Concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia deixa investigadores à deriva

Maria João Gala/Global Imagens
Depois de, no último concurso de projetos de investigação científica da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), apenas 312 trabalhos terem conseguido financiamento, são muitos os investigadores que, agora, não sabem como irão desenvolver a sua atividade. Para acabar com abusos - um investigador chegou a apresentar 18 candidaturas -, o ministro da Ciência mudou as regras.
"Só podem apresentar uma candidatura e, se tiverem um projeto aprovado no anterior, não podem concorrer", revela Manuel Heitor ao JN. Refira-se que, de um total de 5847 candidaturas, apenas 5,3% foram consideradas elegíveis para um financiamento global de 75 milhões de euros. Dos que se propuseram a concurso, 3317 conseguiram uma pontuação igual ou superior a 7 (de muito bom para cima), sendo assim considerados para financiamento. Um "volume exagerado" de propostas, que se explica no facto de haver investigadores a apresentarem mais de 10 candidaturas, explica o governante.
O concurso, agora aberto, aperta as regras a uma candidatura por pessoa e com um apelo de Manuel Heitor à "responsabilidade social". Caso contrário, garante, a tutela "pode apertar mais as regras no próximo concurso", nomeadamente pondo um limite de projetos por centro de investigação.
Deceção na Ciência
Os resultados do último concurso deixaram investigadores dececionados e apreensivos quanto ao futuro. Ao JN, António de Sousa Pereira, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas - sedes de centros de investigação e laboratórios - fala num clima de insatisfação.
"Temos um enorme conjunto de pessoas altamente diferenciadas, que foram contratadas, mas que agora não podem fazer investigação, porque não têm projetos aprovados e porque não há dinheiro", diz António de Sousa Pereira.
Para o diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular, "os resultados do concurso foram muito dececionantes". Deixando Claudio Sunkel um aviso: "Se não houver um reforço a curto prazo no financiamento da Ciência, podemos estar, em breve, a assistir a uma perda significativa de competências que têm levado muitos anos a serem implementadas". A Associação Nacional de Investigadores em Ciência e Tecnologia, por sua vez, tinha já solicitado mudanças nas regras, sugerindo que o investigador principal tivesse de se dedicar em 50% ao projeto.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior foi mais longe, impondo um projeto por pessoa.
Mais 75 milhões
A FCT acaba de lançar um novo concurso de projetos - o compromisso é abrir um, todos os anos, no final de novembro -, com uma dotação de 75 milhões. Segundo o ministro Manuel Heitor, 60 milhões são para projetos de 250 mil euros cada e o remanescente para projetos de 50 mil euros.
Financiamento
O presidente da associação dos investigadores (ANICT), Nuno Cerca, diz que os centros receberam um financiamento base "minimalista". O ministro da Ciência contraria, revelando um reforço, neste ano, de 80 para 100 milhões e sublinhando que o financiamento depende da avaliação das unidades.
Ministro da Ciência
"Uma pessoa chegou a apresentar 18 candidaturas. Apelo à responsabilidade social. As regras podem apertar mais no próximo concurso"
Diretor do IBMC
"Um grande número de investigadores não vão ter a possibilidade de continuar a desenvolver a sua atividade científica"
Presidente do CRUP
"Está a criar um enorme desconforto e frustração. Num concurso em que 95% dos projetos são recusados, as pessoas sentem-se defraudadas"
