Ucrânia

O apelo do "fundo do coração" de Guterres numa reunião surreal da ONU

O apelo do "fundo do coração" de Guterres numa reunião surreal da ONU

Ficará para a história como uma das sessões mais surreais do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No preciso momento em que os seus membros iniciavam uma reunião para a tentar impedir, a guerra estalou. António Guterres, atónito, dirigiu-se ao representante russo e fez um apelo "do fundo do coração", pedindo que a Rússia desse uma oportunidade à paz.

A história é contada pelo jornal "The Guardian", que destaca, tanto a forma inusitada como começou a reunião do Conselho de Segurança, quanto a quebra de protocolo por parte do português que preside à Organização das Nações Unidas (ONU).

À mesma hora que a televisão russa transmitia um discurso de Vladimir Putin (que até poderá ter sido gravado horas ou dias antes), anunciando que a Rússia estava a dar início a uma "operação militar especial" na Ucrânia, estava a decorrer uma sessão de emergência do Conselho de segurança da ONU.

PUB

António Guterres foi o primeiro a falar, quando ainda não eram claras as intenções de Putin. O secretário-geral assinalou, no entanto, os relatos sobre tropas russas que já se posicionavam juntos às fronteiras, e fez algo que o jornalista do "The Guardian", Julian Borger, garante ser "notável e raro" num secretário-geral da ONU: interpelou diretamente o líder (russo) de um membro permanente do Conselho de Segurança, que presidia à reunião.

"Se, de facto, está a ser preparada uma operação, só tenho uma coisa a dizer, do fundo do meu coração", disse Guterres. "Presidente Putin: impeça suas tropas de atacarem a Ucrânia. Dê uma oportunidade à paz. Já morreram demasiadas pessoas."

Discurso ucraniano já era "inútil"

Quando chegou a vez de falar o representante russo no Conselho de Segurança, Vassili Nebenzia, já o discurso de Putin tinha sido concluído, e não havia dúvidas sobre o início da invasão. Não haveria uma oportunidade para a paz. Nebenzia, que, segundo o mesmo jornalista, passou as últimas semanas a tentar ridicularizar os estados ocidentais por causa dos seus avisos "histéricos" sobre uma invasão iminente, tentou argumentar que não se tratava de uma guerra, antes uma "operação militar especial" para proteger a população do Donbass (as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, cuja independência Moscovo tinha reconhecido um dia antes).

O embaixador ucraniano, Serguei Kyslytsya, aguardava a sua vez para falar, enquanto recebia atualizações constantes a partir de Kiev. Quando chegou o seu momento, deixou de lado o discurso que tinha preparado, uma vez que "a maior parte já é inútil". Em vez disso, mostrou uma cópia da carta da ONU e leu a cláusula em que se escreve que a adesão à Organização das Nações Unidas está aberta a todos os estados amantes da paz que aceitem as obrigações contidas na carta. "A Rússia não é capaz de cumprir nenhuma destas obrigações", concluiu.

Russo recusou acordar o seu ministro

"Você tem um smartphone", disse o ucraniano, provocando o diplomata russo e pedindo-lhe para confirmar junto do seu chefe, o ministro das Relações Exteriores, o que estava a acontecer. "Pode ligar para Lavrov agora mesmo. Podemos fazer uma pausa para deixá-lo sair e ligar para ele". O russo Nebenzya recusou. "Eu já disse tudo o que sei neste momento. Acordar o ministro Lavrov neste momento não é algo que pretenda fazer."

Mais tarde, já depois de terminada a reunião do Conselho de Segurança, Guterres pediu de novo a Putin que retirasse as suas tropas e acrescentou: "Em nome da humanidade, não permita que se inicie na Europa aquela que poderá ser a pior guerra desde o início do século, com consequências não só devastadoras para a Ucrânia, não só trágicas para a Federação Russa, mas com um impacto que nem sequer podemos prever em relação às consequências para a economia global".

"O que é claro para mim é que esta guerra não faz qualquer sentido", disse Guterres, sublinhando que a operação russa viola a Carta das Nações Unidas e causará um nível de sofrimento que a Europa não conhece desde pelo menos a crise dos Balcãs dos anos 90.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG