Mudaram as circunstâncias que chamaram a Portugal um número crescente de imigrantes nos anos 90 e no começo do século. Alguns empreenderam o regresso ou procuraram outra Europa. Dos que ficaram, muitos perseguem o sonho de receber cá a família.
Já há poucos imigrantes a procurar Portugal, garante Timóteo Macedo, presidente da Associação Solidariedade Imigrante, cujos voluntários estão habituados a receber pedidos de ajuda na burocracia para legalização de cidadãos estrangeiros.
Segundo o dirigente, também é solicitada ajuda para o reagrupamento familiar. Mas Macedo é uma voz muito crítica quanto às exigências legais desse processo. É que a prova de meios de subsistência implica pelo menos o ganho do salário mínimo (475 euros) mais 30% desse valor. Ora, questiona, "quais os patrões que declararam mais do que o salário mínimo?". Acrescenta, aliás, que muita da nossa economia informal "é feita à base do trabalho ilegal do imigrante" e no âmbito "de um mercado de trabalho desregulamentado".
"O trabalho é factor estruturante da vida dos imigrantes", observa Timóteo Macedo, "porque é em torno do trabalho que eles podem reunir a família ou garantir-lhe dinheiro". Quando falha ou o ganho dele retirado é muito baixo, o reagrupamento familiar torna-se inviável. Ainda mais quando a dimensão do agregado alarga.
"Quanto mais numerosa for a família, mais problemas há para enfrentar a pobreza", constata o dirigente associativo, para referir que um afastamento da família a que se some a vivência da pobreza leva mais frequentemente a alcoolismo e marginalidade.
Passar à condição de sem-abrigo é outro patamar possível, assinala Timóteo Macedo, que referencia também os bairros sociais como "guetos de exclusão social permanente", em que muitos imigrantes partilham o ambiente com cidadãos nacionais. "O desassossego vai entrar cada vez mais na vivência entre pessoas", prevê.
Por outro lado, a nível de drama individual, um imigrante isolado da família e com laços precários com o trabalho pode entrar "em profunda ruptura, até com a lógica da vida".
"Há imigrantes com apoios sociais", constata o dirigente da Solidariedade Imigrante. No entanto, "esses apoios estão a ser restringidos e há cada vez menos gente a ter acesso a eles". "Com o fracasso das políticas sociais", na perspectiva de Timóteo Macedo, "é muito difícil as pessoas saírem da situação de profunda pobreza". Daí considerar mesmo que um Ano Europeu dedicado ao problema "é uma hipocrisia".
Para muitos imigrantes que afluíram a Portugal nos últimos anos, o sonho em tudo semelhante ao dos nossos emigrantes, de construir uma casa na terra natal, foi sendo adiado. Foram milhares os que partiram para outras paragens, depois de terem aqui conseguido a legalização.
