
A morte saiu à rua na madrugada do dia 23 de abril de 1987 para nos despojar de um dos grandes. "Murchou em José Afonso o mais rubro cravo de Abril", titulava o JN na primeira das duas páginas dedicadas ao músico e compositor de 57 anos.
O destaque conferido ao funesto acontecimento passou também pela primeira página do jornal, na qual a notícia da morte se sobrepôs a todas os outras ocorrências do dia, incluindo as marcantes Presidências Abertas de Mário Soares ou a revelação de que os Estados Unidos da América (já) eram o país mais endividado do planeta, com um défice acumulado de 256 mil milhões de dólares.
Na peça central sobre a morte do autor de "Grândola, vila morena", recordou-se a deterioração do seu estado de saúde nos últimos meses, bem evidente na crescente incapacidade de comunicar com os que o rodeavam. Diagnosticada em 1982, a esclerose lateral amiotrópica foi limitando de forma gradual a qualidade de vida do músico, até que "a destruição de todo o tecido muscular o levou a morrer num estado próximo da asfixia".
O trabalho jornalístico publicado nesse dia incluiu a revisitação minuciosa do longo e bem sucedido percurso artístico, no qual, mais do que os 15 discos editados, o fundamental foi mesmo a marca impressiva deixada no património musical português. "A vida de solidariedade política e social" foi também evocada num artigo em que não faltaram também as reminiscências biográficas. O nascimento em Aveiro, a educação a cargo dos tios e a mudança precoce para África são referidos ao pormenor, assim como o seu legado de resistência antifascista que iria inspirar muitos milhões.
O impacto do desaparecimento físico de "Zeca" não se confinou às fronteiras portuguesas, lembrava o JN. Ao lado, em Espanha, "a rádio e TV não se calam", referia o periódico, que destacou igualmente o espetáculo de homenagem ao músico organizado por figuras como Luis Pastor e Paco Ibañez, realizado numa das mais importantes salas de Madrid.
Nas reações à morte, todos os inquiridos convergiram no forte grau de comprometimento do artista com as causas em que sempre acreditou. A começar pela liberdade. O Presidente da República vincou "o homem generoso e solidário", digno de merecer "respeito. admiração e simpatia de todos os portugueses". Fora das lides políticas, sobressaía o depoimento de Rui Pato, companheiro de José Afonso dos seus tempos de Coimbra, para quem este foi "o último dinossauro".

