Análise

Populistas não têm soluções mas adaptam-se a mudanças

Populistas não têm soluções mas adaptam-se a mudanças

Há uma extrema-direita pré-pandemia e surgirá outra pós-pandemia de covid-19? É cedo para desenhar um eventual novo perfil populista, mas sabe-se que "a extrema-direita é adaptativa". Mesmo que ocorra "uma mudança radical na sociedade, vai adaptar-se" às novas condições.

Para a investigadora Cátia Miriam Costa, do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, "é cedo para antecipar", mas o que está a acontecer "pode levar a muitas derivas".

Há mudanças em marcha na sociedade. "As empresas podem estar seduzidas com o teletrabalho e o desejo de exacerbar o receio (da doença) para manter as pessoas em casa, para controlar a contestação social", avisa. E "os populistas estão à espreita".

"Muito disto põe em causa a nossa vida pessoal, muito invadida, as reuniões através de plataformas entram pelas nossas casas, os mecanismos eletrónicos de controlo de infetados, as novas possibilidades tecnológicas aumentaram o policiamento dos cidadãos, até em democracias". E "a extrema-direita não o contesta", porque as medidas securitárias "lhe agradam".

Tudo "depende muito do que for acontecendo". Apesar de serem "muito adaptativos", a imprevisibilidade da crise pandémica "é má para os populistas, porque não têm uma solução imediata, são imprevisíveis para atacar o contrato social, mas não são capazes de reagir ao imprevisível - e há ainda muitas incógnitas, até para a Organização Mundial da Saúde".

Autoridades bem vistas

Em muitos países, as medidas contra a pandemia têm tido "efeitos considerados positivos pelos cidadãos". Na Alemanha, onde o ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) estava a crescer, o Governo adotou um "discurso racional e a população acabou por aceitá-las, apesar de algumas manifestações contra o confinamento e o distanciamento social".

"Se dependia do sucesso, o consenso acabou por verificar-se na Alemanha e na França (apesar da contestação da União Nacional, de Marine Le Pen), que são também um garante de unidade na Europa", apesar de alguns países não estarem completamente de acordo com a proposta franco-alemã de auxílio.

Mas não foi possível o consenso interno em Espanha, onde o Vox, de extrema-direita e com eleitorado conservador, tenta capitalizar os erros e atrasos do Governo, que acusa de "gestão criminosa" da crise.

"Há ajustes (do Governo) quase ao minuto, o que pode ser um sinal de fraqueza, por não conseguir impor as medidas, ou estas não foram bem pensadas", comenta. "Ao contrário de Portugal, onde houve bom senso e os portugueses foram preparados para o pior, em Espanha foi tudo muito abrupto, com o fecho total da economia e da sociedade".

críticas fáceis

Cátia Costa não está surpreendida com as manifestações nos bairros ricos de Madrid, "onde o desconfinamento foi mais tardio e o regresso retardado, o que deu alguns argumentos ao Vox". De resto, quem lá vive "não está na linha da frente", não tem de ir trabalhar de transportes públicos, enfrentar o vírus nas limpezas.

No Reino Unido, as medidas contra a covid-19 também tardaram e foram erráticas. Mas a extrema-direita está praticamente calada, depois de o seu líder, Nigel Farage, ter-se feito filmar, no início de maio, em pleno confinamento, com o porto de Dover em fundo, a clamar contra os imigrantes.

É que "os populistas adaptam-se bem às circunstâncias para criticar, mas têm dificuldade em apresentar soluções".