Covid-19

Tem 71 anos e é voluntária nos testes da vacina para o coronavírus: "Nunca vamos derrotá-lo"

Tem 71 anos e é voluntária nos testes da vacina para o coronavírus: "Nunca vamos derrotá-lo"

Chama-se Lynda Terrell, tem 71 anos e um amor inabalável pelo Manchester City, clube da terra de onde partiu há quatro décadas para ir viver nos Estados Unidos da América (EUA). Além da paixão pelo futebol, a britânica é adepta da solidariedade e nem a diabetes tipo 2 a impediu de se voluntariar para os testes de uma das vacinas mais promissoras na luta contra a covid-19, a da empresa farmacêutica Moderna.

A primeira reação de Lynda numa entrevista sobre o voluntariado nos testes da vacina para o novo coronavírus não é propriamente a mais otimista: "Nunca vamos derrotá-lo", disse ao "El País", mas sem perder a esperança, porque "se a vacina funcionar, podemos ter o controlo".

A mulher britânica decidiu ir estudar para os EUA há 40 anos e por lá ficou a viver com o marido, em Chattanooga, cidade do estado do Tennessee. Agora com 71 anos e diabetes tipo 2, voluntariou-se para fazer parte dos testes à vacina desenvolvida pelos Institutos Nacionais da Saúde dos EUA (NIH, na sigla em inglês) e pela farmacêutica Moderna, uma das mais promissoras testadas em todo o Mundo para imunizar contra a covid-19.

No dia 27 de julho, a vacina entrou na fase final e mais importante, com um ensaio clínico massivo que medirá a eficácia da imunização para salvar vidas. "É um recorde mundial termos conseguido ir para a fase 3 de uma vacina em tão pouco tempo", disse o imunologista e assessor científico do governo dos EUA Anthony Fauci, que está confiante de que a vacina poderá estar pronta antes do final do ano.

Para isso, a empresa Moderna, em colaboração com o Governo dos EUA, está a recrutar 30 mil voluntários como Lynda Terrell, que receberão duas injeções, uma agora e outra dentro de um mês. Metade dos participantes é injetada com a vacina e a outra metade recebe um placebo. Nem os voluntários nem os médicos sabem se o que se injeta é uma coisa ou outra. Os participantes devem relatar como se sentem a cada semana. "E se algo der errado, voltamos ao ponto de partida", assume Lynda.

"De momento sinto-me bem. A área onde fui picada, acima do braço, no deltoide, está um pouco endurecida. Mas, até agora, nenhuma reação adversa. Meço a temperatura todas as manhãs. Tenho uma espécie de diário, mas não escrevi nada de relevante. No final da semana acho que me vão ligar para saber se ainda estou viva", brincou a mulher de 71 anos.

Lynda apresentou-se como voluntária numa sede da empresa de investigação clínica Wake Research, um dos 89 centros participantes do estudo. A empresa realiza testes em seis estados norte-americanos. "Os participantes contribuem para o futuro da medicina, fornecendo os principais conhecimentos e dados necessários para obter um tratamento ou vacina para a covid-19", explicou a doutora Ella Grach, presidente da empresa.

A voluntária britânica já havia participado noutro ensaio clínico para um medicamento para a diabetes, então não hesitou quando soube dos testes da vacina para o novo coronavírus. Nem quando cancelaram a primeira consulta porque a vacina ainda não tinha chegado, nem quando já estava sentada à espera da injeção. "Fiquei preocupada porque eles disseram que não teriam voluntários suficientes e pensei que era algo que tinha de fazer. Como cidadãos, devemos fazer a nossa parte. É sempre melhor fazer parte da solução do que do problema. Não tive dúvidas, estou muito confortável com isso. Claro, não disse ao meu filho. Ele teria dito para não fazer, mas sabe que faço sempre o que quero", contou Lynda.

A britânica reconhece que teria tido mais dúvidas se a vacina em questão fosse um vírus enfraquecido. "Sendo diabética, podia não ter sido um bom plano, não sei se o teria feito", confessou. Mas a vacina testada neste ensaio clínico é baseada no RNA mensageiro, uma molécula que entra nas células humanas para produzir a proteína que o vírus usa para se agarrar e infetar, permitindo que o sistema imunológico reconheça essa proteína e gere imunidade.

Existem cinco outras vacinas que já entraram na fase 3 dos testes em humanos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Três vacinas chinesas baseadas em vírus inativados, uma desenvolvida na Universidade de Oxford com uma versão enfraquecida de um adenovírus da gripe comum de chimpanzés e outra da farmacêutica americana Pfizer que também usa RNA mensageiro. Nas fases anteriores, depois de testada em 45 pessoas, a vacina Moderna e o NIH revolucionaram o sistema imunológico tal como os cientistas esperavam.

Lynda cumpriu o confinamento e critica quem não o fez. "Há muitos idiotas que dizem que não vão usar máscara, apelam pelos seus direitos, mas o meu direito é viver", defende. "A ignorância deixa-me louca. Alguns têm ideias terríveis. Mas pergunto-me se no final os anti-vacinas não vão querer ser vacinados".

Agora só resta esperar. E ir jantar com os 80 ou 90 dólares (cerca de 68 ou 76 euros) que lhe vão dar por participar no teste. "Se algo der errado, vamos fazer o quê? Tive uma boa vida, diverti-me. Só me falta ver o City a ganhar a Liga dos Campeões", rematou a fiel adepta da equipa de Manchester.

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