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EUA e Alemanha espiaram Portugal e 120 países durante décadas

EUA e Alemanha espiaram Portugal e 120 países durante décadas

Mais de cem países, incluindo Portugal, recorriam a uma empresa especializada em encriptação de dados que era secretamente controlada pelos serviços secretos norte-americanos e alemães. Uma investigação jornalística revelou como os dois países tiveram acesso a vários segredos de Estado.

Depois da II Guerra Mundial, durante a qual trabalhou nas comunicações do exército norte-americano, a empresa suíça Crypto AG tornou-se líder de na área dos equipamentos de encriptação (conversão ou transmissão de dados em código), concretizando contratos no valor de "milhões de dólares" com mais de 120 países. A empresa tinha como função garantir que as comunicações de cada país permaneciam totalmente confidenciais e seguras, mas, durante décadas, a agência de informação norte-americana CIA e a congénere alemã BND tiveram acesso privilegiado aos dados, revelou uma investigação conjunta do "Washington Post", da televisão alemã ZDF e da estação suíça SRF.

Os órgãos de comunicação em causa consultaram documentação confidencial, que detalha a forma como as agências de inteligência consultavam informação secreta de outros Estados, usando-a a seu favor. A lista dos 120 países alvo integra 12 nações europeias, entre as quais Portugal e Espanha.

Através de uma transação secreta realizada na década de 1970 e no âmbito de uma "parceria altamente confidencial" com o agora extinto BND, a CIA adquiriu a Crypto AG, tendo passado a controlar todas as suas decisões. A investigação avança que os serviços secretos "manipulavam os equipamentos da empresa para que pudessem facilmente decifrar os códigos que os países [clientes] usavam para enviar mensagens encriptadas".

Através do controlo da empresa, detalha o artigo, a CIA e o BND conseguiram, por exemplo, monitorizar a crise de reféns na Embaixada dos Estados Unidos em Teerão (1979), dar informações sobre o exército argentino ao Reino Unido durante a Guerra das Malvinas (1982), acompanhar as campanhas de assassínio de ditadores sul-americanos e intercetar mensagens de regozijo de responsáveis líbios depois de um atentado numa discoteca em Berlim Ocidental (1986), que matou dois soldados norte-americanos. Foi o golpe de inteligência do século", concluiu um relatório da CIA, datado de 2004, citado pelo "The Washington Post".

De acordo com a investigação agora divulgada, a agora extinta União Soviética e a China nunca foram clientes da Crypto AG, porque suspeitavam de que teria laços estreitos com os EUA, ficando as suas comunicações fora do alcance do rival norte-americano. A CIA só abandonou o projeto em 2018, quando vendeu os ativos da empresa (a BND já se tinha afastado no início da década de 1990).

A CIA e os serviços secretos alemães não quiseram comentar o conteúdo da investigação jornalística, mas não negaram a autenticidade dos documentos consultados. A empresa Crypto International, que comprou a Crypto AG, admitiu que os dados revelados são "muito alarmantes", assegurando, no entanto, que a atual empresa "não tem qualquer ligação com a CIA ou com o BND".

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