Três crianças foram mortas e depois esquartejadas. Porquê? Roubaram um pássaro de 47 euros

Lucas Matheus, 9 anos, Alexandre Silva, 11, e Fernando Henrique, 12
D. R.
Caso que está a chocar o Brasil envolve traficantes do infame Comando Vermelho e é escabroso: após torturarem, matarem e retalharem os três meninos, os mandantes foram executados a tiro pela hierarquia criminosa. Polícia investiga há um ano e agora aplicou 56 mandatos de captura. Como é possível esta barbárie?
Lucas Matheus, de 9 anos de idade, Alexandre Silva, de 11, e Fernando Henrique, de 12, desapareceram no dia 27 de dezembro de 2020, no Bairro da Areia Branca, em Belford Roxo, atribulado município brasileiro da Baixada Fluminense, na grande Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Brasil. As crianças saíram de casa de manhã para brincar na rua, como sempre faziam, era um domingo, mas à hora do almoço não voltaram. E ao fim do dia também não. Quase um ano depois, nunca mais foram vistas. E dos seus corpos, não há qualquer vestígio, pista ou sinal. Só negras suposições.
As autoridades brasileiras estão a investigar o caso desde janeiro deste ano, envolvendo mais de 250 agentes de várias especialidades. Lançaram-se mais de 100 diligências policiais, ouviram-se dezenas de testemunhas, recolheram-se 71 depoimentos válidos e foram executados 56 mandatos de captura, numa aparatosa ação que foi cumprida esta semana - 51 mandatos são por crime de associação ao tráfico e cinco mandatos são por crime de homicídio qualificado.
Agora, a Polícia Civil acredita na monstruosidade: as três crianças foram assassinadas - e com primores hediondos de crueldade.
Desapareceram na feira
Naquela tarde de 27 de dezembro do ano passado, um domingo de verão soalheiro, as câmaras de seguranças de ruas próximas da casa dos três meninos, que moravam no Morro do Castelar, uma zona de população pobre e de forte implantação do tráfico de drogas, foi possível verificar que os três caminhavam em direção à feira dominical do bairro da Areia Branca. Duas testemunhas oculares confirmaram a passagem dos meninos e as suas identidades: eram Lucas Matheus, Alexandre Silva e Fernando Henrique, e seguiam, alegrosos, descalços, em calções e tronco nu, rua afora.
Mas depois disso, para lá do último ângulo das câmaras - nas diligências policiais foram vistoriadas gravações de 45 câmaras públicas, mas só 11 estavam efetivamente a funcionar e a gravar imagens -, mais nada: as crianças pura e simplesmente desvaneceram, foi como se se tivessem evaporado no ar.
Polícia monta puzzle com testemunhas
A primeira ação policial só foi visível quase um mês depois: em 25 de janeiro de 2021, 29 dias após o descaminho dos três meninos, o Batalhão de Choque da Polícia Militar realiza o primeiro exercício de varrimento no interior do Morro do Castelar. No espaço de um mês haverá mais quatro ações igualmente musculadas noutros bairros da zona de Belford Roxo, com incidência no Jardim das Acácias e no Bairro de S. Francisco, mas, aparentemente, a investigação esfria.
Só em maio, com uma nova entrada do Batalhão de Choque no Morro do Castelar, agora com mandatos de captura na mão, há sinais de que a inquirição está a avançar: a polícia suspeita de três traficantes concretos.
No dia 30 desse mês surge uma testemunha que diz ter ouvido o seguinte: um traficante confessou a outro traficante que ele sabia que as três crianças desaparecidas não iam voltar porque já estavam mortas. E por que as mataram? Porque naquela tarde soalheira da feira de domingo, as crianças ousaram roubar uma gaiola com um pássaro canoro. E qual era o problema? O pássaro, um vistoso coleiro de pio requintado, era propriedade de um reputado traficante.
Um mês depois, no dia 28 de julho, emerge outra testemunha substancial no puzzle da investigação; é um homem que diz saber que o seu irmão, com quem está há anos desavindo, teria transportado os corpos das três crianças num carro e que depois as atirou ao rio.
No dia seguinte, uma equipa de mergulhadores dos bombeiros do Rio de Janeiro, mais a Polícia Civil, fazem buscas no ponto do rio indicado pela testemunha e encontram vários conjuntos de ossadas. Mais tarde, após análise forense, a esperança dissipa-se: conclui-se que os ossos são de animais não-humanos.
