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Os primeiros 100 dias de Biden e o que o separa de Trump

Os primeiros 100 dias de Biden e o que o separa de Trump

Joe Biden cumpre 100 dias de mandato na Casa Branca na quinta-feira e é fácil detetar as diferenças com o seu antecessor na presidência dos Estados Unidos, na agenda política interna e externa.

No final de março, na primeira conferência de imprensa como presidente dos EUA, Joe Biden repetiu uma frase que parecia querer captar a estratégia política para o mandato que viria e a sua principal mensagem aos jornalistas. "Quero mudar o paradigma", disse o democrata por três vezes, referindo-se à sua agenda e à forma como a pretendia negociar com os republicanos.

No discurso de tomada de posse, Joe Biden deixara um sinal de diálogo interpartidário, reconhecendo que, com uma frágil maioria na Câmara de Representantes e com um Senado dividido a meio (50-50), a Casa Branca não podia hostilizar os republicanos. O primeiro desses sinais de diálogo foi a sua declaração de que não insistiria num processo político ou judicial contra Donald Trump, envolvido num processo de destituição no Congresso por "incitação a insurreição", mesmo já depois de ter abandonado o lugar de presidente.

Contudo, não demorou muito a partir a corda com o Partido Republicano, quando Biden insistiu no seu plano fiscal, com um substancial aumento de impostos para os mais ricos e para a classe média alta, ou quando declarou o fim da construção do muro na fronteira com o México, rompendo com as anteriores medidas de controlo de fronteiras. Com a pressão de entrada de imigrantes e refugiados a aumentar, Biden tem-se centrado em reverter algumas das medidas mais polémicas, como a separação de crianças das suas famílias, embora continue a ser criticado por não conseguir resolver totalmente o problema da imigração ilegal.

Ao colocar a luta contra a pandemia de covid-19 como a prioridade imediata da agenda, o novo presidente deu também um sinal claro de que iria romper com as mensagens ambíguas de Trump sobre medidas de confinamento, estabelecendo o uso obrigatório de máscaras de proteção individual e anunciando um ambicioso projeto de vacinação para os primeiros 100 dias de mandato.

Mas, também rapidamente, Biden percebeu a força política dos republicanos, sendo obrigado a difíceis negociações e soluções de compromisso no Congresso para tentar aprovar um pacote de ajuda financeira de quase dois mil milhões de euros, para combater a crise económica decorrente da crise sanitária.

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Apesar das pressões no seu próprio partido para não fazer cedências - nomeadamente por parte da comissão de orçamento do Senado, liderada pelo radical Bernie Sanders - o presidente fez diversas modificações no documento inicial, incluindo no referente à distribuição de verbas pelos governos estaduais, tornando-o mais próximo dos pacotes de apoio que tinham sido apresentados por Trump.

Ao nível da legislação sobre uso e porte de armas, Biden está a tentar introduzir profundas alterações e a passar uma mensagem política de que tudo fará para evitar tragédias com tiroteios, mas os especialistas não estão seguros de que consiga alguma diferença substancial.

Emblemática foi a suspensão da Comissão 1776, um grupo de 18 académicos, maioritariamente conservadores, que estava a preparar uma reforma dos manuais escolares, no sentido de uma "educação patriótica".

Após vários casos polémicos de nomeações e demissões de funcionários públicos no mandato de Donald Trump, Joe Biden instituiu um código de honra entre os membros do Governo que os impede de agir em seu interesse pessoal, e procurou reforçar a independência do Departamento de Justiça.

Até a decoração da sala oval foi alterada com a chegada do novo inquilino à Casa Branca: Biden mandou retirar um quadro de Andrew Jackson, presidente que ficou conhecido por assinar um tratado que obrigou os índios nativos a serem realocados, e colocar um quadro de Benjamin Franklin, uma das figuras mais populares da história dos Estados Unidos.

Biden mostrou também pressa em desmontar alguns dos pilares da política externa: anunciou o regresso dos Estados Unidos ao acordo climático de Paris e parou o processo de afastamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) - duas organizações internacionais com quem Donald Trump tinha entrado em rota de colisão.

Também a nível externo, Biden manteve algumas das decisões do antecessor, revelando que a "mudança de paradigma" não se estendia à totalidade da agenda política, mas antes deveria ser um ponto de equilíbrio entre o que se muda e o que se altera. No Afeganistão, Biden manteve a promessa feita por Trump de retirada do efetivo militar norte-americano, ainda durante o ano de 2021, embora com algum atraso relativamente ao plano anterior. E reforçou a posição de força perante Pequim, colocando a China como o principal "adversário comercial" e mesmo "inimigo militar".

O recente envio de navios de guerra para o mar da China setentrional e a resistência a abrir mão de algumas das taxas alfandegárias sobre produtos chineses prova que a Casa Branca de Biden não se afastou muito, nesta matéria, da estratégia de Trump, apenas tendo suavizado a linguagem diplomática.

Um ponto de substancial diferença com Trump foi a relação com os aliados, bem sublinhada pela pronta visita do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, à sede da NATO, onde se apressou a confirmar a intenção de preservar antigos compromissos de parcerias. Relevante é igualmente o facto de a primeira viagem oficial de Joe Biden ser ao Reino Unido e à Bélgica, em junho próximo, num sinal evidente de aproximação aos aliados que Trump manteve ao largo.

Recentemente, os Estados Unidos anunciaram também que iriam reforçar o efetivo militar na Alemanha, numa mensagem de confiança aos aliados europeus, mas também de desafio a outro dos "inimigos": a Rússia. Aliás, Biden quebrou mesmo a sua imagem de estadista de expressões moderadas, quando, numa entrevista televisiva, respondeu positivamente a uma pergunta sobre se o presidente russo, Vladimir Putin, era um "assassino", desfazendo ambiguidades de relações que vinham da era de Trump.

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