México

O abraço de Valéria a Óscar ou a guerra contra a migração

O abraço de Valéria a Óscar ou a guerra contra a migração

Um jovem salvadorenho de 25 anos morreu afogado com a filha ao atravessar o Rio Grande para entrar nos EUA. A mulher assistiu, indefesa, à força das correntes. E das consequências das políticas anti-imigração da administração norte-americana.

Do lado de Matamoros é México e o Rio tem nome de Bravo. Além, onde Óscar Alberto Martínez Ramírez tentava chegar com a mulher, Tania Vanessa Ávalos, e a filha de um ano e 11 meses, é já território dos EUA e o Rio é Grande. Os dois apelidos explicam como um soco no estômago a tragédia em que se têm transformado aquelas águas zangadas.

Era já segunda-feira quando a polícia encontrou Valéria, a menina, abraçada ao pescoço de Óscar, na margem sul. Mortos pela corrente. Ele, 25 anos, tinha emprego a aguardá-lo em Dallas. Tania, 21, assistira a tudo 12 horas antes, fim de um dia de domingo em que decidiram parar de esperar por uma reunião e avançar corrente lamacenta dentro, em que Óscar foi pousar a menina aos EUA e regressou para ela, em que Valéria se assustou na outra margem e voltou à água. Assistiu à filha a perder-se nessa água escura, a Óscar a fugir para salvá-la. Tinham uma "permissão" dos serviços de imigração do México, onde estavam há dois meses, e tinham família do outro lado da fronteira que a administração norte-americana se tem dedicado a blindar, à força da chantagem sobre a mexicana.

A história de Óscar e Valéria é apenas a que surge ilustrada em fotos difíceis. No mesmo dia, apareceram os corpos de uma mulher da Guatemala nos 20 anos, dois bebés e uma criança, já na área desértica que compõe a margem norte do Rio, ali já Grande, aos pés do Texas. Não se sabe do que morreram. Somam-se estas mortes às que ao longo do ano têm chocado o mundo, de crianças desidratadas, doentes, esgotadas.

Acordo obscuro

As de agora - a que se junta a de uma salvadorenha de 19 anos apanhada por um disparo da polícia mexicana na interceção do camião em que seguia - são fruto do acordo obscuro a que o México chegou com Washington, depois de o presidente dos EUA ter ameaçado o vizinho com sanções económicas se não fizesse mais para travar o fluxo migratório de latino-americanos.

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, inclinou-se perante Donald Trump e inverteu a política de apoio aos imigrantes que atravessavam o seu território, prometendo remetê-los aos países de origem enquanto, alegadamente, os EUA analisam os pedidos de asilo.

Depois de mobilizar 6500 homens para fechar a fronteira com a Guatemala, enviou outros 15 mil para junto dos EUA. E o ministro da Defesa, Luis Cresencio Sandoval, admite deter indocumentados e remetê-lo para as autoridades de imigração, dado que "a migração [clandestina] não é um crime, mas um delito administrativo". A fugir disso, Óscar morreu. Com a filha abraçada.