Solidariedade

Família deixou tudo e fez escola para refugiados na Turquia

Família deixou tudo e fez escola para refugiados na Turquia

A comunidade internacional celebra hoje, 20 de junho, o Dia Mundial dos Refugiados. Fá-lo desde 2001, um ano depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter instituído a data. Para uma família brasileira, que deixou o Brasil rumo aos campos de refugiados da Turquia, onde se acumulam vidas e memórias, o esforço para assinalá-la é diário.

As imagens de uma Síria tomada pelas cinzas e os gritos, ensurdecedores de tão puros, de crianças perdidas dos pais e com sangue na roupa e na pele não passaram ao lado de Lucas e Joziana, 34 e 33 anos. Em janeiro, deixaram o sol do Brasil para levarem calor aos migrantes sírios que foram encontrando abrigo na Turquia.

Em 2014, quando o casal começou a organizar viagens periódicas ao país, já o conflito sírio ia a meio e tinha causado qualquer coisa como 190 mil mortos, segundo dados do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, e 3,5 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

O Observatório viria, a 13 de março último, a elevar o número de mortes para meio milhão e para mais de 12 milhões o número de almas que tiveram de levar a casa (ou o que dela restava) às costas para tentar a sobrevivência. O conflito começara em 2011, com protestos violentos contra o poder do presidente Bashar al-Assad, e não parece ter fim à vista.

A fronteira turca com a Síria, vista como porta de entrada para a Europa, tem feito da Turquia um dormitório, onde, segundo a agência governamental Anadolu, já chegaram mais de 3,5 milhões de migrantes desde 2011. Mais de 970 mil são crianças em idade escolar, dizia o ministro da Educação turco, İsmet Yılmaz, em março.

Foi a pensar nesses que, em janeiro, Lucas e Joziana Cabral chegaram à Turquia, com os dois filhos e sem bilhetes de regresso, e criaram um centro educacional e recreativo onde hoje são acompanhados cerca de 80 jovens sírios, com idades entre os três e os 13 anos. "Não conseguíamos encontrar voluntários que trouxessem ajuda à Turquia. Por isso, tomámos nós a iniciativa", conta Lucas ao JN. Através de apelos no Facebook, chamou mais gente para a causa. Hoje, são quase 30 os voluntários com quem trabalha no país. Os filhos, João Pedro, 10 anos, e Maria Clara, 8, adotados no Brasil, não tiveram dúvidas de que o lugar onde pertenciam era ao pé dos pais, a ajudarem miúdos tão novos como eles.

O centro, situado num bairro da cidade de Esenyurt, província de Istambul, funciona, para já, apenas às terças e sextas, com atividades lúdicas e aulas de inglês. É um substituto da escola, onde "muitas crianças não vão por não terem vaga".

Manter o espaço exige o investimento de cerca de seis mil liras turcas por mês, o equivalente a dois mil euros. O valor, para o qual contribuem todos os voluntários, serve para cobrir as despesas com o aluguer do espaço e o pagamento de água e luz e para "dar um lanchinho" às crianças.

Quando não estão no centro, Lucas e Joziana reúnem com organizações não-governamentais e visitam os migrantes, que "estão em três sítios: nos campos, nas casas e nas ruas".

"A falta de perspetiva de futuro" é o maior desafio

Uma das maiores dificuldades que Lucas encontrou foi a língua. "A Turquia é uma passagem rumo à Europa, por isso os tradutores não ficam cá muito tempo". Mas desafio maior do que tentar arranhar árabe ou fazer os sírios perceberem inglês foi ter de lidar com os desafios daqueles pelos quais estava ali: "a falta de perspetiva de futuro". Mesmo para quem só tem futuro pela frente.

"Quando pergunto às meninas o que é que querem ser daqui a uns anos, respondem-me que querem casar. Para elas, o casamento é a única opção de um futuro melhor. Os pais põem as filhas a viver com homens mais velhos para diminuírem os custos. Passam a ser sustentadas por outro".

Na Turquia, um visto de refugiado não permite ter um emprego. Quem trabalha fá-lo ilegalmente e sujeita-se a mil liras por mês, o equivalente a cerca de 194 euros. "Seiscentas liras são para o aluguer da casa, 200 para a água, a luz e o gás, sobram outras 200 para o resto. Para alimentar os filhos. A maior parte dos refugiados come só duas vezes por dia. É uma situação muito triste", lamenta Lucas, cuja missão é combater a falta de "esperança na mudança" e "aumentar o leque de perspetivas".

"Tentamos mudar mentalidades e mostrar às meninas que podem ser engenheiras, professoras. O que quiserem". Mostrar-lhes que o passado já passou e há muito caminho para andar.

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