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Estudantes que optam pela língua no Secundário caem há dois anos. Liga dos Chineses lembra oportunidades na potência económica.
O número de alunos portugueses a aprender mandarim como língua estrangeira no Ensino Secundário desce há dois anos consecutivos. Segundo dados do Ministério da Educação, neste ano letivo, há 289 alunos a frequentar aulas daquela língua estrangeira, distribuídos por dez escolas (Almada, Braga, Coimbra, Elvas, Lisboa, Loulé, Marinha Grande, Matosinhos, S. João da Madeira e Vila Franca de Xira). Há 136 no 10.º ano, 148 no 11.º e cinco no 12.º ano.
No ano letivo passado, estavam matriculados 361 alunos em 12 escolas do país (199 no 10.º ano, 153 no 11.º e nove no 12.º ano). Quando o projeto-piloto começou, no ano letivo 2015/2016, 230 alunos matricularam-se para aprender mandarim. No ano letivo seguinte, o número quase duplicou, passando para 412 alunos interessados em saber expressar-se em mandarim, em 12 escolas. No entanto, logo a seguir o interesse parece ter esmorecido, descendo para 361 no ano letivo 2017/2018 e 289 neste ano letivo.
O Ministério da Educação considera o "projeto de ensino de mandarim no Ensino Secundário um sucesso", pese embora os números demonstrem um decréscimo de interesse. "A oferta de uma língua estrangeira curricular está dependente da procura e da concorrência de outras línguas de oferta curricular, pelo que as oscilações identificadas, neste caso do mandarim, decorrem dessa condição incontornável".
Para Y Ping Chow, da Liga dos Chineses em Portugal, "o ensino de mandarim é importante para as relações culturais e económicas entre Portugal e China", pelo que é "preocupante" que o número de interessados esteja a diminuir. Há entraves à aprendizagem que é preciso ultrapassar. "O mandarim é uma língua difícil e os alunos não sentem uma utilização imediata do que aprendem e desmotivam", explica.
Segundo Y Ping Chow, é preciso que os jovens percebam a importância do mandarim, pelas oportunidades que pode abrir no futuro. "Existem cerca de 1400 milhões de chineses. A China é um grande protagonista mundial a nível económico e está a ganhar cada vez mais relevância. Aprender chinês vai ser tão importante como o inglês", sublinha.
Confúcio também ensina
Em paralelo, crescem projetos locais impulsionados pelos institutos Confúcio, que visam o ensino do mandarim noutros graus de ensino. No caso do distrito de Aveiro, sobressai o projeto-piloto de São João da Madeira, que este ano leva quase 800 crianças entre o 3.º e o 9.º anos a aprenderem mandarim em escolas públicas. A isto somam-se outros projetos em Estarreja, Espinho e em escolas privadas e centros de estudo. Ao todo, no distrito de Aveiro, há cerca de 2250 crianças do ensino público e privado a aprender mandarim.
No Minho, o Instituto Confúcio promove a língua em 15 escolas. Em Coimbra, no ano passado, havia 39 alunos e este ano o ensino foi alargado a mais dois estabelecimentos. Não foi possível apurar os projetos em Lisboa.
Reportagem
Uma aula com alunos de várias áreas que quiseram fugir ao inglês
Patrícia, Francisca, Paulo, Henrique e Diogo. São todos estudantes do 10.º ano, na Secundária Carlos Amarante, em Braga, nas áreas de Artes, Humanidades e Ciências Socioeconómicas, e apesar de nem todos partilharem a mesma turma, encontram-se duas vezes por semana, na mesma sala, para aprenderem mandarim. No total, são 23 os estudantes inscritos na disciplina que, na maioria, quiseram fugir ao inglês.
À primeira vista, os elaborados carateres chineses não parecem estar a criar dificuldades à turma. A professora Zhou Lingyu abre a aula a exibir cartões com traços desenhados e todos conseguem ler em uníssono o que ali está. Antes disso, quase lembrando a escola primária, já todos os alunos tinham colocado uma folha dobrada na mesa, com o seu nome escrito em mandarim.
"Parece que regressamos ao 1.º o ano", brinca Francisca Alves, uma das estudantes que preteriram o inglês a favor da língua chinesa. "Disseram-me que não era muito difícil se eu me aplicasse. Então, achei que podia ajudar-me a subir a média", explica a aluna de Humanidades, sem mostrar arrependimentos com a opção. "Está a correr tudo bem", afirma, partilhando da opinião dos colegas.
Patrícia Silva, por exemplo, diz que "ainda" não sente dificuldades. "Só conseguimos dizer coisas muito simples. Mas a professora é muito atenciosa", acrescenta Henrique Araújo.
Entre os cinco estudantes com quem o JN falou, três quiseram inscrever-se em mandarim para "fugir ao inglês", um idioma de que não gostam ou lhes traz dificuldades. Apenas Henrique e Diogo tiveram motivações diferentes. O primeiro já aprendeu inglês no Instituto Britânico e queria "uma experiência diferente". O segundo ambiciona uma carreira política e entende que saber mandarim "é obrigatório". É o único com intenções de continuar a aprender a língua, depois da experiência de dois anos no secundário.
Professora veio da China
A disciplina é uma das opções curriculares da escola, no âmbito do projeto-piloto do Governo que iniciou em 2015. Está a ser coordenada pelo Instituto Confúcio da Universidade do Minho, ao qual cabe "tratar das formalidades", como alojamento e formação dos professores que chegam da China, explica o diretor, António Lázaro. A escola garante deslocações da docente e uma tradutora.
Segundo a diretora do agrupamento, Hortense Santos, a principal razão para manter a disciplina atrativa é o facto de o Ministério autorizar "uma turma com alunos de diferentes áreas", algo impossível noutras opções. A responsável sublinha que nunca teve desistências, mas a mudança de formação ou de escola justifica que haja menos alunos do 11.º ano na disciplina.
Números
289 alunos matriculados
Neste ano letivo, há 289 alunos a aprender mandarim no Secundário. O número desce há dois anos consecutivos.
10 docentes
O Governo chinês enviou e paga os vencimentos a dez professores, que asseguram as aulas no Secundário
4 institutos Confúcio
Existem quatro institutos Confúcio em Portugal, com ligações às universidades de Aveiro, Coimbra, Minho e Lisboa.
