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Ponto por ponto. Tudo o que está em causa na cimeira do clima em Madrid

Ponto por ponto. Tudo o que está em causa na cimeira do clima em Madrid

Milhares de especialistas e decisores políticos reúnem-se na próxima semana em Madrid, na 25.ª reunião da ONU sobre as alterações climáticas, que são, segundo o secretário-geral das Nações Unidas, "o maior problema da humanidade".

Leia abaixo sobre os pontos essenciais relacionados com a conferência:

A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2019 (COP25) realiza-se em Madrid de 2 a 13 de dezembro, juntando representantes de 195 países para decidir sobre novas estratégias na luta contra a crise climática. Realiza-se desde 1994 e destina-se a debater ao mais alto nível a questão das alterações climáticas e as medidas para mitigá-las e enfrentá-las.

A primeira parte da conferência junta milhares de cientistas, empresários, representantes institucionais, organizações não-governamentais e governos de todo o mundo. No final, juntam-se chefes de Estado e de governo para as reuniões mais formais, ministeriais e de tomadas de decisão.

Numa conferência da ONU em Paris, em dezembro de 2015, surgiu o chamado Acordo de Paris, segundo o qual a quase totalidade dos países do mundo se comprometeu a limitar o aumento da temperatura média global abaixo dos dois graus celsius (2ºC) em relação à época pré-industrial.

O acordo prevê um mecanismo de compensação de emissões, o mercado de carbono, quando por exemplo um país apoia outro desfavorecido, e outro de redução de emissões, o que implica que cada Estado invista em ações de redução como na produção de energia por fontes renováveis ao em vez de combustíveis fósseis.

O aquecimento global é o nome que se dá ao aumento da temperatura registado no planeta provocado pela atividade humana, especialmente pela queima de combustíveis fósseis. Substituir os combustíveis fósseis por energia limpa, como a eólica ou solar, diminui substancialmente a emissão de gases com efeito de estufa. Muitos países, entre os quais Portugal, já anunciaram medidas de transição e eficiência energética para as próximas décadas.

O aquecimento global tem efeitos na diminuição das calotes polares, na subida do nível das águas do mar, na acidificação dos oceanos, na destruição de ecossistemas e na diminuição e extinção de espécies, e provoca fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais intensos e frequentes.

As emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, nomeadamente de CO2, em consequência da ação humana têm vindo a aumentar apesar das demonstrações científicas de que provocam o aquecimento do planeta. Na última década, aumentaram 20%. Em 2017, subiram 1,7%, no ano passado 2,7%, e este ano a tendência continua a ser de crescimento.

Segundo a ONU era preciso que essas emissões baixassem 7,6% ao ano entre 2020 e 2030 para se conseguir um aumento de temperaturas que não ultrapassasse os 1,5 graus.

Ao contrário do Protocolo de Quioto (1997), o primeiro acordo internacional sobre a matéria, o Acordo de Paris, impõe a redução de emissões a todos os países (Quioto apenas a impunha aos desenvolvidos).

O apoio a países menos desenvolvidos na mitigação dos efeitos das alterações climáticas e na redução das emissões tem sido fonte de discórdia recorrente nas reuniões sobre o clima.

Os países mais desenvolvidos do hemisfério norte prometeram aumentar o financiamento para 100 mil milhões de dólares por ano até 2020. Segundo o último relatório da OCDE esses números chegaram a 71,2 mil milhões em 2017. Os países em desenvolvimento estão agora a pedir mais dinheiro.

O Acordo de Paris prevê uma revisão das promessas dos estados na redução de gases com efeito de estufa no final de 2020. Até agora apenas 66 países prometeram aumentar a sua ambição nessa redução.

A ONU tem proposto que alguns países dos 20 mais industrializados (responsáveis por 78% das emissões do planeta) tomem medidas, como acabar com novas centrais a carvão na China, desenvolver os transportes públicos na Índia ou ter mais carros elétricos nos Estados Unidos.

Os custos de uma transição para sociedades sem emissões são muito altos, mas não a fazer terá custos ainda maiores. Estas são algumas das consequências da subida das temperaturas:

A grande quantidade de dióxido de carbono lançado para a atmosfera, que provoca o chamado "efeito de estufa", faz também com que aumente a quantidade de dióxido de carbono que se dissolve na água do mar.

Na ligação do dióxido de carbono com a água do mar forma-se o ácido carbónico, que acidifica e que se transforma, contribuindo para a acidificação. Estudos que têm sido divulgados indicam que o ph (nível de alcalinidade, neutralidade ou acidez da água) está a mudar e que a acidez dos oceanos aumentou 30%.

A acidificação pode afetar animais com conchas, algas e corais, mudar habitats e reduzir espécies (o bacalhau, por exemplo, segundo um estudo recente). Há estudos que alertam que se nada for feito o aumento da acidificação pode acabar com toda a vida nos oceanos.

À destruição da biodiversidade causada diretamente pelo Homem junta-se a destruição causada pelas alterações climáticas. Segundo um relatório científico divulgado em abril passado, um quarto de 100 mil espécies avaliadas pode extinguir-se, seja por pressões causadas pelo Homem seja pelas alterações climáticas. Os cientistas dizem que a extinção de espécies está a ocorrer a uma rapidez nunca antes registada.

