Ana Gomes prevê presidente "parco na palavra" e com "alertas" na medida necessária

Ana Gomes manifestou-se certa de que António José Seguro vetará alterações à legislação laboral "tal como estão"
Foto: Pedro Correia
A antiga candidata presidencial Ana Gomes prevê que António José Seguro vai ser um presidente da República "parco na utilização da palavra", correto e exigente na relação com o Governo, com "alertas públicos" na medida necessária.
Em declarações no âmbito do podcast Lusa Extra, Ana Gomes manifestou-se certa de que António José Seguro vetará alterações à legislação laboral "tal como estão" e sem que haja um acordo de concertação social, como "disse na campanha eleitoral".
A diplomata e antiga eurodeputada do PS apontou, porém, como uma questão mais relevante do que essa "a privatização da Segurança Social e disponibilização em bolsa dos capitais da Segurança Social", algo que no seu entender "está nas intenções deste Governo" PSD/CDS-PP.
"Isto, a meu ver, tem de ser absolutamente impedido pelo presidente da República e por outros órgãos e forças do país", defendeu.
Por outro lado, Ana Gomes congratulou-se por António José Seguro ter elegido a saúde como prioridade e qualificou como "escandaloso" o modo como tem sido gerida, criticando o uso de recursos públicos "para pagar aos privados" e as verbas pagas a médicos tarefeiros: "Isto é inaceitável, é uma ignomínia e não pode continuar".
"Isto é má gestão feita para defraudar o Estado. E é exatamente aí que nós precisamos de reforma. E eu conto que o presidente António José Seguro não seja enganável ou não seja parco na sua intervenção, no sentido de moralizar aquilo que efetivamente tem dado muita razão de queixa aos portugueses", acrescentou.
Segundo a antiga embaixadora em Jacarta, o novo presidente vai ser "bastante mais parco na utilização da palavra, para que ela seja, naturalmente, mais relevante do que era com o professor Marcelo Rebelo de Sousa", de cujos mandatos fez um "balanço globalmente negativo".
Na relação com o executivo chefiado por Luís Montenegro, Ana Gomes prevê que Seguro "vai ser muito correto", mas "muito exigente, desde logo nas conversas semanais com o primeiro-ministro e no seguimento daquilo que são os compromissos assumidos lá nessas reuniões e assumidos publicamente", confrontando-o com "aquilo que foi feito ou aquilo não foi feito".
"Muito disto poderá passar-se de forma discreta, mas haverá momentos em que se calhar é preciso uns alertas públicos. E aí não tenho a mais pequena dúvida que António José Seguro saberá fazê-los na hora e com a medida necessária para que o Governo compreenda", considerou.
A antiga dirigente do PS acredita que "não será António José Seguro que precipitará qualquer crise" em Portugal, e na sua opinião "essa também foi uma das características dos dois mandatos do professor Marcelo Rebelo de Sousa, que foi de facto um fator de instabilidade, de desestabilização, designadamente com as três dissoluções da Assembleia da República".
"Já estamos a ver que, inclusivamente, as tensões que podem abalar o Governo vêm de dentro do próprio PSD, designadamente por causa da questão da aliança com a extrema-direita", observou Ana Gomes, numa alusão ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.
Em relação ao Chega, a antiga dirigente do PS espera de António José Seguro iniciativas para evitar que o tipo de intervenção desse partido "infete ainda mais a sociedade portuguesa".
A diplomata referiu que o presidente eleito "tem a responsabilidade de ter essa votação recorde de portugueses da direita à esquerda, democrática, que não pode de maneira nenhuma aceitar o tipo de intervenção malcriada, boçal, que é típica do partido Chega".
Ana Gomes criticou Marcelo Rebelo de Sousa por não ter intercedido pela ilegalização do Chega, quando o partido surgiu, e está convencida de que o presidente cessante não ficará em silêncio: "Embora ele prometa que se cala, eu não sou das que acreditam. Nunca se calará, e haverá imensas maneiras de dar a conhecer a sua opinião, porque isso tem a ver com a sua maneira de ser".
