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O "demoníaco" Che Guevara persa

O "demoníaco" Che Guevara persa

"O campo de batalha é o paraíso perdido da humanidade. O paraíso onde a virtude e os atos dos homens estão no seu ponto mais alto". Qassem Soleimani não morreu no campo de batalha, mas também não morreu no sofá, em casa, ideia que abominava. Porque ele era a personificação da guerra, das armas e das estratégias.

Era o agente secreto-espião-diplomata-político iraniano, a alma internacional da República Islâmica que venerou desde a mais tenra hora, em 1979, o líder da al-Quds, braço armado externo dos Guardas da Revolução descobertos logo depois, mal o vizinho Saddam Hussein tentou contrariar a emancipação xiita do Irão.

"As pessoas como ele têm medo de morrer na cama. Ele quer ser um mártir". O epitáfio antecipado é de Abdullah Ganji, diretor do jornal dos Guardas da Revolução. É o mais palavroso. Há outros, esdrúxulos. Napoleão. Che Guevara iraniano. James Bond. Lady Gaga. Pelo estrelato, este último, dito pelo antigo analista da CIA Kenneth Pollack, numa altura em que Soleimani figurou entre a 100 figuras mais influentes do Mundo. Em 2017.

Xiita, religioso, conservador, era consensual no Irão. Idolatrado por radicais e moderados. Porque foi o arquiteto do Médio Oriente de hoje. Porque "deu" ao país uma costa no Mediterrâneo - através da Síria e do Líbano. Porque se construiu a ele próprio, vindo do nada.

Nasceu pobre, em Rabor, província sulista de Kerman, em 1957, filho de camponeses cujas dívidas ajudou a pagar ainda criança, aos 13 anos, a trabalhar na construção civil. Cresceu sedento. Na juventude - era viciado em culturismo - e na carreira nos Guardas da Revolução, a partir dos 22 anos.

Organiza a resistência ao Iraque de Saddam Hussein, chega a chefias intermédias, em Kerman e junto ao Afeganistão, cria redes de contactos e informadores e dá por líder da al-Quds para dar cabo dos talibãs que tomaram Cabul. Aí, suprema ironia, é Soleimani quem dá aos EUA as informações que conduziriam à queda da cidade, em novembro de 2001.

Ainda que o Irão fosse, dois meses depois, metido na lista do "eixo do mal" desenhado pelos EUA, Soleimani percebe que a perseguição de Saddam Hussein, líder sunita, era aquilo que o Irão mais desejava. E assim foi: o "comandante na sombra" organizou os líderes xiitas no exílio, fez deles governo em Bagdade, fingindo dar dicas aos EUA, e ajudou a formar as milícias pró-iranianas. Na Síria, constrói milícias xiitas internacionais e orquestra a entrada da Rússia no conflito. No Líbano, controla o Hezbollah. É um "general internacional", a segunda figura do Irão depois do ayatollah, acima do presidente. Consta que só foi ferido uma vez e que dizia que seria "soldado até ao fim da vida, se Deus quiser". "Demoníaco", diria David Petraeus, o general que liderou os norte-americanos no Iraque.

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