Um relatório das Nações Unidas deste ano alertou que está ameaçado um milhão das oito milhões de espécies animais e vegetais que se estima existirem na Terra, sendo as alterações climáticas uma das causas diretas. As outras são as práticas agrícolas, a exploração da floresta ou a poluição, que já levaram à degradação de 75% do ambiente terrestre e de 66% do ambiente marinho.

O aumento da temperatura na Terra também se faz sentir nos polos levando a que as massas de gelo derretam mais rapidamente. No início do ano, na IV Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, no Quénia, foi apresentado um relatório segundo o qual a temperatura do Ártico vai aumentar entre 03ºC a 05ºC até 2050. Para a Antártida também têm sido apresentados estudos com dados similares.

O degelo nos polos, onde o aumento da temperatura é superior à média, e o recuo dos glaciares afeta também a biodiversidade e as espécies que ali habitam (incluindo o Homem) e levará ao aumento do nível das águas do mar.

Especialistas estimam que o gelo marinho do Ártico tenha diminuído 40% desde 1979 e que os verões na região deixarão de ser gelados antes de 2030, a continuarem as atuais emissões de dióxido de carbono.

Entre 1901 e 2010 o nível da água do mar subiu 29 centímetros devido ao aquecimento global e o Painel Intergovernamental para as Ações Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, estima que essa subida seja entre 26 e 82 centímetros até 2100.

A subida do nível do mar vai levar ao desaparecimento de zonas ribeirinhas e pode mesmo submergir países inteiros. As ilhas Fiji ou as ilhas Marshall por exemplo.

Fenómenos meteorológicos extremos -- ondas de calor, chuvas fortes, tempestades e inundações, períodos extensos de seca - decorrentes das alterações climáticas são cada vez mais frequentes, sendo dos exemplos mais recentes incêndios na Austrália ou inundações em Veneza, Itália.

Mas segundo os cientistas vão intensificar-se até ao fim do século as catástrofes climáticas múltiplas, das ondas de calor extremo aos incêndios, das inundações às super-tempestades.

Os últimos quatro anos foram os anos mais quentes jamais registados.

O mundo está hoje um grau mais quente do que antes da era industrial e poderá chegar aos três graus no final do século.

As alterações climáticas podem afetar o acesso a água potável. Atualmente a falta de água afeta mais de mil milhões de pessoas e estima-se que esse número duplique em 2025 devido ao aumento das secas. A maioria dessas pessoas vive em África, Ásia Central e Médio Oriente.

Especialistas dizem que por cada grau que aumente a temperatura diminuirá pelo menos em 20% a quantidade de água e o ciclo da água não será uniforme em todo o planeta.

As alterações climáticas vão afetar também a produção agrícola em África e na América Latina, dizem especialistas ligados à ONU.

As alterações climáticas podem levar a um aumento do risco de se contraírem doenças como a malária, dengue, febre amarela ou encefalites. Aumenta também o risco de salmonelas, cólera e outras doenças de transmissão pelos alimentos e pela água.

As ondas de calor vão provocar a morte de milhares de pessoas.

Sob uma grande pressão social, com a opinião pública a exigir dos governos ações de acordo com as recomendações da ciência, acusando-os de nada fazerem para conter as alterações climáticas, a COP25 deve tentar que os países apresentem planos de descarbonização mais ambiciosos para estarem prontos em 2020.

Também serão discutidos os mercados de carbono, os apoios ao Fundo Verde do Clima, o mecanismo de danos e compensações pelos fenómenos climáticos extremos, e o apoio aos países menos desenvolvidos para uma transição para um novo modelo energético.

A COP25 é a última oportunidade para resolver questões relacionadas como Acordo de Paris, que entra em vigor em 2020.

São os grandes emissores de gases com efeito de estufa, como a China, a Índia, a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos, estes que já anunciaram a saída do Acordo de Paris. Mas serão também os países que lideram programas ambiciosos de medidas para conter as alterações climáticas e aqueles que mais sofrem com elas, nomeadamente os pequenos países insulares como as Maldivas, Samoa, as Ilhas Salomão, Kiribati e Vanuatu.

E são ainda os novos atores financeiros, as novas empresas tecnológicas e inovadoras em termos de respeito pelo ambiente, são os cientistas e os alertas que têm deixado, e será a jovem ativista sueca Greta Thunberg, que esteve na origem das greves climáticas estudantis e que leva a voz dos jovens à cimeira. E serão a Espanha e o Chile, que preside, como países coanfitriões.

A COP25 terá uma assistência superior a 25 mil pessoas, terá 1500 jornalistas e decorre no centro de convenções Ifema, em Madrid, ocupando sete pavilhões de mais de 100 mil metros quadrados.

Tem um custo estimado de 50 milhões de euros, 10 milhões menos do que o inicialmente previsto, e um retorno económico em Madrid de 200 milhões. Segundo dados oficiais, trabalham na preparação da COP 1500 pessoas, mais 300 contratadas para dar apoio direto à organização e cerca de dois mil voluntários a trabalhar diariamente nos dias da cimeira.

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