
Extorsão começa com abordagem nas redes sociais por parte de homens que se fazem passar por mulheres
Pedro Correia
A associação "Quebrar o Silêncio", que apoia homens vítimas de violência sexual, nunca recebeu tantos pedidos de ajuda como em 2025. O ano foi também marcado pelo "crescimento abrupto e preocupante" dos crimes de extorsão sexual e pela subida dos relatos de abusos sexuais na infância.
No último ano, chegaram à "Quebrar o Silêncio" 283 pedidos de apoio, mais 37% do que em 2024 (206), e o número mais elevado desde a sua fundação, em 2017, quando recebeu 74. "Foi um aumento histórico em relação ao nosso primeiro ano de atividade", frisa Ângelo Fernandes, que atribui esta subida sobretudo ao reforço da sensibilização por parte da associação e ao facto de as vítimas se sentirem "mais empoderadas" para pedir ajuda.
Mais de metade dos contactos (154) dizem respeito a casos de violência sexual, um número "bastante acima" dos 112 registados em 2024, nota o diretor da associação. Em muitos casos, são abusos ocorridos na infância, revelados apenas décadas depois. "O crime dos abusos sexuais preocupa-nos sempre. São situações que aconteceram sobretudo na infância e os homens só agora se sentem preparados para procurar apoio. Significa que passaram, muitas vezes, décadas a sofrer em silêncio", alerta. "O Estado continua a falhar com as vítimas, não há planos de prevenção nem medidas de combate à violência sexual contra crianças", aponta.
Aumento de 5000%
Os crimes de extorsão sexual também tiveram um peso determinante neste recorde de pedidos, representando um terço de todos os contactos recebidos: em 2025, a associação acompanhou 67 casos, dos quais 51 com vítimas do sexo masculino. Trata-se de "um aumento de 5000% face ao ano anterior", quando apenas um homem procurou a associação por este motivo.
"Cada mês tínhamos vários pedidos de apoio relacionados com este crime", assinala Ângelo Fernandes, que fala num "crescimento abrupto e preocupante", sobretudo após a associação ter intensificado a sensibilização para o tema, no final de 2024.
"Muitas vezes, os homens que são vítimas de violência sexual tendem a acreditar que são um caso pontual e acabam por não procurar apoio. Quando têm contacto com uma campanha ou uma publicação nas redes sociais, que fala daquilo que lhes aconteceu", esclarece.
O método mais usado para extorquir
A "Quebrar o Silêncio" refere que, no caso da extorsão sexual, o aumento não se deve apenas à maior sensibilização, mas reflete um agravamento efetivo do fenómeno. O esquema começa quase sempre em ambientes digitais e redes sociais.
À "Quebrar o Silêncio" chegaram casos de homens que foram vítimas de extorsão sexual e que pagaram "3000, 6000, 15 000 e até 20 000 euros", revela o fundador da associação. "Normalmente são perfis falsos que entram em contacto com esses homens e fazem-se passar por mulheres atraentes, às vezes com conversas logo sexualizadas. Até tomam a iniciativa de enviar uma primeira foto ou um vídeo para dar segurança à vítima", descreve. Assim que a vítima envia a fotografia, "o abusador revela que é um homem e começa o processo de chantagem e pressão".
Quebrar o Silêncio refere, porém, que, no caso da extorsão sexual, o aumento não se deve apenas à maior sensibilização, mas reflete um agravamento efetivo do fenómeno. "Sabemos que o crime está a aumentar porque temos acesso a relatórios nacionais e internacionais da Europol e da Interpol", nota, lembrando que "os crimes online estão a aumentar desde a pandemia". "Na altura, os abusadores, não podendo abusar fisicamente das vítimas, encontraram outras estratégias e estas mantiveram-se", clarifica.
A extorsão sexual é uma forma de chantagem com imagens, vídeos ou informações íntimas de carácter sexual, sob ameaça de divulgação, para obrigar a vítima a pagar. O esquema começa quase sempre em ambientes digitais - redes sociais e aplicações de encontros, onde é fácil criar perfis falsos e iniciar conversas privadas. Depois do primeiro contacto, é frequente a conversa passar para serviços de mensagens instantâneas, como WhatsApp, entre outros.
