Os Capacetes Brancos (Defesa Civil Síria) são voluntários que se dedicam ao resgate das vítimas dos bombardeamentos na Síria.

Guerra

Capacetes Brancos dizem que o mundo está a "ajustar contas" na Síria

Capacetes Brancos dizem que o mundo está a "ajustar contas" na Síria

Nedal Izdden aguenta-se por detrás da capa de frieza que a vida lhe colou ao rosto. Quando não pode fazer de outra maneira, cerra os olhos. Ninguém verá o que corre na mente deste dentista de formação e antigo treinador de basquetebol na martirizada cidade de Homs, no noroeste da Síria. Diz ele que está "a transformar-se num doente". Os dias, passa-os em Istambul, a "documentar". Quer isto dizer contabilizar mortos. Crianças e mulheres. Desaparecidos. Estropiados. E almas salvas. São os números mais bonitos que consegue dizer: a Defesa Civil Síria - DCS, os famosos capacetes brancos - resgataram dos escombros 114 mil vidas desde que assumiram a missão, sonhada em 2013 e concretizada em 2014. O resto são fins de dia em que prefere o silêncio ao sorriso. Já não consegue.

Nedal está em Fafe para contar a complicada Síria e ser homenageado no Terra Justa, um "encontro internacional de causas e valores da humanidade" que quis saudar o esforço de um grupo de civis que meio mundo aplaude e em que o outro meio não confia. Nedal arrasta Ahmad Youssef, um olhar azul tão mais brilhante quanto a dureza das respostas que é convidado a dar.

Ahmad ensinava Matemática e sim, estava entre os jovens que, em 2011, fortalecidos pela Primavera Árabe que viam eclodir no Egito e na Tunísia, saíram às ruas de Ghouta Oriental a pedir mudanças democráticas. A mesma Ghouta que, depois de altos e baixos na cobertura informativa, devolveu este mês a Síria às manchetes internacionais.

Houve ataque químico. Garantiram-lhe os capacetes brancos amigos que lá deixou, no enclave que se tornou de revolta contra Bashar al-Assad e a perene governação do partido Baas. O enclave que resvalou, também, para ações tão reprováveis como as que reprovam ao presidente sírio, obra de islamitas inebriados pelo poder e cegos pela ideologia. No enclave onde tem a família. Em nome dela pede discrição.

Eram quatro horas da tarde quando começou a cheirar a cloro naquele sábado 7 de abril em Douma, a capital da ruralidade paradisíaca de canais e fontes destruída por oito anos de um conflito que já ninguém percebe e quatro anos de um cerco mortífero. Quatro horas depois, mais bombas, um gás que não sabe identificar. Ninguém sabe, porque os homens da DCS só chegaram ao local a tempo de recolher os mortos, duas horas depois. Porque lá não há laboratórios que deem pistas. Porque, logo depois, "um bombardeamento com armas convencionais destruiu tudo". Edifícios e provas. Garante. O que houve? Nos hospitais, gente a salivar e com a pele azulada. Sabe porque um dos trabalhos dos capacetes brancos é claramente esse: documentar, insiste Nedal, de olhos fechados.

Documentar foi o que levou a DCS - um sonho de proteção civil inexistente, sonhado entre sírios e apoiado por organizações internacionais como a socorrista turca Akut e a Mayday Rescue do ex-oficial de infantaria britânico James Lemesurier, consultor da oposição síria - a fortalecer-se. Para levar ao mundo aquilo que não sai de um terreno em conflito. Ou será para alterar a perceção do mundo?

A pergunta não levanta o sobrolho de Nedal. Chega a sorrir. A DCS viu um documentário sobre si galardoado com um Óscar da Academia de Hollywood, o seu nome incluindo na lista curta de pretendentes ao Nobel da Paz em 2016 e a sua vida premiada pela Right Livelyhood, um Nobel alternativo que "honra respostas práticas a desafios urgentes". E todo esse protagonismo valeu-lhe a desconfiança de metade dos espetadores da arena síria. Douma, no dia 7 de abril, foi uma encenação, disse Assad e disse a Rússia que a ele se aliou, alegadamente contra o crescimento do extremismo do "Estado islâmico" (EI), logo alargado a uns genéricos "terroristas". Neles são incluídos os islamitas anti-Assad, mas também o Exército Livre da Síria que agrega grupos sem definição no espectro político-religioso - e que, com a coligação internacional, fez o maior trabalho na aniquilação do EI. Neles são incluídos, também, os capacetes brancos. São uma encenação?

"Trabalhamos em oito distritos, cada distrito documenta tudo o que acontece. São pelo menos quatro ou cinco vídeos de cada distrito por dia. Acha que fabricamos 40 vídeos por dia? Para encenar 40 vídeos precisaríamos do orçamento da Warner Bros ou da Marvel. Acha que uma criança de quatro ou cinco anos retirada dos escombros consegue representar, simular, mentir?" Nedal mantém o tom sereno. Cada voluntário recebe ajudas de custo de 120 euros. "Qualquer figurante ganha mais do que isso à hora. Trabalhamos debaixo de bombas. Ninguém quer sacrificar a vida por 120 euros." E quem paga?

Doadores. Estados - EUA, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Canadá, através da ajuda ao desenvolvimento - e individuais - mais de 200 mil. Neutros. Como Ahmad e Nedal garantem ser. É o princípio número um da missão. Ou o segundo, depois de salvar vidas.

"A Síria é um nevoeiro"

Voltemos ao Óscar. No filme, um capacete branco diz que foi opositor armado. "É verdade", diz Nedal. "É missão da DCS chamar os jovens a largar a violência e encontrar um caminho longe do terrorismo e do fundamentalismo". Atuam em território da oposição porque é onde conseguem entrar e, garante Ahmad, Assad não autoriza que salvem noutro terreno. Não acusam a fabricação do lado oposto. Não falam da difusão de informação falsa atribuída à Rússia pela outra metade dos espetadores. Falam do bebé de meses resgatado 18 horas depois de lhe cair o céu em cima. E do inconcebível que é uma criança de Ghouta confundir laranjas com bolas e comer bananas com casca.

O futuro? Ahmad solta os nervos. É entregar à justiça os responsáveis pela carnificina. Nedal socorre-o com a calma de quem conta mortos e decorou a legislação internacional: "A Síria é um nevoeiro. Há muita gente em ajustes de contas dentro do território. Em oito anos, houve milhares de decisões da ONU. Ficou tudo no papel. Parem de ajustar contas na Síria..."