Ambiente

Praga de gafanhotos origina cena bíblica na África Oriental

Praga de gafanhotos origina cena bíblica na África Oriental

Nações Unidas pedem um financiamento de 76 milhões de euros para erradicar as nuvens destes insetos, que ameaçam provocar uma crise alimentar sem precedentes.

Uma praga de gafanhotos está a devastar a maioria das plantações no Corno de África, uma região onde mais de dez milhões de pessoas passam fome. A agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla inglesa), que classificou esta crise como a pior dos últimos 25 anos, pediu, com urgência, um financiamento de 76 milhões de dólares, dos quais já recebeu 20, para erradicar os insetos, que se reproduzem rapidamente em ambientes húmidos e quentes.

Os gafanhotos não surgiram do nada e já fizeram uma longa viagem até agora. A mudança climática é a verdadeira origem desta crise, segundo as palavras do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres: "O aumento da temperatura dos oceanos favorece a criação de furacões, que atraíram os insetos a África desde o Médio Oriente".

Os gafanhotos invadiram o Corno de África, que sofreu fortes chuvas em dezembro de 2019, depois de provocarem graves problemas no Paquistão (onde foi declarada emergência nacional), Iémen e Omã, antes da aterragem no continente africano pelo Mar Vermelho.

Tempestade de bichos

As múltiplas tempestades de gafanhotos não parecem dar tréguas no Corno de África. O céu fica escuro como numa cena bíblica e as nuvens castanhas de insetos famélicos, que ameaçam provocar uma crise alimentar naquela área, são incontroláveis sem a ajuda internacional.

Uma nuvem com um quilómetro quadrado junta 40 milhões a 80 milhões de bichos, que precisam de uma quantidade de alimento equivalente às necessidades de 35 mil pessoas por dia. Até ao momento, a maior nuvem registada tem o tamanho de Luxemburgo - 2400 quilómetros quadrados - e foi vista no Quénia, onde cerca de 200 mil milhões de insetos podem deixar 84 milhões de pessoas sem comida.

Quénia, Somália, Etiópia, Djibouti, Sudão, Sudão do Sul, Uganda e Tanzânia já estão a defender-se das nuvens de milhões de gafanhotos, que conseguem percorrer até 150 quilómetros por dia. A Somália foi o primeiro país da região a mobilizar-se para combater a praga e declarou a emergência nacional que alertou os vizinhos.

As táticas defensivas adotadas são variadas, mas nenhuma, exceto o pesticida, tem êxito face às tempestades de gafanhotos, considerados os insetos mais vorazes do planeta. Aos camponeses mais humildes, resta baterem com panelas para criar um som agudo que afugenta os bichos das casas.

Quinze dias até às chuvas

As ajudas económicas requeridas pela FAO e já enviadas permitem usar pequenos aviões e helicópteros para pulverizar o território com pesticida. Porém, estas tarefas complicam-se em regiões do Quénia onde não chegam redes de telemóvel e as equipas em terra não conseguem comunicar coordenadas ao pessoal de voo.

Certo é que esta corrida contrarrelógio contra os gafanhotos tem de ser ganha nos próximos 15 dias: as previsões meteorológicas apontam para a chegada da época de chuvas no princípio de março. Depois desta data, com o consequente crescimento da vegetação, será muito mais complicado acabar com uma praga que pode aumentar 500 vezes até junho, quando o tempo mais seco regressar e ajudar a controlar o fenómeno.

Os gafanhotos pertencem à família Acrididae e têm como característica marcante um terceiro par de pernas que lhes permitem mover-se saltando. Com um tamanho máximo de oito centímetros, emitem um som característico, como os grilos. São polífagos, isto é, alimentam-se de folhas das plantas de arroz, soja, luzerna e outros tipos de vegetação. Gostam de deslocar-se em nuvens e atacar as plantações, não deixando nada no caminho.

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