Cerca de quatro mil venezuelanos chegaram à Madeira no último ano. O "Jornal de Notícias" falou com algumas, que contaram a dura realidade que se vive naquele país.

Crise

Num ano chegaram à Madeira cerca de quatro mil venezuelanos

Num ano chegaram à Madeira cerca de quatro mil venezuelanos

"É muito difícil deixar tudo o que tu és e tudo o que queres ser..." A frase é incompleta, o discurso demora a fixar-se na mensagem. "A minha mãe trabalhou muito e sei apreciar isso. Por isso é que, aos 21 anos, trabalhava e estudava, mas chegou um momento em que corria perigo de vida". Os 21 anos são os mesmos de agora, a decisão tem três semanas, os soluços, esses, são permanentes. "Simplesmente há muita gente má... a minha mãe... as pessoas que mais trabalham são as mais desfavorecidas, a minha mãe... chegaram a ameaçá-la." Ele, levou um tiro de chumbo.

A decisão de Jesús Guarema foi antecipar o sonho de se desenvolver como pessoa completando os estudos fora da Venezuela. Transformou-o em fuga. Advogado recém-formado, foi assistente jurídico dos causídicos de uma ONG da Universidade Andrés Bello que velavam pelos direitos dos presos nos protestos de 2014 na Venezuela, esses que atiraram com a figura mais proeminente da Oposição ao Governo, Leopoldo López, para a prisão de onde saiu agora para ficar retido em casa. Jesús, venezuelano puro, aceitou a mão estendida de familiares lusodescendentes na Madeira. Ele e os quase 4000 venezuelanos de uma ou outra forma ligados a Portugal e à rejeição do Governo de Nicolás Maduro que chegaram à ilha no espaço de ano e quê.

As contas da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus vão até meados deste julho. São preliminares, avisa Tiago Freitas, adjunto do secretário regional, Sérgio Marques. Crise? "Ainda não, mas temos que estar preparados". O crescendo de tensão, a eleição de hoje para a Assembleia Constituinte que o Presidente Nicolás Maduro quer ver reescrever a Constituição desenhada pelo antecessor Hugo Chávez, em 1999, a aproximação do ano letivo... os regressos vão aumentar em agosto, acredita o governante.

Ou já aumentaram, corrige Lídia Albornoz, 20 anos de Venezuela, 18 de professora primária na Madeira e, agora, semanas a ensinar ditongos, esse monstro da língua portuguesa, a Jesús, Eglida, Carolina e outros. Numa sala cedida por um centro de formação, gratuitamente, junto à "Casa da Luz" do Funchal, Lídia ilumina o rosto fechado de quem a ouve, no Curso Intensivo de Português para Venezuelanos, obrigando-os a revirar os olhos na tentativa de articular incongruências sonoras. "Desde quarta-feira foram mais de mil a chegar".

Porquê? Manuela da Silva viu os filhos partir para Londres, com o pai deles, porque a vida a vender coisas usadas num país sem dinheiro para novidades não lhes daria "presente nem futuro". Está no Funchal, vai a Inglaterra espreitá-los. Tem a volta a Caracas marcada para setembro, o futuro, quiçá hoje, dirá se a vai usar. "Estamos cansados de passar necessidades", de depender, para comer, de um mercado negro para o qual não tem carteira. Desceu dos 80 para os 56 kg e apresenta-se-nos de "camiseta da Venezuela", casaco e boné, "uma gota entre milhões" de descontentes. As cores são tragicamente as mesmas: as que enverga, da bandeira latino-americana, e as do estandarte do paraíso português. Azul, amarelo e toques de vermelho. Tem um discurso apaixonado pela oposição ao Governo venezuelano. Marchou, manifestou, bloqueou estradas. Podia, ela.

