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Mulheres espancadas e crianças reféns: promessas talibãs já se esvaíram

Mulheres espancadas e crianças reféns: promessas talibãs já se esvaíram

Adolescentes obrigados a usarem mochilas armadilhadas e mulheres violentamente agredidas por tentarem fugir do país. Já há relatos que chegam do Afeganistão a contrariar as promessas feitas pelo movimento radical que, vinte anos depois, voltou a assumir o poder.

A promessa tinha poucas horas e os últimos testemunhos indicam que foi quebrada. As forças talibãs garantiram uma passagem "segura" aos civis que quisessem chegar ao aeroporto de Cabul para deixar o país, mas há relatos de mulheres e crianças espancadas e chicoteadas ao tentarem passar os postos de controlo montados pelo grupo fundamentalista islâmico.

Embora o exército americano tenha assumido o controlo do tráfego aéreo no aeroporto da capital afegã - na sequência do caos lá instalado no passado domingo, com milhares de pessoas a tentarem fugir - o movimento radical controla a estrada que lhe dá acesso, tendo montado vários pontos de vigia no norte de Cabul.

Segundo avança o "The Guardian", os talibãs estão a verificar os documentos dos cidadãos, vedando-lhes, em muitos casos, a passagem até ao aeroporto. O jornal inglês menciona ainda fotografias de uma mulher e de uma criança com ferimentos na cabeça, alegadamente espancadas e chicoteadas ao tentarem passar um desses postos de controlo.

Testemunhos de violência de que o conselheiro de segurança dos EUA, Jake Sullivan, já tem conhecimento. "Estamos a tentar resolver essas questões e preocupa-nos que isso possa continuar a acontecer nos próximos dias", reconheceu. De recordar que o presidente dos EUA já tinha avisado que a interferência talibã no processo de evacuação organizado no Afeganistão seria combatida, se necessário, com uma força militar "devastadora".

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Horas depois de os talibãs terem recuperado, oficialmente, o domínio do país, Abdullah, de 17 anos, foi feito refém, juntamente com outras três ou quatro dezenas de jovens, alguns de apenas 14 anos. "Pediram-nos que pegássemos nas armas e nos juntássemos às suas fileiras", contou à AFP, revelando que os pais tentaram, em vão, que os filhos fossem libertados.

Abdullah foi forçado a atirar granadas e incitado a atacar uma esquadra da polícia. "Estava a tremer. Nem sequer conseguia segurar na arma", contou, revelando que dois ou três meninos acabaram por morrer quando as suas mochilas-bomba explodiram. Outros ficaram gravemente feridos, sem braços ou pernas. E foi nessa altura que o adolescente, num rasgo de coragem e desespero, fugiu. Correu uma hora seguida, até casa, "em choque". E partiu com a família, sem levar nada. Até a comida tiveram de vender para conseguirem chegar a Cabul, após 15 horas de viagem.

Com os pais, irmãos e o avô a dormirem numa tenda, Abdullah só sonha em deixar o Afeganistão, enquanto espera que lhe passem as dores no estômago provocadas pelos socos dos soldados.

Nos últimos dias, os EUA retiraram 3200 pessoas do Afeganistão, número que o Governo espera aumentar nos próximos tempos. Só na terça-feira, foram repatriados 1100 cidadãos americanos e residentes permanentes, bem como as suas famílias, a bordo de 13 aviões militares.

O Reino Unido espera retirar seis mil pessoas e o primeiro-ministro, Boris Johnson, já avisou que "os talibãs serão julgados pelas ações e não pelas palavras".

"Julgaremos este regime com base nas escolhas que faz e pelas suas ações, não pelas palavras, mas pelas atitudes em relação ao terrorismo, ao crime e ao direito das mulheres de terem uma educação", sublinhou, no Parlamento.

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