Paquistão

Mataram Afzal Kohistani, o homem que lutou contra os "homicídios de honra"

Mataram Afzal Kohistani, o homem que lutou contra os "homicídios de honra"

Atreveu-se, em 2012, a mobilizar uma campanha contra os chamados "homicídios de honra" no Paquistão. Afzal Kohistani lutou até à noite desta quarta-feira. Foi assassinado a tiro numa rua movimentada de Abbottabad. Um desfecho que não surpreendeu os ativistas pelos Direitos Humanos.

Afzal conseguiu captar a atenção mundial para um tipo de crime muito frequente no Paquistão (mas não só) e encarado como um ato cultural, apesar de punido pela lei. Conhecidos como "crimes de honra", tratam-se de homicídios cometidos por membros de uma família se uma mulher recusar casar; se for vítima de abuso ou violação sexual; se teve relações sexuais extraconjugais ou haver boatos de o ter feito; se desobedecer ao marido; se se vestir ou comportar de forma imprópria. A caraterização do crime é da Human Rights Watch.

Dados oficiais revelam que ocorrem cerca de mil "homicídios de honra" por ano no Paquistão. Contudo, garantem várias Organizações Não Governamentais, os números reais são muito superiores. A maioria das vítimas são mulheres.

Ciente dos riscos que corria, em junho de 2012, Afzal tornou público um vídeo datado de 2011 que mostra dois homens e quatro mulheres a dançar e a cantar ao som de uma música de casamento, alegando que aquelas mulheres tinham sido assassinadas num "crime de honra" e que as vidas dos seus irmãos estavam em perigo.

O Supremo Tribunal de Justiça acabaria por decidir que não havia provas de tais alegações. As mulheres nunca mais apareceram e três dos irmãos de Afzal foram assassinados em 2013. Mais tarde, na sequência da investigação aberta a estes crimes, e numa decisão histórica, seis homens foram condenados por estarem relacionados com os homicídios, mas acabariam por ser libertados por um tribunal superior em 2017.

A pressão mediática de Afzal tornava-se mais forte do que nunca e, em 2018, uma nova investigação criminal levou a mais cinco detenções. Os suspeitos acabaram por confessar à Polícia que três das mulheres que aparecem no vídeo tinham sido mortas, mas, em tribunal, recuaram nas suas declarações.

O caso continua aberto.

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