Clima

Mais um sinal de crise: choveu pela primeira vez no pico da calota polar da Gronelândia

Mais um sinal de crise: choveu pela primeira vez no pico da calota polar da Gronelândia

É mais um sinal claro da crise climática que assola o nosso planeta: chuva caiu onde nunca tinha caído, no cume da enorme calota de gelo da Gronelândia. Pelo menos desde que há registos. Aliás, a precipitação foi tão inesperada que os cientistas nem tinham forma de a calcular.

No pico dos 3216 metros da massa de gelo daquela que é a maior ilha do Mundo, localizada entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico, as temperaturas estão normalmente bem abaixo dos 0ºC e seria altamente improvável - senão mesmo impossível, até agora - que a chuva ali caísse. No entanto, o "impossível" aconteceu entre os dias 14 e 16 de agosto, quando os cientistas na estação de pesquisa da Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos viram as gotas de água a descer do céu em direção ao glaciar. Pela primeira vez desde que há registos.

De tão inesperada que era a precipitação naquela zona do planeta, os cientistas não tinham sequer medidores para calcular, em número exato, o volume da chuva. Mas, em estimativa, acreditam que tenham caído das nuvens cerca de sete mil milhões de toneladas de água em toda a Gronelândia.

O fenómeno aconteceu durante uma vaga de três dias excecionalmente quentes naquela ilha, quando as temperaturas eram 18ºC mais altas do que a média em alguns lugares. Resultado: gelo a derreter um pouco por toda a Gronelândia, que tem mais de 44 mil quilómetros de linha de costa.

Sem precedentes

Os avisos já foram lançados e as consequências já são visíveis em muitas partes do Mundo: vivemos uma crise climática e estamos "a ultrapassar os limites", alertam os especialistas. O episódio na Gronelândia é só mais um sinal claro do impacto ambiental no planeta.

"O que está a acontecer não é simplesmente uma ou duas décadas quentes num padrão climático errante. Isto não tem precedentes. Estamos a ultrapassar limites que não eram vistos em milénios e, francamente, isso não vai mudar até que ajustemos o que estamos a fazer ao ar", disse à CNN Ted Scambos, o cientista do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo da Universidade do Colorado que relatou a queda da chuva no pico da calota de gelo.

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Um relatório recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) concluiu que era "inequívoco" que as emissões de carbono das atividades humanas estão a aquecer o planeta e a causar impactos como o derretimento do gelo e a elevação do nível do mar.

Ponto de não retorno

Em maio, investigadores relataram que uma parte significativa da camada de gelo da Gronelândia estava a aproximar-se de um ponto de inflexão, após o qual o derretimento acelerado se tornaria inevitável, mesmo se o aquecimento global fosse interrompido.

A Gronelândia também teve um episódio de degelo em grande escala em julho, tornando 2021 um dos quatro anos no último século com um derretimento tão grande, como em 2019, 2012 e 1995. A chuva e o degelo de 14 a 16 de agosto ocorreram no último momento do ano em que um grande evento foi registado.

A causa destes fenómenos é a mesma: o ar quente é "empurrado" sobre a Gronelândia e mantido ali. Esses eventos de "bloqueio" não são incomuns, mas parecem estar a tornar-se mais graves, segundo os cientistas.

Se todo o gelo da Gronelândia derretesse, o nível global do mar aumentaria cerca de 6 metros, embora isso levasse séculos ou mesmo milénios para acontecer. Ainda assim, os biliões de toneladas de gelo derretidos na Groenlândia desde 1994 estão a elevar o nível do mar e a colocar em risco as cidades costeiras de todo o Mundo.

O nível do mar já subiu 20 centímetros e o IPCC disse que a variação provável até ao final do século era de mais 28-100 centímetros, embora pudesse chegar aos 200. O gelo da Gronelândia está a derreter mais rápido do que em qualquer outro momento nos últimos 12 mil anos, com a perda de gelo a ocorrer a uma taxa de cerca de 1 milhão de toneladas por minuto em 2019, estimam os cientistas.

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