Pagaram 20 mil euros para evitar extorsão
À Quebrar o Silêncio chegaram casos de pessoas que pagaram "3000, 6000, 15.000 e até 20.000 euros", revela o fundador da associação. "Tudo acontece muito rápido. Lembro-me de um jovem em que tudo se passou na hora de almoço. Normalmente são perfis falsos, que entram em contacto com esses homens e fazem-se passar por mulheres atraentes, às vezes com conversas logo sexualizadas, mas às vezes também são muito mais subtis. Até tomam a iniciativa de enviar uma primeira foto ou um vídeo para dar segurança à vítima", descreve. Assim que a vítima envia a fotografia, "o abusador revela que é um homem e começa o processo de chantagem e pressão para pagarem, senão enviam as fotografias à família ou a colegas de trabalho". "Assim que pagam, a pressão tende a aumentar porque, como sabem que a pessoa pode pagar, vão extorquir mais dinheiro".
Nestes casos, é raro haver queixa às autoridades porque "é muito difícil chegar a estas pessoas, uma vez que os perfis são falsos e estão noutros países", e porque muitas vítimas querem, acima de tudo, resolver o problema o mais depressa possível. "Quando nos procuram querem uma medida rápida do que podem fazer para parar a extorsão, saber como proceder, seguir em frente e acabar com aquilo", explica.
Ângelo Fernandes recorda que "são raros os casos em que o abusador é um desconhecido ou um estranho". Na maioria dos crimes de abuso sexual os agressores são "pessoas próximas, família ou alguém que conhece a vítima, um vizinho, um amigo da família, um professor, um chefe dos escuteiros, um treinador, um pediatra". Já nos casos de extorsão sexual, os autores do crime são quase sempre "desconhecidos", muitas vezes a residir noutro país, dado que explica o aumento significativo de abusadores desconhecidos nos pedidos de ajuda da Quebrar o Silêncio em 2025.
Ainda assim, a associação sublinha que apesar da "esmagadora maioria" ocorrer online, também pode acontecer presencialmente, "com quem a vítima mantém ou manteve uma relação de intimidade". "Há ainda casos de homens casados que estiveram com mulheres que depois os ameaçam que se não pagarem enviam as imagens para as mulheres deles", exemplifica.
Associação registou 165 queixas por suspeitas de crime
A associação Quebrar o Silêncio registou ainda 165 crimes, a maioria (74) casos de abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes e 67 de importunação sexual. A estes somam-se 13 casos de violação e violação na forma tentada, além de seis ocorrências relacionadas com perseguição, coação sexual e assédio sexual, e cinco casos de violência doméstica.
O abuso sexual na infância continua a acontecer "na própria casa das crianças ou na escola". Já entre homens adultos, os relatos surgem com frequência ligados a "consultas e tratamentos médicos, sessões de fisioterapia, ginásios, espaços de massagens e ao próprio local de trabalho", detalha.
A violência sexual contra homens atravessa várias fases da vida: a idade média das vítimas acompanhadas em 2025 foi de 38 anos, com casos desde os 14 até aos 70 anos. Números que desmontam a "ideia errada" de que este tipo de crime é limitado à infância.
Mais agressores homens do que mulheres
Os dados divulgados pela Quebrar o Silêncio mostram também que, embora maioritariamente masculina, a violência sexual não é praticada exclusivamente por homens: em 2025, sempre que foi possível identificar o sexo do abusador, 65% foram homens e 35% mulheres.
"Ainda existe a ideia de que o homem adulto não pode ser vítima de abuso sexual ou que só acontece nos contextos mais desfavorecidos, e são ideias erradas. Temos casos com mais e menos qualificações, até temos mais homens com doutoramentos, embora também com o 9º ano", exemplifica. "Há homens com 30 ou 40 anos que nos dizem que nem sabiam que podiam dizer que não, cria-se a ideia de que não se pergunta aos homens pelo consentimento porque há a imagem tradicional de que o homem está sempre disponível para ter relações sexuais", acrescenta.
Ângelo Fernandes salienta que, ao longo destes nove anos, a associação conseguiu "baixar os números de anos em silêncio", mas alerta que "ainda há muito trabalho a fazer para desmontar estas ideias e educar as pessoas". "Quando digo que um em cada seis homens é vítima de abuso sexual antes dos 18 anos, as pessoas ficam surpreendidas. Por mais que andemos a repetir esta informação desde 2017, para muitos ainda é novidade, por isso não podemos deixar de repetir", conclui.
