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"Homem Pateta" deixou Brasil em alerta, mas evidências são frágeis

"Homem Pateta" deixou Brasil em alerta, mas evidências são frágeis

É conhecido como "Homem Pateta", por se apresentar com uma foto da fantasia da personagem da Disney, e o "modus operandi" é semelhante ao do desafio "Baleia Azul" ou da boneca "Momo": através das redes sociais, uma ou mais pessoas estão a contactar crianças e adolescentes para os incitar à automutilação e suicídio. O alarme soou no Brasil no mês passado, mas o primeiro perfil terá sido criado na Europa em 2017. O JN sabe que há crianças portuguesas que tiveram contacto com a personagem, mas a Polícia Judiciária revela que não tem qualquer registo.

O caso do "Homem Pateta" ganhou repercussão no Brasil no passado 17 de junho, quando a Polícia Civil e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina emitiram um alerta a pais, professores e outros responsáveis sobre perfis nas redes sociais "que têm assustado crianças na Internet com conteúdo de terror e mensagens que podem induzir ao suicídio".

Esses perfis surgiam com o nome "Jonathan Galindo" e apresentavam a fotografia de um homem fantasiado de Pateta, personagem da Disney. Mas as fotos usadas pelo "Homem Pateta" e divulgadas pela Polícia são na verdade do artista e cineasta norte-americano James Fazzaro, que publicou em 2012 e 2014 as imagens no Facebook, onde divulga os seus disfarces com próteses e fantasias. Nas publicação originais, as fotos do Pateta são relacionadas com personagens inventados por James, com os nomes "Gary LeGeuff", "Larry LeGeuff" e "Buck the Trucker".

De acordo com as autoridades brasileiras, os perfis do "Homem Pateta" entram em contacto com crianças e adolescentes propondo-lhes desafios que envolvem automutilação e que podem induzir ao suicídio. "Este perfil faz o desafio para que o interessado envie uma mensagem privada e, em resposta, passa a enviar vídeos, textos, áudios e até a fazer videochamadas. Essas mensagens causam desconforto, medo, terror e podem até induzir ao suicídio", explicou a delegada da Polícia Civil Fernanda Lima, num vídeo no Instagram.

No final de junho, as autoridades brasileiras divulgaram uma série de alertas para pais de crianças que utilizam diariamente a Internet e em especial as redes sociais. No entanto, esses perfis começaram a aparecer na Europa em 2017, com publicações em espanhol. As práticas são semelhantes às de outros casos em anos anteriores, como o do desafio da "Baleia Azul", em 2017, e da boneca "Momo", em 2018.

Polícia admite que evidências são "frágeis"

Muitos pais ficaram assustados com as notícias sobre a personagem, mas a Polícia Civil de Santa Catarina afirmou ao jornal "O Estado de S. Paulo" que o alerta foi emitido com base num único relato de uma família do Paraná.

Segundo a delegada Patrícia Zimmermann D'Ávila, responsável pelo caso, a mãe de um menino de 10 anos contou que o filho teve um "ataque de pânico" depois de ver um vídeo do suposto "Homem Pateta". A mensagem teria sido enviada numa conversa privada por um perfil com o nome "Jonathan Galindo" na rede social TikTok.

No entanto, os investigadores não tiveram acesso ao conteúdo, porque os pais apagaram o perfil da criança, explicou Ivan Castilhos, agente do Núcleo de Inteligência e Segurança Institucional (NIS) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, revelando que foram encontrados perfis semelhantes ao do "Homem Pateta" apenas em espanhol, criados desde 2017.

D"Ávila admite que as evidências são frágeis e afirmou que a pesquisa sobre o suposto "Homem Pateta" não resultou em "nada de concreto". A delegada justificou o alerta como uma forma de prevenção e de estímulo ao controlo dos pais e responsáveis sobre os conteúdos a que os filhos acedem nas redes sociais.

A Polícia Federal e a Polícia Civil do Distrito Federal, que também divulgaram alertas sobre o assunto, afirmaram ao "Estadão" que não registaram nenhum caso de crianças vítimas do "Homem Pateta". A associação SaferNet Brasil, que recebe denúncias de crimes virtuais, também não recebeu nenhum relato de vítimas.

"Não encontramos até ao momento evidência de envolvimento em incitação ao suicídio, apenas perfis falsos com a imagem do "Homem Pateta" tentando alastrar pânico e medo em grupos escolares. Até onde sabemos não há nenhuma investigação em curso", afirmou a SaferNet Brasil.

Contactada pelo JN, a Polícia Judiciária diz não ter registo de qualquer caso em Portugal, mas o JN sabe que há crianças portuguesas que já tiveram contacto com a personagem no TikTok.

Alerta nacional e pista da Interpol

Na semana seguinte ao alerta da Polícia de Santa Catarina, a Polícia Federal reproduziu as informações para emitir novo alerta a nível nacional. A nota informa que o "Homem Pateta" é um "novo desafio" em que o criminoso "atrai a atenção da criança para uma conversa privada". Ao "Estadão", a Polícia Federal afirmou que "não possui estatísticas sobre o suposto crime nem fonte disponível para falar sobre o tema".

No dia 30 de junho, a Polícia Civil do Distrito Federal divulgou ter descoberto que o autor do perfil "Jonathan Galindo" seria italiano e estaria preso, com base em informações cedidas pela Interpol. Porém, aquele órgão afirmou que a informação "ainda depende de confirmações" e não há registo de ocorrências do Distrito Federal que envolvam o "Homem Pateta".

No dia 1 de julho, alguns jornais brasileiros noticiaram o relato de uma cirurgiã-dentista de Brasília que teria apresentado queixa na Polícia Civil do Distrito Federal depois de o filho de 10 anos ter trocado mensagens com um suposto perfil do "Pateta" em inglês, no Instagram. O suspeito teria exigido que o menino ficasse a conversar durante o dia todo e quando a mãe viu as mensagens e entrou em contacto com ele, teria ameaçado a criança.

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