Covid-19

"Quero muito voltar para casa". Há 14 portugueses há 76 dias num navio

"Quero muito voltar para casa". Há 14 portugueses há 76 dias num navio

Joana Ferreira está retida, juntamente com outros portugueses, num navio atracado no México, a aguardar autorização do governo daquele país para desembarcar num porto. Navio tem seguido curso, sem hóspedes, mas pedidos de desembarque da tripulação têm sido sucessivamente recusados.

"Quero muito voltar para casa. É um desespero. Imagine o que é estar fechada num quarto, 22 horas por dia". É assim que começa por contar Joana Ferreira ao JN, retida há 76 dias num navio da linha de cruzeiros Seabourn, atracado em Puerto Vallarta, no México. Com ela estão mais 13 portugueses a bordo, além de outros tripulantes de diferentes nacionalidades.

A empresa tem-se desdobrado em esforços para tentar repatriar os seus funcionários, mas não tem colhido autorizações dos vários portos por onde o navio tem passado, para que o desembarque aconteça. O motivo prende-se com a pandemia de covid-19.

Joana embarcou no cruzeiro a 15 de janeiro, em Barbados, nas Caraíbas, onde trabalha na área de "Food and Beverage". A embarcação começou o seu percurso em Miami (EUA) e iria passar por todos continentes. "Entretanto, após algumas paragens, alguns portos começaram a proibir-nos a entrada. No Sri Lanka, por exemplo, só conseguimos receber provisões. Fizemos então uma travessia de 18 dias, sem parar, até a Austrália porque nenhum porto antes disso nos deixou embarcar. Até porque a seguir ao Sri Lanka era a Ásia."

Os hóspedes conseguiram desembarcar a 18 de março quando chegaram à Austrália, mas a tripulação manteve-se a bordo, até porque se pensava que a pandemia seria "algo temporário". Seguiram depois viagem até ao Havai, Los Angeles e agora México, onde foi sempre negado o desembarque de qualquer elemento da tripulação que não fosse originária do país de permanência.

Pelo meio, a tripulação, já em isolamento, foi transferida para um segundo navio a 28 de abril, que acolhe tripulações de outros barcos da mesma companhia, com a justificação de que, conta Joana, "supostamente seria mais fácil ir para casa." Mas até hoje tal não ainda não foi possível.

"A empresa tem sido impecável e está disposta a pagar milhões pelos nossos voos para que possamos ir para casa. Só que não nos deixam sair do barco e ir até a um aeroporto", explica a jovem de 27 anos, natural de Felgueiras e a viver no Porto.

A trabalhar há cerca de um ano no setor dos cruzeiros, embora seja designer de formação, Joana não compreende porque razão os pedidos de desembarque foram sempre recusados, tendo em conta que estão a ser cumpridas todas as normas de segurança e que não há, nem nunca houve, casos suspeitos de covid-19 a bordo.

Atualmente, apesar de estarem em curso negociações com o Governo mexicano, Joana acredita que as mesmas possam sai goradas. Daí que não saiba a quem mais recorrer. "Falamos com consulados e com embaixadas, mas ninguém consegue dar-nos uma resposta concreta. Respondem-me que, como estamos a bordo de um cruzeiro, a repatriação é da exclusiva responsabilidade patronal", explica.

A portuguesa descreve ainda a rotina que vive na embarcação: "Temos meia hora para cada tripulação fazer as refeições. Temos que medir a temperatura duas vezes por dia, de manhã e à noite, e cerca de meia hora para apanhar ar", conta.

Joana não prevê que o regresso ao ativo seja para breve. "A minha empresa já suspendeu cruzeiros até novembro. E mesmo que a pandemia não seja duradoura, primeiro irão chamar as pessoas que estavam em casa antes de nós e que não embarcaram por causa da covid-19."

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