Invasão

O que falhou na operação policial do Capitólio

O que falhou na operação policial do Capitólio

Forças de segurança muito criticadas após invasão do edifício da democracia em Washington. "Foi um filme de terror", diz ex-chefe da polícia. FBI pede ajuda para identificar centenas de invasores.

Ninguém os parou: dezenas de manifestantes pró-Trump invadiram esta quarta-feira à tarde o Capitólio, em Washington, símbolo da democracia que alberga o Congresso, constituído pela Câmara dos Representantes mais o Senado, e movimentaram-se com grande liberdade e sentido de posse pelo interior do edifício. Assenhoram-se de espaços comuns, gabinetes privados e chegaram mesmo a controlar a sala do plenário, de onde, entretanto, tinham sido já retirados todos os senadores e o vice-presidente Mike Pence, que é o líder da câmara alta parlamentar.

A invasão foi altamente disruptiva e atrasou várias horas o processo de confirmação oficial de Joe Biden como o novo presidente que venceu as eleições de 3 de novembro.

Com 52 manifestantes detidos até agora, incluindo 47 por entrada ilegal e violação da lei do recolher obrigatório, que às 18 horas estava em vigor em Washington por ordem da mayor, as forças de segurança estão a ser altamente criticadas pela sua fraca abordagem à situação e pela atitude de passividade para com os invasores.

Especialistas legais e em segurança dizem ao jornal "The Washington Post" terem ficado perplexos com as táticas que a polícia usou quando a multidão já estava dentro do Capitólio.

"Polícias muito passivos"

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Fotos e vídeos da ocupação mostram agora polícias que se afastavam à passagem de manifestantes armados com bandeiras e paus (alguns empunhavam o estandarte pró-blue lives, de apoio à polícia, em que a bandeira dos EUA tem só as cores azul, preto e branco), observando a desordem ao invés de a travarem; pelo menos um polícia tirou uma selfie com manifestantes no interior do Capitólio; e outros polícias foram vistos a dar a mão aos invasores para os ajudarem a ultrapassar barreiras ou subir as escadas cujo acesso está proibido ao público.

"Foi como assistir a um filme de terror da vida real. Quer dizer, treinamos, planeámos e orçamentamos todos os dias, basicamente, para que isto nunca aconteça ", disse ao "The Washington Post" Kim Dine, que foi chefe da Polícia do Capitólio de 2012 a 2016." Não consigo entender como foi possível isto acontecer".

Kim Dine disse ainda ter ficado surpreendido ao ver que, na quarta-feira, a Polícia do Capitólio permitiu que tantos manifestantes se reunissem tão perto do edifício histórico, apossando-se dos degraus do Capitólio, e que, uma vez forçada a entrada e violada a segurança, os manifestantes não tenham sido presos imediatamente.

"Protegemos as pessoas, o lugar e o processo democrático que faz de nós os Estados Unidos. É por isso que estamos lá ", disse o ex-chefe da Polícia. "Mas, neste triste dia, as pessoas, o lugar, o processo, tudo isto foi atacado".

Quatro pessoas morreram

Entre a manifestação, que começou às 11 horas da manhã de quarta-feira com a participação de Donald Trump num comício e a invasão do Capitólio, quatro pessoas morreram.

A primeira foi uma mulher, Ashli Babbitt, 35 anos, adepta do grupo conspirativo QAnon, de extrema-direita. Os outros três mortos foram confirmados pela Polícia Metropolitana de Washington, mas não foram dados pormenores sobre essas circunstâncias. As autoridades acrescentaram que pelo menos 14 polícias ficaram feridos, dois deles em estado grave.

A polícia também deu conta de que tanto as forças de segurança, como os apoiantes de Trump recorreram as armas de composição química durante as horas de ocupação do edifício.

Onde pára a polícia?

Mas onde estavam, afinal, os dois mil agentes de segurança que compõem o corpo especial da Polícia do Capitólio e que dispõe de um orçamento anual de 460 milhões de dólares?

Subjugada pela multidão, a maioria dos polícias responsabilizou-se principalmente por levar os senadores para um local seguro, não parecendo haver agentes suficientes para travar os manifestantes que entrassem. Muito poucas pessoas foram presas pelas diversas violações perpetradas, disse uma fonte ao "Post", comentando que os policiais não tinham apoio suficiente para prender e deter tantos manifestantes.