Carolina não. Veio depois de 2014, já 2015 ia piorando, com o marido madeirense, as poupanças feitas a pensar nos estudos das filhas intolerantes à lactose, doentes sem solução na Venezuela natal exangue de medicamentos, além de tudo o resto. Para trás, Carolina deixou a história do sequestro com final feliz do cunhado e os dois meses que ficou literalmente presa em casa a proteger as crianças do caos. "Colocava panos com vinagre nas janelas para o gás lacrimogéneo não entrar. Subia o volume da televisão com programas infantis para que elas não percebessem as detonações". O marido, engenheiro, aceitou ser ajudante de mecânico, mas varreria ruas se fosse caso. As poupanças seriam para investir num negócio que a burocracia madeirense encravou. Ao cabo de dois anos, o desespero: "Chegámos a um ponto em que tivemos que recorrer à ajuda social". Nada que lhe tire o sorriso nem a garra de querer trabalhar pelo futuro.

O peso do regresso na taxa de desemprego

"O português da Venezuela é muito empreendedor. Muitos não pedem ajuda, aceitam o trabalho disponível". Tiago Freitas fala-nos do Gabinete de Apoio aos Emigrantes Madeirenses Regressados da Venezuela, criado há semanas para condensar o que precisa de ser feito pela comunidade que começa a crescer demasiado depressa. A região só conta com cerca de 100 pedidos na área da habitação. Muito pouco para quatro mil chegadas. Mas já calcula mil inscrições no Instituto de Emprego, o que, diz Sérgio Marques, fez a taxa de desemprego madeirense passar a média nacional. Está acima dos 11%. "Estamos aqui de braços abertos, mas" - há sempre um mas - "não estaremos preparados se não tivermos a cooperação e o envolvimento do Governo da República, porque quem chega são cidadãos nacionais, antes de mais, e só depois madeirenses". Não apenas pelo apoio financeiro a que este fluxo de imigração obriga (há necessidades de saúde prementes e crianças em idade escolar, porque quem vem são emigrantes de segunda e terceira geração - "os primeiros ficam lá a defender o espólio"), mas porque há papelada legal, registos, vistos e, sobretudo, equivalências de diplomas. Trabalho? O turismo pode ser uma solução, se o conhecimento da língua ajudar. Além do curso solidário de Lídia, há um oficial, para várias nacionalidades, a cargo do Governo Regional. E depois, o sentimento é que Portugal é, antes de mais, um trampolim para uma tão larga Europa.

Evitar o fantasma dos retornados

Tiago insiste na palavra "regressados". O afã do trabalho de receção e integração visa, a todo o custo, evitar "repetir uma situação tipo "retornados"". A terminologia arrepia, nem sequer deve ser pensada, a população não pode ser levada a achar que alguém lhe vai tirar o pão.

Não vai. Martin Gonçalves, 52 anos, empresário no ramo dos seguros, é de uma lucidez cortante. "Temos sempre uma esperança de não vir para cá de um momento para o outro, porque isto aqui também não está fácil". Ele vem em férias muitíssimo prolongadas, a ver no que dá aquela que é a terra dele, Caracas, enquanto respira sem ter de olhar para o lado a ver se é ladrão, enquanto se dá ao luxo de correr à beira mar. E conta dos outros, os que tinham optado por pôr o dinheiro cá, nos Banifs e BES deste mundo. Estão presos ao caos, à fome, à insegurança, à violência, à mercê da delinquência.

"A delinquência é horrível, a delinquência organizada é muito pior". Jesús coça o pescoço para disfarçar até desistir de disfarçar e chora. Perdeu um familiar às mãos dessa delinquência. Viu uma pessoa cair, estava ao lado dele, "tocou-lhe a ela morrer". Já Eglida sentiu um frio no tímpano, a entrar por ali dentro, quando cobria uma manifestação com Ramos Allup, líder opositor. Era um chumbo, de uma arma caseira. O marido disse-lhe, seco: chegou a altura de deixares de pensar na Venezuela onde te levantas às cinco da manhã para fazeres fila para o pão e começares a pensar na tua família. Foi há quatro meses. Hoje, está no Funchal e cria figuras do bailinho da Madeira com pasta feita do papel que o desperdício atira para as caixas de correio ocidentais. "É difícil suar sangue para resgatar um país", pontua, no final, Jesús. "Mas vale a pena".