Na primeira quinzena de setembro haverá ainda mais buscas em dois novos pontos do rio indicados por outras testemunhas. Mas nada. E os três meninos continuam sumidos.
Polícia pressionada desmente parcialidade
Muito pressionado pela coação popular dos media brasileiros, que continuam a reportar o caso há muitos meses, o diretor do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, Roberto Cardoso, faz a seguinte declaração: "A Polícia Civil foi cobrada sobre esse crime. Houve insinuações de que a polícia priorizava investigações cujas vítimas são ricas, em detrimento de investigações cujas vítimas são pobres. É um caso difícil de investigar. Mas foi demonstrado que isso [a parcialidade social nas inquirições da polícia] não é verdade", disse Roberto Cardoso, citado pelo jornal "O Globo".
Já no final de setembro, a Polícia Civil afirmara que trabalhava com a hipótese investigativa de que os meninos tivessem sido mortos por traficantes da zona onde moravam. Então, a polícia já divulgara cartazes com as caras e os nomes dos tratantes. São cinco.
Estala, Piranha, Tia Paula, Doca e Vitinho: eis os suspeitos
O primeiro traficante suspeito de envolvimento direto é Willer Castro da Silva, conhecido como o Estala. É uma espécie de gerente-geral do tráfico no Morro do Castelar. É também sobrinho do putativo traficante a quem roubaram o pássaro cantor. O Estala é o homem que terá ordenado a tortura das crianças. E já estará morto, acredita a polícia.
O segundo traficante procurado é uma mulher, Ana Paula da Rosa Costa, conhecida como Tia Paula, também com cerca de 40 anos de idade, como o Estala. Terá sido Tia Paula, uma mulher tesa e seca e especializada em drogas sintéticas, que encomendou o serviço de transporte do corpo das crianças ao motorista que foi denunciado pelo seu irmão desavindo. Tia Paula saberia que as crianças foram agredidas e torturadas até uma delas morrer. A mulher assassina, fez saber entretanto a polícia, também terá sido assassinada.
O terceiro traficante procurado ainda continua foragido. É Edgar Alves de Andrade, conhecido como o Doca, e é um dos chefes do ignominioso Comando Vermelho, a organização criminosa criada em 1979 no Rio de Janeiro e que se dedica a atividades tão variadas como: assassinatos, assaltos, rebeliões, terrorismo e formação de quadrilhas - além, claro, do tráfico de drogas. O Doca foi implicado no crime pelo Estala, que terá dito que foi autorizado por ele a matar as crianças.
O quarto meliante envolvido é José Carlos Prazeres da Silva, que é popularmente tratado por o Piranha. Ele saberia de todos os crimes que aconteciam no Morro do Castelar e autorizava, ou não, a sua execução. O Piranha também já está morto, assevera a polícia.
O quinto e último traficante é VT ou Vitinho, um outro gerente-geral equiparado ao Estala. Vitinho estava fugido há meses, mas foi já localizado e, esta semana, preso na região de Cabo Frio, onde estava escondido, pelos agentes da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense.
Mas, por que assassinaram os assassinos?
Uriel Alcântara, o titular da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, fez a seguinte declaração, citado pelo jornal "Extra": "Análises de diversos dados e telefones indicaram que houve muita violência. Um irmão acusa o outro de transportar os corpos das crianças. Há um vínculo entre o condutor do veículo e a pessoa que o teria chamado, que é a Tia Paula. Esse irmão conhecia-a. E nós temos cinco investigados pelo homicídio e um sexto investigado por ocultação de cadáver", explicou o delegado Uriel.
Mas, afinal, por que foram, e por quem, executados os três traficantes Estala, Piranha e Tia Paula?
Oficialmente, os três suspeitos terão sido assassinados por outros traficantes do Comando Vermelho, com poder hierarquicamente superior ao deles. A cúpula não terá gostado da repercussão mediática do caso, que continua a inundar televisões e jornais brasileiros, nem terá apreciado o "desequilíbrio" da pena aplicada - três crianças mortas por terem roubado um simples pássaro?!