"Não havia simplesmente pessoal suficiente para fazer tudo", disse um agente que pediu anonimato.

São esperadas demissões

Nenhum membro do Congresso ficou ferido durante as várias horas da ocupação e, depois da invasão, e muitos políticos, tanto democratas como republicanos, agradeceram à Polícia do Capitólio e a outras agências por terem conseguido mantê-los seguros.

Mas alguns confessaram espanto por se terem visto remetidos para salas ocultas, forçados a fugir enquanto uma multidão saqueava os seus gabinetes, com agentes de arma em punho na sala do plenário, atrás de barricadas, apontando as armas para a porta onde assomavam manifestantes em fúria.

O deputado democrata Tim Ryan, do Ohio, que preside ao comité que supervisiona o orçamento da Polícia do Capitólio, disse na noite de quarta-feira que espera agora que vários agentes policiais sejam demitidos.

"Não era suposto haver ninguém perto do Capitólio. As pessoas podem chegar razoavelmente perto, podem protestar e expressar a sua opinião, mas ninguém deve invadir e tomar posse da Praça do Capitólio, nem sequer dos degraus do edifício, isso é um ato ilegal. Estes foram atos ilegais e estas pessoas deveriam ter sido presas imediatamente", disse Tim Ryan a vários repórteres. "Acho que é muito claro que muitas pessoas ficarão sem emprego muito em breve", concluiu.

"Há dois meses, quando o grupo Black Lives Matters estava a protestar aqui, não podíamos sequer mexer-nos com tanta polícia anti-motim. Onde estavam eles agora?", perguntou a deputada democrata Bonnie Watson Coleman, de New Jersey. "É preciso apurar a fundo essa desproporção e por que aconteceu", disse.

Ameaça subestimada

A Polícia do Capitólio e outras agências federais também pareceram subestimar a ameaça potencial representada pelos apoiadores de Trump. Especialistas em policiamento dizem que são ensinados a estabelecer várias linhas de defesa, começando longe do edifício que é suposto defenderem. Neste caso, no entanto, a polícia não parece ter feito um esforço concentrado para parar os invasores.

"Um bom perímetro e uma demonstração de força: isso seria suficiente para lidar com aqueles manifestantes", disse Ed Davis, ex-comissário de polícia de Boston à CNN. "Mas aqui não vimos quase nada disso e isso é incompreensível e, francamente, inaceitável ".

"A Polícia do Capitólio tinha um plano, mas aparentemente eles assumiram que era mais do mesmo, que seria um dia normal", disse um agente sob anonimato. "Não era esperado que Trump incitasse os manifestantes e que eles entrassem à força. Creio que, simplesmente, não havia pessoal suficiente para impedir que uma multidão de entrar como entrou".

Decisões tardias

Durante a tarde, a Polícia do Capitólio, que nessa altura já tinha apoio de centenas de membros da Polícia Metropolitana de Washington, solicitou que o Departamento de Defesa enviasse 200 agentes adicionais da Guarda Nacional para ajudar a conter o motim. E só à noite as agências federais enviaram centenas de agentes do FBI, do departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos e ainda do serviço dos U.S. Marshals para auxiliar a Polícia do Capitólio.

"Pretendemos fazer cumprir as leis do nosso país", disse o procurador-geral em exercício Jeffrey Rosen. Mas, nessa altura, os estragos já estavam feitos.

FBI pede ajuda

Estes graves incidentes já estão a ter consequências: os Serviços Secretos já começaram a reavaliar os planos de segurança para 20 de janeiro, dia em que o novo presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente Kamala Haris tomarão posse. É de esperar que o número de agentes de segurança cresça substancialmente.

Entretanto, o FBI lançou um pedido público de ajuda para informações que levem à identificação dos indivíduos que instigaram os atos de violência em Washington. O Departamento Federal de Investigação pede mesmo: "Se você testemunhou ações violentas ilegais, recomendamos que nos envie quaisquer informações, fotos ou vídeos que possam ser relevantes para fbi.gov/USCapitol".

É também fornecido um número de telefone para denúncias verbais. O FBi sublinha que "o nosso objetivo é preservar o direito constitucional do público de protestar, mas protegendo todos contra a violência e outras atividades criminosas".

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