Retirada

Americanos deixam Cabul aos talibãs

Americanos deixam Cabul aos talibãs

Último avião militar dos EUA abandonou, esta segunda-feira à noite, o aeroporto internacional Hamid Karzai. Na capital ouviram-se tiros a celebrar a saída das forças internacionais.

As últimas forças militares norte-americanas saíram esta segunda-feira à noite do Afeganistão, pondo fim a vinte anos de presença no país. Ao mesmo tempo, na cidade ouviam-se rajadas de armas automáticas, em celebração pelo fim da ocupação estrangeira. No total desta operação de retirada, os EUA garantem ter transportado quase 80 mil civis, mas muitos terão ficado para trás, por falta de tempo e de capacidade logística. Ainda assim, os responsáveis norte-americanos garantem que não havia mais pessoas para retirar no aeroporto.

Nos últimos cinco aviões, seguiam apenas cidadãos não norte-americanos. Esses tinham já deixado Cabul doze horas antes, garantiu o general Frank McKenzie, numa declaração aos jornalistas no Pentágono, onde sublinhou que os talibãs tiveram uma abordagem "pragmática e empresarial" à operação de transporte de pessoas. Disse mesmo que ajudaram os militares a proteger a zona, durante os momentos mais complicados da evacuação. No total, foram 7500 civis transportados por dia, num esforço de cinco mil militares, que se envolveram nesta ponte aérea.

Do lado das forças que agora controlam o Afeganistão, apesar dos problemas que vão enfrentar, com a possibilidade de uma guerra civil à espreita, há um clima de satisfação. "Fizemos história", afirmou um oficial sénior talibã, citado pela BBC.

Situação já era tensa

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A instabilidade no país estava a aumentar a grande velocidade, com as forças dos EUA a falarem em ameaças "reais" e "específicas". Tão reais que nesta disputa entre o lado que ataca e o lado que protege morreram mais dez pessoas. Sete delas eram crianças. Só esta segunda-feira, a célula terrorista ISIS-K reivindicou o lançamento de mais seis "rockets" que deveriam cair no aeroporto de Cabul, afirmando que os engenhos "atingiram os seus alvos". Todavia, o grupo fundamentalista talibã revelou que, na sua maioria, os "rockets" aterraram em áreas desocupadas.

Já os EUA terão conseguido intercetar, com sucesso, através do seu sistema de defesa antimísseis os "rockets" disparados. As informações são contraditórias não se sabendo ainda quem afinal matou os civis. Todavia, o Pentágono garantiu que está a investigar os relatos sobre as mortes que advieram do ataque com drones, anteontem, mas "não está em posição de debater" esta situação que terá roubado a vida a nove pessoas de uma família, um trabalhador humanitário, Zemari Ahmadi, e um colaborador do governo norte-americano.

A braços com um cenário de caos e terror, os talibãs mantêm a esperança de que a célula do Estado Islâmico (EI) irá cessar as investidas violentas, agora que americanos saíram de cena. Se isso não suceder, o novo governo irá "intervir". "Esperamos que os afegãos sob influência do EI abandonem as suas operações assim que observarem a entrada em vigor de um governo islâmico", declarou o principal porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, em uma entrevista concedida à AFP.

Tal como alertou o presidente do Tajiquistão, Emomali Rakhmon, Cabul tem uma potencial guerra civil à espreita, caso as grandes potências falhem em estabilizar o Afeganistão. Para os norte-americanos, o problema fica por momentos para trás, com a garantia de que o novos senhores do país vão "colher o que semearam", com a libertação de prisioneiros militantes do Estado Islâmico, durante a investida até à capital.

Embaixador e general no último voo

O último avião C-17 norte-americano descolou do aeroporto de Cabul, às 20.29 horas de Portugal continental, segundo o Pentágono. O embaixador e um general foram os últimos norte-americanos a deixar o Afeganistão, disse o Pentágono. "A bordo do último avião estava o general Chris Donahue. Estava acompanhado pelo embaixador Ross Wilson", disse o general Kenneth McKenzie, em conferência de imprensa.

Na tarde de terça-feira, o presidente norte-americano, Joe Biden, vai explicar a sua decisão de "não prolongar a presença dos EUA [no Afeganistão] além de 31 de agosto", em conferência de imprensa, de acordo com um comunicado da Casa Branca. A Casa Branca esclareceu que Biden falará às 18.30, hora portuguesa.

Os Estados Unidos terminaram hoje a sua guerra mais longa com a retirada militar do Afeganistão, país que invadiram há 20 anos, logo após terem sofrido os ataques terroristas de 11 de Setembro. Os EUA deixam o Afeganistão de novo nas mãos dos talibãs, cujo primeiro regime (1996-2001) tinham derrubado em dezembro de 2001, quando o grupo extremista se recusou a entregar o então líder da Al-Qaida, Osama bin Laden.

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