Protestos

Portuguesa a viver no Chile: "Fomos aconselhados a não sair de casa"

Portuguesa a viver no Chile: "Fomos aconselhados a não sair de casa"

A subida do preço dos bilhetes dos transportes públicos foi o ponto de partida para os protestos em que o Chile vive mergulhado. Mas Daniela Guerra, portuguesa de 24 anos a estudar em Santiago, explica que a desigualdade social e a violação dos direitos humanos estão também no centro da contestação.

"Toque de queda". É este o nome dado ao recolher obrigatório, a medida tomada pelo presidente do Chile, Sebastián Piñera, para travar os protestos que têm assolado o país. Daniela Guerra, estudante de Arquitetura, com 24 anos, foi aconselhada pela embaixada portuguesa em Santiago a não sair de casa e a "não desafiar de todo o recolher obrigatório".

"Ao final do dia, os protestos tornam-se mais violentos e as Forças Armadas tentam retirar toda a gente das ruas", conta a jovem, que recusa a versão de que a violência parte dos manifestantes. Pelo menos 19 pessoas já morreram durante os protestos, segundo um balanço feito na quarta-feira pelo subsecretário do Interior do governo chileno, Rodrigo Ubilla.

Daniela Guerra, que partilha em Santiago a casa com mais três portugueses, revela que os dias fora de casa são raros. "Tentamos fazer uma gestão da comida e da água, porque os supermercados estão fechados ou têm filas intermináveis".

A jovem confessa, no entanto, que já se juntou às manifestações. "Eu sei que a luta não é minha, mas se está em causa a democracia, acho que é uma luta universal", explica ao JN.

As manifestações que Daniela vê e participa são pacíficas, segundo a estudante. Com muitos "cânticos" e o som do "bater de colheres de pau nas panelas" a pontuar cada reivindicação gritada a plenos pulmões por ela, que é portuguesa, e pelos milhares, que pertencem àquelas ruas.

Em Portugal, a jovem de 24 anos estuda na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. No Chile, frequenta um mestrado integrado na Pontifícia Universidade Católica do Chile, uma instituição católica, que a jovem diz ser frequentado por alunos "mais abastados" financeiramente.

Se a subida dos preços dos bilhetes dos transportes públicos, cerca de quatro cêntimos, foi o ponto de partida para os protestos de uma semana no Chile, a verdade é que a contestação se centra agora na desigualdade social e na violação dos direitos humanos. "Não é uma luta de classes, todo o tipo de pessoas estão a protestar nas ruas", explica a portuguesa.

A democracia ainda é uma palavra recente no Chile e os militares na rua relembram momentos que muitos só querem esquecer."Os chilenos dizem que as coisas estão tão graves como na ditadura" de Augusto Pinochet, conclui Daniela Guerra.

Esta sexta-feira, mais de um milhão de pessoas encheram a Praça Itália em Santiago do Chile. A onda de protestos já terá feito mais de 600 feridos e seis mil detidos.