
Especialistas defendem melhoria das condições de trabalho para os profissionais
Rui Oliveira/Global Imagens
Observatório Português dos Sistemas de Saúde aponta os recursos humanos como um dos desafios do setor público.
"Falta definir uma estratégia" para fixar profissionais no Serviço Nacional de Saúde e proporcionar-lhes "carreiras aliciantes". Até porque pagar mais, por si só, não basta. Além de um "modelo de remuneração inovador e atrativo", é preciso melhorar as condições de trabalho, flexibilizar contratos, fomentar a investigação e possibilitar a progressão na carreira. É ainda necessário dar uma maior autonomia de gestão e responsabilidade às administrações hospitalares. O alerta é deixado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) no Relatório Primavera deste ano, que será apresentado hoje na Fundação Calouste Gulbenkian.
A escassez de recursos humanos é um dos três desafios apontados pelos especialistas ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Destacam ainda o acesso aos cuidados de saúde e a saúde pública como outros fatores a ter em atenção. "Desde 2016 que os relatos de falta de profissionais têm sido contínuos, levando inclusive a ameaças de demissão de diretores de serviços de vários hospitais públicos, queixas e desmotivação por parte dos profissionais e insatisfação dos utentes com os tempos de espera", lê-se no documento.
De acordo com o relatório, a contratação de profissionais não basta por si só. Entre março de 2016 e março deste ano, houve um aumento de 30 mil profissionais a trabalhar no setor público. A "passagem para as 35 horas no caso dos enfermeiros", a "limitação das horas de urgência dos médicos com mais de 55 anos" ou a pandemia que obrigou ao aumento de recursos humanos são algumas das razões apontadas pelos especialistas para as contratações. No entanto, dizem, "o aumento de profissionais não se tem traduzido num aumento proporcional dos serviços prestados".
"Não há SNS sem um corpo de profissionais dedicado. Isto não é sinónimo de apenas contratar mais profissionais", lê-se.
Manuel Lopes, um dos coordenadores do OPSS e professor na Universidade de Évora, alerta que "discutir o problema dos profissionais de saúde" não se centra apenas nos médicos. "Como é que o Estado entende definir uma estratégia que fixe profissionais no serviço público de saúde? Falta definir uma estratégia que fixe, lhes proporcione uma carreira aliciante e lhes dê uma perspetiva de vida", afirma ao JN.
Reequacionar acesso
No que toca ao acesso aos cuidados de saúde, o especialista defende que seja "reequacionado". "Propomos uma visão integrada para que os serviços sejam o mais de proximidade possível. Defendemos a domiciliação de cuidados, defendemos que estratégias usadas durante a pandemia - como a dispensa de medicamentos de uso hospitalar em farmácias de comunidade - continuem a ser usadas. E defendemos que as tecnologias sejam desenvolvidas de tal forma que não afastem as pessoas com dificuldades", revela.
Na Saúde Pública, Manuel Lopes diz ser necessário uma "estratégia clara e nacional de promoção e prevenção da saúde", tendo em consideração duas realidades: "o confronto com doenças infectocontagiosas" e o envelhecimento ativo e saudável. "Ou temos consciência que os nossos últimos anos de vida dependem de todo o nosso percurso de vida - e nessa área a Saúde Pública pode-nos ajudar muito - ou então vamos ter uma vida carregada de doença e dependência", refere Manuel Lopes, recordando que, "em termos de esperança de vida à nascença", Portugal compara "com os melhores". No entanto, o problema reside nos anos de vida saudável.
