
Farida Khalaf conseguiu escapar do autoproclamado Estado Islâmico
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Depois de quatro meses em cativeiro como escrava sexual, jovem yazidi conseguiu escapar ao Estado Islâmico.
Farida Khalaf tinha 17 anos quando foi raptada pelos terroristas do autoproclamado Estado Islâmico. Era agosto de 2014. Vivia com a família na região montanhosa de Kocho, no Iraque. Farida, da minoria yazidi, queria ser professora de Matemática, mas acabou vendida como escrava sexual em Raqqa, na Síria, pelos soldados do grupo extremista. Durante o cativeiro, tentou o suicídio várias vezes. Um dia, aproveitou um descuido e escapou ao terror, fugindo pelo deserto sírio até regressar ao Iraque.
"A rapariga que venceu o Estado Islâmico", livro publicado em Portugal pela ASA, é um retrato mais longo dos quatro meses durante os quais Farida foi atacada pelos terroristas. Agora, procura refazer a vida na Alemanha. Ao JN, diz que almeja levar o "Estado Islâmico" à justiça e procura apoio para libertar as mulheres que ainda sofrem às mãos daqueles terroristas.
Consegue lembrar-se do dia em que foi raptada?
Perfeitamente. Foi no dia 15 de agosto de 2014. Nunca mais esquecerei essa data.
O Estado Islâmico foi implacável com quem não aceitou a visão da "sharia" que pretendiam impor. Como é que a comunidade yazidi viveu com isso?
Sempre nos preocupamos mais com o lado humano do que com a religião. Antes de rezarmos por nós, pedíamos pelos outros. Fossem cristãos ou muçulmanos. Nunca pensamos que o Estado Islâmico fosse atingir um grau tão elevado de maldade e cometer todas aquelas atrocidades, principalmente contra os yazidis. Vivíamos uma situação muito complicada. Mesmo antes da crise provocada pelo Estado Islâmico, por sermos de uma comunidade minoritária, já vivíamos sem os nossos direitos mais básicos. Contudo, conseguíamos ter uma vida simples. Parte da minha família trabalhava na agricultura e muitos seguiam a carreira militar.
Que descrição pode fazer dos dias que passou em cativeiro?
Foi horrível. Fui espancada várias vezes e fiquei mesmo sem conseguir andar dois meses. Quando escapei, por toda a violência que passei, perdi mesmo a visão de um dos olhos.
Há algum momento que recorde com particular dor?
É uma pergunta impossível de responder. Tinha planos para o futuro. Sonhava ser professora de matemática e foi na minha escola que mataram o meu pai e o meu irmão. Já em cativeiro, lembro-me que pegavam nas raparigas mais novas, com oito ou nove anos, e violavam-nas. Não tinham misericórdia por ninguém. Vi mulheres já mais velhas, com as filhas ao lado, a serem torturadas e violadas repetidamente. Isto tudo à minha frente.
As mulheres sempre foram o principal alvo dos terroristas do Estado Islâmico...
Tratavam-nos da pior maneira possível. Cada mulher tem uma história pior do que a outra. As raparigas mais novas eram levadas a meio da noite e regressavam apenas na manhã seguinte. Vendiam-nos sem qualquer ressentimento. Não consigo descrever tudo o que vi.
E como é que foi possível sobreviver a isso?
A fé em Deus foi o meu maior pilar. Sabia que não tinha feito mal a ninguém e que iria sobreviver. Tentei várias vezes o suicídio, mas tive fé e lembrei-me das palavras do meu pai: dizia que se fosse forte conseguiria enfrentar todos os problemas. Enfrentei-os, superando as sucessivas violações e as atrocidades para com todas as crianças.
As imagens que nos chegavam eram as de um grupo fortemente armado. Como é que conseguiu escapar?
Os terroristas receberam a ordem para me matar porque descobriram que o meu pai tinha sido soldado do exército iraquiano. Percebi logo que tinha que fugir ou morreria no dia seguinte. Tinha roubado um telemóvel a um dos chefes do Estado Islâmico e liguei para o meu tio. Ele não acreditava que eu estava viva e tive que repetir as chamadas várias vezes. Como me tentei suicidar, as notícias que lhe chegaram davam conta de que eu tinha morrido.
Ao fim de tanto tempo em cativeiro, o que sentiu ao falar com alguém da família?
Foi uma sensação desoladora. Depois de o ter convencido de que era eu, disse-me que só o meu irmão mais novo estava vivo - só mais tarde, já depois de ter escapado, descobri que a minha mãe estava viva. Expliquei-lhe a minha localização e contou-me que era praticamente impossível fugir.
Mas isso não a demoveu.
Não. Nessa mesma noite escapei com mais cinco raparigas, uma delas com apenas dez anos, que me chamava de mãe - fui espancada muitas vezes por ajudá-la e tentar defendê-la. Aproveitamos uma falha de segurança e corremos sem parar até de manhã. No meio do deserto, encontramos uma casa abandonada e ficamos lá. Depois, reparamos que havia uma habitação ao lado, onde vivia uma família.
Foram eles que as ajudaram?
Sim. Ficamos com eles três dias. Com a ajuda de alguns contrabandistas, conseguimos regressar ao Iraque.
O que é que uma pessoa sente depois de passar tanto tempo em cativeiro?
Fiquei contente por encontrar o meu irmão e o meu tio. Mas, ao mesmo tempo, foi devastador. O meu pai foi assassinado pelos terroristas e a maioria dos meus amigos desapareceu. Muitos ainda continuam presos. Fiquei sem ninguém.
Depois de tudo isto, quais são os planos para o futuro?
O meu grande objetivo é passar pelo maior número de países para encontrar apoio para resgatar as mulheres e as raparigas das mãos do Estado Islâmico. Já foram descobertas mais de 47 valas comuns de yazidis e há centenas de pessoas a viver há três anos em campos de refugiados sem condições. Vou lutar para que consigam a liberdade e quero muito levar o Estado Islâmico à Justiça.