A sentença de execução pelo Comando Vermelho aplicada aos três traficantes assassinos foi decidida no Complexo da Penha, onde está instalada a cúpula do Comando Vermelho. A decisão terá sido tomada numa reunião da diretoria do Tribunal do Tráfico da Penha, uma entidade informal com superintendência dos chefes regionais do tráfico, onde são tomadas as decisões comunais.
Os investigadores apuraram que antes da execução à morte, Estala, Piranha e Tia Paula terão sofrido uma longa sessão de tortura. Lideranças da organização criminosa Comando Vermelho confirmaram a informação, escreveu o jornal "O Dia". Num manifesto, os traficantes afirmaram mesmo que Piranha foi executado não por ter matado as crianças, mas por ter sido negligente nos factos que culminaram na morte das crianças.
"Os três meninos, eles foram torturados"
A polícia colheu muitos elementos para comprovar a participação de todos os envolvidos no crime e, até agora, quase um ano depois do desaparecimento de Lucas Matheus, 9 anos de idade, Alexandre Silva, 11 anos, e Fernando Henrique, 12 anos, foram presas 71 pessoas.
"Quem matou os meninos da Baixada foram os traficantes da favela Castelar", disse esta sexta-feira o secretário da Polícia Civil, Allan Turnowski. "Desde o início, a gente tinha essa linha como sendo a mais forte, mas a gente tinha também outras linhas que, durante a investigação, foram sendo descartadas", disse Turnowski, justificando a demora da inquirição.
"Os três meninos, eles foram torturados... Isso chama-se tortura", acrescentou Uriel Alcântara, o delegado da Baixada Fluminense. "Num determinado momento, um deles falece da porrada, e eles [os traficantes] acham que a solução daquele caso seria matar os outros dois meninos e chamar alguém para levar os corpos para fora da comunidade", detalhou o delegado Uriel, explicando aquilo que no Brasil se designa como "queima de arquivo".
O menino torturado foi, supostamente, o mais velho, Fernando Henrique, de 12 anos de idade, que serviria de exemplo aos outros dois. Mas, como a criança não aguentou a violência da tortura e morreu no ato, os outros dois foram executados com tiros na cabeça - perfazendo-se assim a "queima de arquivo", que significa não deixar testemunhas para trás.
A polícia acredita que os corpos das crianças foram depois esquartejados e que os seus pedaços terão sido atirados ao rio espaçadamente. As impressões digitais dos dedos terão sido queimadas, e os seus dentes terão sido também rebentados, para dificultar a identificação.
O pássaro cantor valia 300 reais
Segundo o jornal "O Dia", o pássaro canoro coleiro roubado pelas crianças ao tio traficante do traficante Estala, valeria no mercado da feira cerca de 300 reais, o que dá aproximadamente 47 euros.
É uma equação abjeta, nojosa, repugnante: três mortes por um roubo de 47 euros dá, para a vida de cada uma das crianças, um valor arredondado de 15 euros por cada uma.
O Brasil sucumbiu à barbárie
Flávia Oliveira, analista social e política, disse ao canal de TV "Globo News" que "os assassinatos, e as suas brutais consequências, revelam uma sociedade que sucumbiu à barbárie". A comentarista urgiu o presidente do Brasil, o governador do Rio e ainda todos os brasileiros a pedirem desculpa às famílias das vítimas. E diz ainda que "os três meninos também morreram por exclusão, por falta de assistência, por indiferença e pela demora inicial na investigação. Eles morreram por causa da miséria, da pobreza e da falta de segurança ", concluindo que "esta sociedade banalizou a morte e banalizou a vida dos seus filhos", disse Flávia Oliveira.
O ativista de direitos humanos Marcelo Freixo, que é também deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro, pediu, por seu lado, a punição exemplar dos autores e o fim da matança. "O Rio não pode continuar refém da violência do crime".
Estatística alarma muito
Mas continua. Segundo dados do "Fogo Cruzado", uma plataforma digital colaborativa que regista dados de violência armada na região metropolitana do Rio, nos últimos 11 meses houve 4386 tiroteios reportados - o que dá uma média de 398 tiroteios por mês ou 13 por dia.
Nesse mesmo período de janeiro a novembro de 2021, foram 1006 pessoas as que morreram por ação de armas de fogo, incluindo 74 agentes da polícia. É um número que alarma: são 91 pessoas mortas por mês ou mais de três por cada dia - e só no Rio de Janeiro, a autoproclamada Cidade Maravilhosa.
