Entrevista

A carta de amor a Portugal de uma ex-refugiada que escapou à guerra

A carta de amor a Portugal de uma ex-refugiada que escapou à guerra

Antiga refugiada kosovar em Portugal assinalou os 20 anos do fim da guerra com carta de amor ao país.

Arbnora Gosalci tinha vida longa pela frente e só pensava que ia morrer. Aos 11 anos, "sobreviver à guerra era a única preocupação". Aos 31, sabe que há desassossegos que "nenhuma criança devia suportar". O sonho da liberdade mantinha-a desperta. Isso e as sirenes que anunciavam ataques, as bombas, os tiros de armas. Era demasiado nova para ouvi-los, para saber, pela televisão, que andava tanta gente a morrer à sua volta, para sair de casa à força, sem lhe garantirem que haveria de voltar.

Corria o ano de 1999. Faltavam meses para o fim da Guerra do Kosovo e o início da reconstrução do país, mas na altura Arbnora não sabia que aquele inferno ia acabar. "O exército sérvio entrou em nossa casa [na capital, Pristina] e expulsou-nos. Fomos a correr para a estação de comboios." Foi com a família, a pé, sob um "céu arrepiante e horrendo", pelas ruas onde antes brincava e que agora eram iluminadas pelo "fogo das casas incendiadas".

Levaram só duas malas, uma com comida, outra com documentos e fotografias. "Tínhamos instruções para entrar no comboio e não olhar para trás, íamos embora do Kosovo. Um comboio terrível, cheio de pessoas a chorar e crianças aos gritos", recorda Arbnora, em conversa com o JN. Dali foi com os pais, as irmãs e o resto da família para a Macedónia, onde, à chegada, as caras tristes estavam cansadas e já não havia lágrimas para chorar. "Exaustos" e "humilhados", ficaram pouco tempo no país vizinho. Até virem para Portugal. A página virou.

Arbnora foi uma dos cerca de 1300 kosovares que naquele ano aterraram no aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, onde acabariam por regressar meses depois.

Chegou a 15 de maio a São Pedro do Estoril, o lugar onde pela primeira vez na vida ouviu a palavra "REFUGIADO". Assim, em letras grandes, como escreveu numa carta aberta que é um hino de amor a Portugal. Ao Portugal que a deixou continuar a ser criança.

"Foi o país que nos abriu as portas e me devolveu a infância, a alegria, as ambições e os sonhos", recorda na mensagem, grata, lembrando que os sorrisos portugueses eram, mais do que sinal de cordialidade, um "sê bem-vinda" estampado na cara. "As pessoas foram muito boas connosco. São Pedro do Estoril era perto do mar, podíamos ver o oceano. Foram memórias muito felizes".

Arbnora foi acolhida na colónia balnear da fundação "O século". Aos fins de semana ia passear com um casal - agora a viver no Canadá - que a levava a um parque para brincar com a filha pequena, com quem ainda mantém contacto. Recorda que havia uma senhora velhinha que lhe mostrou Lisboa. Sabe que era uma artista conhecida em Portugal, já falecida, mas não se lembra do nome.

Fã da seleção portuguesa

De todas as recordações que guarda de terras lusas, a melhor leva-a de volta a um jogo de futebol, no Estádio de Alvalade. Era 5 de junho, Portugal jogava na fase de apuramento para o Euro 2000, contra a Eslováquia (ganhou 1-0). "Desde essa altura que me tornei fã devota da seleção portuguesa. Digo com orgulho que vi quase todos os jogos desde então". Diz também, a rir-se, que não saberia por quem torcer num confronto entre Portugal e Kosovo. "Seria sempre uma vitória."

Quase 20 anos depois do regresso ao berço, aonde voltou a 26 de julho "para contribuir para a formação do novo Estado, então queimado e despedaçado", Arbnora, de 31 anos, formada em Marketing, dirige um negócio local no Kosovo.

É feliz por lá viver. Mas quer um dia voltar à terra onde os sorrisos dos outros foram a causa dos seus. "Gostava de regressar a Portugal, e fá-lo-ei de certeza". Mas não para já: o Kosovo é o único país da região dos Balcãs que não possui isenção de vistos para os países da União Europeia.

Numa altura em que a crise migratória para a Europa espoleta argumentos extremados e faz crescer a força de movimentos de extrema-direita, Arbnora fala do que viveu. "Acredito que qualquer refugiado no mundo deva ser aceite e ajudado. Compreendo que com tantos migrantes a virem para a Europa seja difícil gerir, mas primeiro devíamos ser humanos e entender que eles não estão a vir só para construírem uma vida melhor, estão a vir porque sofreram muito nas suas casas, onde é impossível viver."

O Kosovo assinalou na semana passada o 20.º aniversário do fim do conflito entre independentistas kosovares e forças sérvias, a que se seguiu uma intervenção militar da NATO, concluída a 9 de junho de 1999 com a assinatura de um acordo de paz.