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GameStop: como a rebelião de David abalou os Golias de Wall Street

GameStop: como a rebelião de David abalou os Golias de Wall Street

Deixando a ver navios os principais atores da bolsa de valores dos Estados Unidos, um grupo de pequenos investidores vai vencendo em Wall Street, abalada, nos últimos dias, por um complô que levou à extrema valorização de empresas com baixa cotação.

A história que se segue é uma espécie de "David e Golias" que tem o mercado financeiro norte-americano como arena de combate: como a obra clássica de Malcolm Gladwell, também esta nos confronta com a premissa de que algumas limitações podem tornar-se vantagens. A personagem principal desta história que deixou Wall Street em alvoroço esta semana é a GameStop, uma empresa dedicada à venda de artigos relacionados com jogos eletrónicos, que cada vez mais tem vindo a competir com as grandes cadeias de comércio digital.

Apesar da concorrência de peso, a GameStop disparou em bolsa mais de 1800% desde o início de janeiro. Como? Através de uma estratégia levada a cabo por um grupo de pequenos investidores amadores que se uniram para fazer subir a cotação de empresas pequenas. Definindo táticas em grupos privados online, provocaram enormes valorizações de firmas com baixa cotação e, pelo caminho, deixaram à beira do colapso alguns fundos de cobertura ("hedge funds", em inglês).

Braço de ferro entre pequenos e grandes

Esta "revolta" dos pequenos investidores - como lhe chama a imprensa financeira norte-americana - foi, antes de mais, espoletada pela entrada de Ryan Cohen, fundador de uma empresa de produtos para animais, no capital e na administração da GameStop. O investimento fez subir as ações da empresa mas alguns fundos de investimento começaram a apostar na queda de valor. Fizeram-no através de operações de venda a descoberto ("short selling"), que consistem em pedir ativos emprestados a outros investidores, vendê-los na esperança de que o preço caia e, mais tarde, comprá-los a um preço mais baixo, devolvendo-os ao dono original e lucrando com a diferença entre o valor de venda e o de compra (são operações de risco, uma vez que podem gerar prejuízos elevados caso o valor das ações suba).

Comunicando pelo Wall Street Bets (Apostas de Wall Street, em português), um fórum da plataforma Reddit, vários investidores amadores descontentes com o ataque à GameStop juntaram-se numa missão que, até agora, valeu o risco: além de terem comprado ações, adquiriram opções de compra de ações. Ou seja, pagaram a outros investidores para garantirem o direito de comprar os títulos a um determinado preço mais tarde - se o valor das ações subisse, tinham lucro, se descesse, tinham prejuízo. De facto, as ações subiram e o sucesso foi tanto que quem vendeu opções de compra acabou por ter de comprar ações da empresa em larga escala para não ficar a perder. Dessa forma, as cotações, que já estavam altas, subiram ainda mais.

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Cada ação da GameStop, que valia 19 dólares (cerca de 15 euros) no início deste ano, valia, no fim de quarta-feira, 18 vezes mais: 348 dólares (287 euros). O valor de mercado da empresa aumentou entre terça e quarta-feira mais de dez mil milhões de dólares, número altamente inflacionado que não corresponde ao valor real.

Esta reviravolta gerou, por um lado, ganhos significativos aos estudantes, donos de restaurantes e pequenos agentes imobiliários que investiram, e, por outro, perdas avultadas aos investidores que tinham apostado na descida das ações. Alguns desses fundos de cobertura, como o Melvin Capital, já tiveram de ser resgatados com mais capital para não afundarem.

Bolsa com os piores resultados desde outubro

O sucesso da fórmula foi de tal ordem que o combate entre Davides e Golias se alargou a outras empresas atacadas pelos mesmos fundos, que lucram quando alguém vai à ruína. Assim, a cadeia de cinemas norte-americana AMC Entertainment quadruplicou ontem o valor de mercado e as ações da American Airlines subiram hoje mais de 30%, apesar de a companhia aérea registar um prejuízo anual líquido de 8,9 mil milhões de dólares.

As dificuldades que os pequenos investidores estão a causar a alguns dos principais atores de Wall Street podem justificar que, apesar da subida astronómica das pequenas ações, os principais índices da bolsa tenham registado, na quarta-feira, uma descida superior a 2% - a mais acentuada desde outubro.

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