Instituto polaco declara gato como "espécie exótica invasora" e sai arranhado pelos donos

Arquivo/Global Imagens
Os gatos foram incluídos na lista polaca de animais exóticos invasores. O público mostrou as garras e a Academia Nacional de Ciências saiu arranhada.
A Academia Nacional de Ciências polaca anunciou, no final de julho, que o gato doméstico comum havia sido declarado pela instituição como uma "espécie exótica invasora" na Polónia, por causar danos significativos à fauna e ao equilíbrio dos ecossistemas nativos locais.
De acordo com a agência de notícias Associated Press, a lista onde o felino passou a estar incluído já contava com outras 1786 espécies, todas elas declaradas exóticas e invasoras sem qualquer objeção do público, contrariamente ao que - sem surpresas, se tivermos em conta a adoração por gatos dos seus fiéis donos - aconteceu com esta última integração.
A poeira levantada foi tal que o biólogo Wojciech Solarz, a quem coube fazer a declaração inicial, teve de acorrer à televisão para justificar a decisão da Academia, que veio entretanto divulgar um estudo da Universidade de Ciências Biológicas de Varsóvia sobre os danos que os gatos causam a aves e a outros animais selvagens. A investigação estimou, em 2019, que os gatos domésticos matam 583 milhões de pequenos mamíferos e 135 milhões de aves por ano, no país.
Já oito anos antes, um estudo internacional liderado pelo Conselho Superior de Investigação Científica assegurava que os gatos eram "uma das espécies invasoras mais nocivas para as comunidades de vertebrados", tendo a sua ação, ao longo da história, contribuído para a eliminação de pelo menos 14% dos vertebrados extintos. Isto porque gatos caçam presas mesmo se alimentados, afetando outras espécies, explicavam, na altura, os autores, asseverando que os gatos haviam ainda causado a extinção de 33 espécies animais e que ameaçavam 8% das listadas como críticas pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Descontentamento público
A Academia Nacional de Ciências explica, no site, que o gato comum foi domesticado há cerca de 10 mil anos no berço das grandes civilizações do antigo Médio Oriente, o que torna a espécie estranha à Europa do ponto de vista estritamente científico. Sublinhando que "se opõe a qualquer tipo de crueldade sobre os animais", a instituição alega que a atual classificação cumpre as orientações da União Europeia, esclarecendo que o animal está fora da lista de espécies exóticas invasoras que representam uma ameaça para organização internacional não por não ser um problema para a fauna local mas, simplesmente, porque há demasiados. "Devido à presença massiva desta espécie no meio doméstico e no ambiente natural, é pouco provável que a inclusão do gato doméstico na lista [da UE] mitigue o seu impacto de maneira efetiva", assinala o organismo polaco.
Os estudos e números lançados pela instituição não foram, no entanto, suficientes para reprimir o descontentamento público e foram muitas as vozes contra que se fizeram ouvir. Descontentamento que, apontou Wojciech Solarz, foi baseado na falsa impressão de que a Academia Nacional de Ciências estava a defender a eutanásia de gatos de rua. O especialista enfatizou que o instituto apenas recomenda que os donos de gatos limitem o tempo que os seus felinos de estimação passam ao ar livre durante a época de reprodução das aves. E terminou com uma frase que poderia ter tanto de esclarecedora como de inflamadora: "Tenho um cachorro, mas não tenho nada contra gatos."
