Congresso

"Dexit": Extrema-direita propõe saída da Alemanha da UE

"Dexit": Extrema-direita propõe saída da Alemanha da UE

A extrema-direita alemã, reunida esta sexta-feira em congresso, poderá quebrar mais um tabu na Alemanha fazendo campanha pela saída do país da União Europeia - a que se chamaria "Dexit" - a alguns dias de uma votação fundamental sobre o "Brexit" no parlamento britânico.

O projeto de programa eleitoral de 58 páginas da Alternativa para a Alemanha (AfD) acusa a UE de se ter "tornado uma estrutura não-democrática concebida por burocracias pouco transparentes e não controladas".

A formação de extrema-direita exige igualmente reformas profundas até 2024, ou seja, até ao fim da próxima legislatura europeia, e adverte que, em caso contrário, "uma retirada da Alemanha ou uma dissolução ordenada da União Europeia serão necessárias", sendo o cenário da saída alemã batizado como "Dexit", com "D" de "Deutschland" (Alemanha).

O texto será até segunda-feira submetido à votação dos cerca de 400 delegados reunidos em Riesa, na região de Saxe, um dos bastiões eleitorais da AfD.

O partido quer "uma melhor União Europeia", disse o seu presidente, Jörg Meuthen, na abertura do congresso cujo objetivo é definir a estratégia a adotar para as eleições europeias de 26 de maio.

Depois de aumentar exponencialmente a sua votação nas eleições dos últimos três anos devido à sua posição anti-imigração, ao ponto de se ter tornado em 2017 o principal partido da oposição na Câmara dos Deputados aos conservadores da chanceler Angela Merkel e aos social-democratas, a AfD regressa um pouco às origens, já que quando nasceu, em 2013, se afirmou pela sua rejeição do euro na Alemanha.

Todavia, quanto à saída da Alemanha da UE, os seus membros hesitam ainda em ir demasiado longe perante uma opinião pública alemã maioritariamente pró-europeia.

A AfD "quer mergulhar o nosso país e o nosso continente no caos", declarou Alexander Graf Lambsdorff, membro do partido liberal FDP.

"Esse posicionamento constitui uma normalização desta direita nacionalista em relação ao que se passa nos países vizinhos, em Itália ou em França", comentou o historiador e politólogo Klaus-Peter Sick, citado pela agência noticiosa francesa AFP.

"Ao avançar os seus peões nesse domínio, a AfD realiza um teste dentro do próprio partido e junto do seu eleitorado para saber se é um tema relevante", sustentou.

O texto suscita divisões dentro do próprio movimento e o politólogo não tem a certeza de que seja adotado tal como está redigido.

Por exemplo, Jörg Meuthen, cabeça de lista da AfD às eleições para o Parlamento Europeu, eurodeputado e líder dos moderados do partido, sugeriu que se substitua a data-limite para a saída da Alemanha da UE -- agora, cinco anos, na ausência de reformas profundas na UE -- pela formulação mais vaga de "um prazo razoável".

Este congresso decorre dias antes da votação no parlamento britânico, marcada para 15 de janeiro, do acordo de 'Brexit' negociado entre Londres e a União Europeia, existindo, em caso de rejeição, a ameaça de uma saída mais desvantajosa para o Reino Unido.

A história da Alemanha do pós-guerra mantém-se intimamente ligada à construção europeia, que funcionou, durante muito tempo, como identidade nacional de substituição para um país humilhado e envergonhado após a barbárie nazi.

Os alemães continuam a ser uma das nações mais ligadas à UE: 51% deles dizem ter "mais confiança" na UE, numa sondagem do Parlamento Europeu realizada em novembro de 2018 - mais nove pontos percentuais que a média europeia e mais 23 pontos percentuais que em 2015.

Outrora um tabu, o euroceticismo e até mesmo a eurofobia já não o são totalmente, com a AfD.

O seu programa defende também, além do regresso das moedas nacionais, uma reavaliação da Política Agrícola Comum (PAC) e, sobretudo, a luta contra "a islamização da Europa".

Ao abordar prudentemente a questão de um 'Dexit', a AfD abre uma nova frente política no país depois da questão migratória, quando o partido procura um segundo fôlego após o anúncio da saída programada do poder, o mais tardar em 2021, da chanceler Angela Merkel, até agora o principal alvo da formação extremista.

O congresso da AfD surge também num momento charneira para o partido que estagnou nas sondagens em cerca de 15% das intenções de voto e continua profundamente dividido entre uma ala muito radical, por vezes próxima do movimento neonazi, e outra mais moderada.

Um representante da primeira corrente, André Poggenburg, anunciou hoje a sua saída do partido, por considerar que este não defende suficientemente uma "linha patriótica".