Barómetro

Dois terços usam o carro para ir trabalhar ou levar filhos à escola

Rafael Barbosa

Automóvel já reinava antes do confinamento imposto em março e abril e assim continua

Foto Leonardo Negrão / Global Imagens

Automóvel é o meio de transporte exclusivo para a maioria (65%). Dependência é menor em Lisboa. Receio dos transportes públicos é elevado (75%).

Dois terços dos portugueses usam exclusivamente o automóvel nas suas deslocações para trabalhar ou levar os filhos à escola. O facto de a maioria da população ativa viver a mais de cinco quilómetros do local de trabalho ajudará a explicar essa dependência. Outra explicação terá a ver com a pandemia que assola o país: 75% têm "receio" de andar de transportes públicos, de acordo com o barómetro da Aximage para o JN, TSF e ACP.

O automóvel já reinava antes do confinamento imposto em março e abril e assim continua - para 65% dos que trabalham fora de casa é o meio de transporte exclusivo; para 66% dos que têm filhos é o meio usado para os levar à escola. Mas o Barómetro do Automóvel Club de Portugal sobre mobilidade mostra algumas mudanças entre o "antes" e o "depois" da pandemia, inclinando a balança para o transporte individual.

Verifica-se, por exemplo, um aumento substancial dos que utilizam agora um misto de automóvel e transportes públicos (passou de 5% para 12%, com destaque para a Área Metropolitana do Porto), enquanto se reduz a proporção dos que usam exclusivamente o metro ou o autocarro e se torna irrelevante a opção de usar uma combinação de dois transportes públicos (7% antes do confinamento). Ao mesmo tempo, são mais os que agora usam motociclos, em particular em Lisboa (13%) e Porto (8%).

Lisboa justifica, aliás, uma análise mais detalhada. Porque é a região que menos depende do automóvel - apenas 51% usam exclusivamente o carro para trabalhar (10 a 20 pontos percentuais abaixo das restantes regiões). É comprovadamente a região mais bem servida de transportes públicos (10% dos lisboetas usam exclusivamente o comboio, percentagem muito superior ao resto do país), mas haverá outras explicações: são também 10% os que respondem que, apesar do receio de andar de transporte público, não têm alternativa.

O problema da distância

Voltando ao reinado do automóvel, a distância que é preciso percorrer todos os dias, seja para trabalhar, seja para levar os filhos à escola, parece ser uma das principais explicações: 37% da população (mais de metade da população ativa, se excluirmos reformados, desempregados e domésticas) vive a mais de cinco quilómetros, com particular enfoque em segmentos como os que vivem na região de Lisboa (45%), para os homens (44%) e população suburbana (52%).

Num ambiente tão dominado pelo automóvel, acaba por ser surpreendente que a grande maioria dos que o usam nas deslocações para o trabalho e/ou para a escola não tenham problemas de estacionamento (mais de 80%). O cenário é um pouco menos favorável nas áreas metropolitanas, ainda que por razões diferentes. Os habitantes de Lisboa reportam sobretudo problemas com o estacionamento na zona de residência (29%), o que remete de novo para o facto de serem os que estão menos dependentes do automóvel para trabalhar. Os da região do Porto queixam-se sobretudo de problemas com o estacionamento no local de trabalho (27%). Num caso como no outro, confirma-se que é um problema maior para as populações que vivem em zonas urbanas (20%).

Restringir entrada nas grande cidades

Um quinto dos portugueses que usam o automóvel nas suas deslocações diz que a melhor solução para o problema de estacionamento é restringir a entrada nas grandes cidades. Uma opção controversa que defendem sobretudo os que têm 65 ou mais anos (39%) e os que vivem na região de Lisboa (26%).

Parques gratuitos

As câmaras têm um papel na resolução do problema do estacionamento e o melhor que têm a fazer, segundo metade dos inquiridos, é construir parques gratuitos (46%). Também há quem opte por parques gratuitos apenas junto aos principais nós de transportes públicos (31%).

Pandemia deixa mais mulheres sem férias

Uma larga fatia de portugueses não fez férias este ano ou, se as fez, passou-as em casa (39%). No entanto, este não é um ano excecional. Em 2019, quando ainda não havia pandemia, já foi assim para 31%. Voltando a 2020, há segmentos da população que se destacam: as mulheres (44%, com mais 11 pontos percentuais que os homens), os que vivem na região Centro (47%), os que têm 35 a 49 anos (48%) e os que fazem parte da classe média baixa (53%). Quem conseguiu fazer férias usou sobretudo o automóvel e ficou em Portugal. As viagens de avião tiveram quedas acentuadas.

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