Espanha

Este Porto quer ser galego

A aldeia de Porto em Zamora, Espanha, quer abandonar a região de Castela e Leão e passar a ser parte da Galiza. A vontade foi manifestada num referendo local na última semana e surge como protesto pela não reparação da estrada ZA-102 - , obra prometida em 2011.

Depois de sete anos à espera, a paciência dos pouco mais de 200 portuenses zamoranos esgotou-se. Em causa está o sucessivo adiamento de um investimento de 11 milhões de euros na requalificação da ZA-102, a estrada que dá acesso à aldeia da Alta Sanábria, nas montanhas entre as regiões de Galiza e Castela e Leão, a cerca de 25 quilómetros da fronteira com Portugal e Trás-os-Montes. As obras foram prometidas em 2011 pelo governo regional mas nunca foram concretizadas.

A gota de água foi a instalação de um carregador de carros elétricos na praça central de Porto, ato entendido como uma provocação.

Direito de desfrutar estrada digna

Os portuenses uniram-se e criaram a Plataforma que reclama o "direito de desfrutar uma estrada tão digna como qualquer outra que seja utilizada por milhares de cidadãos", explica o jornal "A Voz da Galiza".

No último domingo, a Plataforma aproveitou a feira de gado local para novamente protestar e revelar os resultados de um referendo local, levado a cabo na rua, em que 80% dos votantes se mostraram favoráveis em sair de Castela e Leão. Os ativistas salientam que não querem a independência e que estariam dispostos a unirem-se à região da Galiza que fica a apenas dois quilómetros de distância.

Uma das dinamizadoras da Plataforma reconheceu ao jornal galego que, "na realidade, com este referendo não podemos aprovar nada mas queríamos ver o que pensavam os cidadãos". E a grande maioria - 207 dos 232 votantes - disse que está disposta a sair de Castela e Leão e também do Parque Natural de Sanábria pois entendem que a região não lhes dá o que precisam.

"Nem autoestradas, nem caminhos de carros"

"Pertencemos a uma zona deprimida e enfrentamos um inimigo sem piedade e insensível como a desertificação que, tal como uma trituradora, vai levando à sua frente gerações e património cultural", lamenta o manifesto da plataforma. "Há muito tempo que reclamamos o arranjo da estrada e não vamos ceder no nosso empenho em exigir o que consideramos justo por ser uma promessa vincadamente por cumprir: uma estrada decente como a que tivemos no passado. Nem autoestradas, nem caminhos de carros", prossegue o documento.

Por várias vezes, os habitantes denunciaram o estado da estrada, considerando que a dimensão dos buracos é um perigo para os veículos e que o piso está numa situação lamentável. Ainda por cima, na praça da aldeia o governo instalou um poste para carregar veículos elétricos. "Quantos carros carregou?", questiona a plataforma, com indignação.

Os portuenses lamentam ainda que os caminhantes que queiram ir até Trevinca, cujo pico mais alto está no município galego de A Veiga, tenham todos os trilhos bem assinalados e limpos menos o trilho que passa pelo Porto.

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