por via de extravio de votos e de campanha porta a porta a incentivar a votar em determinado candidato. "Confira os factos", inseriu o Twitter, remetendo para notícias segundo as quais o voto por correspondência não está ligado a fraude, publicada pela CNN e pelo "The Washington Post". Dois dos média que Trump mais classifica de "fake".

Alimento da vitimização

Ainda que qualquer iniciativa que procure lutar contra a desinformação nas redes seja bem-vinda, selecionar apenas um alvo pode levar ao efeito contrário. "Se parece fazer sentido porque a conta de Trump é um desfiar de notícias falsas, pode contudo ter o efeito contrário", explica Inês Amaral, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho. Porque alimenta a estratégia de "vitimização" face aos média, antes os tradicionais, agora, os sociais, e reforça a qualidade de "candidato antissistema", que conta com "uma legião de seguidores e de bots" (perfis robôs) para multiplicar a mensagem..

"Não é a melhor forma de começar a campanha" para as eleições de novembro, diz a investigadora, secundada por Francisco Conrado, do mesmo CECS. "Se o objetivo é trazer algum equilíbrio à guerra de informação que existe online, penso que selecionar uma única pessoa pode não ter o resultado desejado. Isto porque Trump insistentemente prega aos seus seguidores que é vítima de perseguição dos média e agora estes encontram neste simples facto a confirmação da teoria".

Se se trata de alertar para informações falsas e "diminuir a guerra de trincheiras que existe online em torno do que é a verdade", acrescenta Francisco Conrado, o mecanismo "pode levar ainda mais à radicalização dos discursos, quando os utilizadores começam a pôr em causa a própria credibilidade da plataforma".

Escrutínio deve ser alargado

Se não alargar, no mínimo, ao candidato democrata, Joe Biden, a iniciativa do Twitter pode ser lida como "interferência" nas eleições, "porque escrutina apenas um", diz Inês Amaral . "Não sei qual está a ser a lógica do Twitter. Ou é um teste, ou uma forma de favorecer Trump", admite mesmo a investigadora. "É o candidato contra todos".

Escrutinar Biden "mostraria alguma isenção nos critérios", confirma Francisco Conrado, mormente se está em causa travar as fake news na campanha para as presidenciais.

A ferramenta de "fact check" agora usada pelo Twitter contra Trump é ainda mais alvo de perplexidade pelo facto de a rede ter recusado apagar um tweet lançando suspeitas de homicídio sobre o pivô da MSNBC Joe Scarborough, cuja secretária morreu acidentalmente numa queda no escritório há 19 anos. Ou quando o mesmo Twitter apaga duas publicações do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, criticando o confinamento durante a pandemia, invocando a saúde pública, mas não reage ao constante "incentivo ao ódio e a crimes", quer do brasileiro, quer dos filhos dele, quer de Trump, questiona Inês Amaral. Que também admite que, se o Twitter resolver combater o discurso de ódio terá de "eliminar quase 50% dos tweets".

"Ou a rede alarga a ferramenta para pessoas com intervenção na vida pública, por exemplo, ou, se entra só nos reinados populistas, vai destacá-los ainda mais".

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