Fenómeno Jacinda

Primeira-ministra da Nova Zelândia não deu só abraços. Lei das armas vai mudar

Primeira-ministra da Nova Zelândia não deu só abraços. Lei das armas vai mudar

Depois do atentado que matou 50 pessoas em duas mesquitas da Nova Zelândia, não demorou até a primeira-ministra anunciar mudanças na lei de acesso às armas, enquanto distribuía abraços pela comunidade muçulmana atingida pelo massacre. Jacinda Ardern juntou o melhor de dois mundos: afetos e ação política.

Horas depois de, na sexta-feira passada, um australiano de 28 anos ter matado 50 pessoas em duas mesquitas de Christchurch e arredores, onde entrou com duas armas semiautomáticas e uma câmara para transmitir a sangria em direto, a chefe de Estado neozelandesa foi rápida e categórica em considerar o ato de violência um "atentando terrorista".

"É um dos dias mais negros da Nova Zelândia", afirmou Jacinda na primeira vez em que falou ao país, no rescaldo do ataque, ainda não tinham sido contabilizados todos os mortos. Disse que muitas das vítimas eram imigrantes e refugiados "que escolheram fazer da Nova Zelândia a sua casa" e reforçou a ideia de harmonia e união entre credos. "Eles são nós", disse. "Eles são nós", voltou a dizer.

No dia seguinte à tragédia, chegou de véu a Christchurch, palco do atentado, onde, acompanhada pelos dirigentes de todas as fações políticas, falou com líderes muçulmanos e abraçou familiares das vítimas.

Entretanto, na segunda-feira, anunciou uma reforma à legislação de acesso às armas (atualmente, para se ter uma arma na Nova Zelândia é preciso ter mais de 16 anos e ser aprovado em controlos policiais). A reforma deve ser anunciada dentro de poucos dias.

Recusa dar protagonismo ao terror

O Governo não pode acabar com as ideias xenófobas e extremistas que estiveram na origem do homicídio de meia centena de fiéis, mas pode tentar travar que estas tenham uma plataforma gratuita para se propagarem. Foi nesse sentido que a primeira-ministra prometeu não identificar o terrorista pelo nome, recusando dar-lhe o que notoriamente queria: protagonismo para si e para os seus ideais, que expôs num longo manifesto antes do ataque.

"Tinha obviamente uma série de razões para cometer este atroz ataque terrorista. Exaltar o seu perfil foi uma delas. E isso é algo que podemos negar-lhe", disse Jacinda Ardern, na terça-feira, numa sessão parlamentar extraordinária, que abriu com a expressão árabe "Salam aleikum" (A paz esteja convosco).

"É um terrorista, é um criminoso, é um extremista. Mas, sempre que eu falar, não terá nome", garantiu. E acrescentou: "A pessoa que cometeu esses atos não era daqui, não foi criado aqui. Não encontrou a sua ideologia aqui. Mas isso não quer dizer que esses mesmos ideais não vivam aqui".

Jacinda Ardern, 38 anos, progressista de esquerda, é primeira-ministra da Nova Zelândia desde outubro de 2017, semanas depois de ter sido eleita líder do Partido Trabalhista.

Será uma espécie de chefe da "Geringonça" lá do sítio: não venceu as eleições de setembro anterior (ficou em segundo lugar), mas o apoio do partido nacionalista Nova Zelândia Primeiro (NZP) e dos Verdes possibilitou uma coligação que a catapultou para o poder. Um poder até agora marcado por medidas que promovem a igualdade de género, os direitos parentais e da mulher, a preservação do ambiente e o combate à pobreza infantil. Trabalha por um Governo de "empatia".

Ainda não tinha passado um dia desde o início do mandato e Jacinda já fazia história. Além de ser a mais nova política de sempre a estar à frente dos Trabalhistas, tinha-se tornado a terceira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra neozelandesa e a mais nova chefe de Governo dos últimos 150 anos - só não o é desde sempre porque Edward Stafford, eleito em 1856, venceu o título por dias.

O fenómeno "Jacindamania"

Ainda que tenha ganhado força com as atitudes e posições pós-ataque, a popularidade de Jacinda não é de agora. Ainda não era primeira-ministra e já figurava em memes na Internet - que a punham no lugar de Uma Thurman em "Kill Bill" - e era alvo de comparações com "políticos pop", como Barack Obama e Justin Trudeau. Durante a campanha de 2017, a licenciada em Ciências da Comunicação e também DJ amadora viu-se estampada em camisolas e malas, com o slogan "Let's do this" (Vamos a isto) a acompanhar-lhe a cara.

Por detrás do fogo-de-artifício, uma séria onda de apoio. Escolhida por unanimidade para liderar os trabalhistas, depois da derrota do partido, não desiludiu nas entrevistas que se seguiram e surpreendeu analistas políticos. O Partido Trabalhista recebeu mais de 300 mil euros em doações e a inscrição de 3500 voluntários.

A ascensão de Jacinda fez nascer um fenómeno conhecido como "Jacindamania". Na imprensa, foi também "Jacinderela", "Efeito Jacinda", "Jacindaforia". Para o britânico "The Guardian", "a melhor coisa que aconteceu ao Partido Trabalhista".