Prémio

A Ciência que fala no feminino

A Ciência que fala no feminino

Quatro investigadoras, já doutoradas, recebem, esta quarta-feira, as Medalhas de Honra L"Oréal, na sua 18.ª edição

Do cancro da mama à preservação de aves aquáticas. Dos comportamentos aditivos à microcefalia. Quatro projetos científicos no feminino que são hoje distinguidos pelas Medalhas de Honra L"Óreal Portugal para as Mulheres na Ciência. Na sua 18.ª edição, cada vencedora recebe um prémio de 15 mil euros para prosseguir a sua pesquisa. Doutoradas e pós-doutoradas, num universo de 72 candidatas selecionadas por um júri científico presidido por Alexandre Quintanilha. Num país onde 43,3% dos investigadores são mulheres.

PUB

Neurónios nos comportamentos aditivos

A investigação de Carina Soares-Cunha tem o seu foco no núcleo "accumbens", uma das áreas do cérebro responsável pela sensação de prazer após estímulo externo. O estímulo, as drogas de abuso e as recompensas naturais, como a comida. O objetivo, identificar grupos de neurónios específicos que são ativados, no "accumbens", quando expostos a drogas ou recompensas. Assim, esta pós-doutorada em Neurociência pelo Zuckerman Institute (Columbia), quer "conhecer a localização objetiva destes neurónios" e "distinguir os que respondem a recompensas naturais dos que reagem a estímulos químicos". Um mapeamento que a investigadora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho acredita abrir portas ao "desenvolvimento de terapias que permitam reverter os padrões de dependência". A distinção que hoje recebe é, para si, "um grande incentivo e apoio para impulsionar a carreira e prosseguir o projeto de investigação". Da ciência no feminino, lamenta a "disparidade em cargos de maior responsabilidade". Da ciência em Portugal, "a falta de oportunidades de financiamento". Certa que cada vez mais a sociedade vê a investigação científica como "fundamental".

Coexistência entre Homem e Natureza

Doutorada em Biologia e Ecologia, Edna Correia tem no seu âmago científico o equilíbrio entre a Natureza e o Homem. Tomando de partida a cultura do arroz, sorvedouro de recursos hídricos e base alimentar de metade da população mundial. O trabalho da investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Faculdade de Ciências de Lisboa visa "o conflito de interesses entre as necessidades do Homem e as espécies que dependem do meio aquático para sobreviver". Para restabelecer esse equilíbrio, propõe-se fazer "o seguimento com aparelhos de GPS de algumas das espécies de aves que usam frequentemente as zonas de arrozais, como a Íbis-preta (estuário do Tejo)". Caracterizada a dinâmica, Edna pretende fazer "uma avaliação rigorosa do prejuízo causado pelas aves aquáticas à produção de arroz" por forma a desenhar um "conjunto de diretizes que orientem a coexistência sustentável entre homens e aves". Um equilíbrio que ambiciona também para a Ciência, onde se mantém um "desigual acesso a oportunidades ao longo da carreira", como sejam os cargos de chefia. Com financiamento subjacente. Porque a maioria dos investigadores, como Edna, "vivem com contratos de curta duração".

Atacar o cancro da mama triplo-negativo

Representa 15% da incidência de cancros da mama invasivos. Raro, agressivo e de rápida metastização. O cancro da mama triplo-negativo (inexistência de três marcadores) está no centro da investigação de Sandra Tavares, pós-doutorada em Biologia do Cancro pela University Medical Center Ultrecht (Países Baixos). O quê? "Compreender os mecanismos que levam à agressividade deste tipo de cancro". Porquê? "Urgente para resolver este problema de saúde", mais frequente em mulheres abaixo dos 40 anos. Como? Identificando "que proteínas estimulam a reciclagem proteica e consequente formação acelerada de metástases". Meta assente numa "combinação inovadora de rastreios que vão permitir avaliar níveis de expressão de genes e níveis de proteínas em estruturas tridimensionais" que se comportam como pequenos tumores, abrindo assim a porta "à identificação de um grupo de reguladores de reciclagem proteica" e consequente definição de "terapêuticas que permitam limitar a sua atividade". O prémio que agora recebe permite a Sandra dar passos seguros na sua "própria linha de investigação". Sendo que para ser cientista é preciso, acima de tudo, "teimosia". E "fazer da pele Teflon".

Relação entre microcefalia e mitose

As doenças raras são um desafio para a comunidade científica e médica. Apesar de afetarem poucas pessoas, dificultando a identificação de padrões de sintomatologia e evolução da doença, todas juntas afetam cerca de 5% a 6% da população mundial. A investigação desta doutorada em Ciências da Vida pela Universidade de Dundee (Reino Unido) foca-se nas doenças raras que causam microcefalia e a sua relação com a mitose , processo segundo o qual as células se multiplicam. "Estas doenças raras são muito diferentes entre si, mas partilham dois pontos em comum: a presença da microcefalia e alterações ao nível genético de reguladores de mitose", explica a investigadora do Algarve Biomedical Center. Pelo que pretende estudar como é que estes reguladores da mitose funcionam no sistema neurológico, utilizando para o efeito células estaminais pluripotentes induzidas para "formar uma pequena estrutura que se assemelha a um cérebro". Para perceber como é que a divisão celular está afetada nestas células neuronais em particular. E é esta "descoberta do desconhecido" que a move, numa profissão "com pouca estabilidade e ainda com pouca perspetiva de futuro". Mas "fascinante por si só".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG