
Horta Comunitária do Sobreiro, na Maia
Telmo Pinto/Global Imagens
Espaços criados por autarquias para cultivo de produtos alimentares promovem agricultura biológica e o bem-estar dos novos hortelãos.
Um estudo que a Associação Sistema Terrestre Sustentável Zero fez, em 2017, revelou que tinham sido criadas hortas urbanas ou comunitárias em quase 60 concelhos de Portugal. Eram cerca de 70 hectares repartidos por talhões cultivados por 3700 hortelãos. Os dados não foram atualizados desde então, mas Pedro Horta, um dos responsáveis da Zero, admitiu ao JN que "devia ser feito outro inquérito para perceber o estado das coisas". Até porque, na altura, apurou-se que "havia muito interesse por parte de outros municípios em criar hortas".
No estudo, Guimarães, Funchal, Lisboa, Porto e Gaia eram os concelhos com mais área de hortas urbanas. Mas a adesão vai de norte a sul do país, e tanto acontece em concelhos mais urbanos, como naqueles que têm imensa área rural, como é o caso de Vila Real.
Quem se candidata a ter uma horta no meio da cidade onde vive não obedece a um determinado perfil. Pedro Horta diz que "os usufrutuários têm várias idades" e que "há homens e mulheres". Já o interesse em possuí-la parece ser comum. "Preocupações com a alimentação e com a origem dos produtos, atividade física e saúde, convívio com outras pessoas, partilha de saberes e experiências e o contacto com a terra" são motivações dos hortelãos.
Controlar o que se come
O responsável da Zero dá o exemplo de algumas cidades onde ainda não há hortas urbanas, em que começam a aparecer "canteiros públicos ocupados por cultivos". Tal, sublinha, prova que há pessoas que querem ter "algum controlo sobre o que comem". Por outro lado, quem trabalha enfiado em escritórios pode encontrar na horta "uma lufada de ar fresco ou momentos meditativos".
Mas o que Pedro Horta mais valoriza é a "fonte de produção de alimentos". Porque por mais pequeno que o talhão seja, permite "produzir para consumo em casa" e "partilhar com família e vizinhos". Caso, por exemplo, de Adriano Santos, em Vila Real (texto em caixa), de cuja horta os filhos são os principais beneficiários quando o vão visitar. Alguns produtos "podem ainda ser vendidos em mercados", prossegue Pedro Horta.
Do ponto de vista do ordenamento, os espaços urbanos onde as hortas são instaladas também ficam "valorizados" com a atividade da comunidade, enquanto nos periurbanos ajudam à "transição entre a zona edificada e o espaço mais rural".
No caso de Vila Real há 25 talhões no vale do rio Corgo. Havia um espaço sem uso na margem direita e, em 2017, a Câmara Municipal criou condições para que algumas pessoas pudessem "produzir alimentos de forma tradicional e biológica, ao mesmo tempo que ocupavam tempos livres", recorda o vereador Carlos Silva. "A expansão do conceito para outros espaços da cidade" está a ser equacionada.
Reportagem
Vila Real: Morangos que sabem a morango e tomates que sabem a tomate
Adriano Santos mostra que tem orgulho na horta que cultiva há quase um ano. "Agora tenho couve-penca, couve-galega, couve-flor, ervilhas, cebolas, alhos e brócolos. Na altura própria, também dá feijão-verde, pimentos, morangos que sabem a morango e tomates que sabem a tomate". Na verdade, quase colhe o que quer num pequeno talhão na margem direita do rio Corgo, a meio da cidade de Vila Real. "Não é grande. Gostava de ter o dobro do espaço para pôr outras coisas, mas serve para ter cá de tudo", diz ao JN.
A este professor reformado, de 72 anos, a horta tira só o tempo necessário. Em época de regar "é dia sim, dia não". O resto é "conforme calha, não há projeto", seja para cultivar ou para colher. A arte de cuidar da horta aprendeu-a em miúdo, pois foi preciso "trabalhar na agricultura e estudar ao mesmo tempo, até aos 25 anos".
Mas mais do que colher hortícolas, a atividade ajuda a "espairecer a cabeça". "Se hei de estar parado a olhar para a televisão, vir para aqui contribui para sair da rotina". Cada vez que vai lá dedica umas "duas horas" à horta. Até porque, agora no inverno, o sol não se demora no vale do rio Corgo.
Não muito longe dali, é a horta que ajuda Eduardo Correia, 63 anos, "a passar o tempo". Nomeadamente ao fim de semana, pois ainda trabalha. "Sabe, isto faz mesmo bem, ajuda a manter a saúde", acrescenta. Por outro lado, "sempre se tem alguma coisa para comer, não é? Por agora, veem-se plantas de "couves, favas, ervilhas, cebolas e morangos", mas mais lá para a frente há de dar mais coisas. Muito trabalho? "Não. Isto é tão pouco que não dá trabalho nenhum", sorri.
Maia: Na Horta Biológica do Sobreiro "alivia-se a cabeça e conversa-se"
Apesar das artroses e das dores na coluna que têm em comum - além do meio século de vida partilhada, Manuel e Alcina encontram quase sempre ânimo e forças para se vergarem em cuidados na horta que têm à porta de casa, no centro da Maia, onde semeiam hortícolas e aromáticas.
Têm alface, beterraba, couve-galega, nabo, alho-francês, salsa, penca... "E tenho chás!", entusiasma-se Alcina Cunha, diante do talhão 14 da Horta Biológica Social do Sobreiro, um projeto da Câmara e da Lipor que inclui compostagem comunitária.
"Está a ver o limonete? Gosto de ver as coisas a crescer. E também semeio em casa, para trazer para aqui", sorri a moradora do Sobreiro. Manuel Ribeiro, que ali acumula a função de mestre de compostagem, acrescenta que "tudo" o que sai dali "é melhor do que aquilo que compramos no supermercado". E tudo é partilhado - com os filhos e com os vizinhos. Até porque o projeto também pretende "desenvolver o conceito de comunidade, um espírito que se vê na aldeia, mas que se pode trazer para a cidade", aponta Luís Campos, técnico de ambiente da Lipor.
Mas a terra dá-lhes mais. E Conceição Cardoso, vizinha com quem Alcina partilha legumes e amizade, sabe-o bem. Herdou o talhão do falecido marido, fez a formação e ganhou o gosto. "Estou praticamente sozinha, e venho para aqui. Às vezes, até nem faço nada, mas alivia-se a cabeça e conversa-se", confessa a moradora, enquanto deposita resíduos orgânicos no contentor de compostagem.
O casal de septuagenários dirá o mesmo. "Serve para aliviar o stresse e para sair de casa e não estar tão fechado", reconhece Manuel Ribeiro.
Castelo Branco: Alimentos que dão "anos de vida" na Quinta do Chinco
"Isto foi a melhor coisa que nos aconteceu. Não uso luvas, mesmo no estrume. Quem viveu e trabalhou no campo como eu quando era pequena sabe o que é". Lucinda Gonçalves é, com o marido Januário, os dois com 70 anos, os mais novos ocupantes de um talhão da horta social da Quinta do Chinco, em Castelo Branco. Naturais de uma freguesia que dista a 45 minutos da cidade, deixaram as terras da aldeia natal por imperativos profissionais. Agora reformados, "metidos" num apartamento, com saídas reduzidas por causa da pandemia, o casal está mais feliz do que nunca. "Este silêncio do campo faz tão bem, até ando melhor da cabeça". Lucinda sorri enquanto segura a enxada que a ajuda a retirar as ervas que nascem à volta do que acaba de ser semeado: couve-galega, cenoura, couve-flor e coração de boi, batatas, espinafres e morangos.
Nas Hortas Sociais, numa antiga quinta recuperada de três hectares, promovem-se as atividades de horticultura e floricultura em modo biológico. O uso de pesticidas e fertilizantes químicos está interdito. A todos foi entregue um depósito compostor individual para que os resíduos possam ser aplicados na terra.
Luís Barroso é hortelão desde o primeiro dia da Quinta do Chinco, em 2018. "Comemos o que cultivamos. Estou reformado e gosto de passar aqui alguns momentos. Trato da horta, falo com os outros hortelãos, participo nas formações. É bom, para novos e mais idosos", assegura.
O empreendimento, criado e gerido pela Câmara, recebe visitas escolares, elabora cabazes de produtos e venda, concurso de espantalhos, entre outras atividades.
Lisboa: Chegaram a Alvalade as verticais vindas de Singapura
No Jardim e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado, em Alvalade, Lisboa, erguem-se quatro torres de hortas verticais, onde moradores dos bairros das Murtas e de São João de Brito vão começar a cultivar este mês. Os vegetais e ervas aromáticas serão consumidos por quem planta, mas também serão vendidos para restaurantes e mercearias da freguesia e instituições sociais. As receitas serão usadas a favor do projeto, como para comprar sementes e adubo. As instalações vieram de Singapura, na Ásia, e a Upfarming é a primeira empresa a trazer esta tecnologia para a Europa.
Cultivar em direção ao céu poderá ser uma realidade nos próximos meses em bairros de Lisboa, mas também em escolas e hospitais. "Estamos em negociações para um projeto-piloto numa escola pública. Nós montamos, damos os conhecimentos técnicos e os materiais para plantarem", explica Bruno Lacey, um dos fundadores da Upfarming, financiada pelo programa Bip/Zip da Câmara. As hortas comunitárias tradicionais "não produzem o suficiente para alimentar todos" e requerem mais água e terra. Já cada horta vertical "pode alimentar 40 pessoas por dia".
Ao contrário da tecnologia usada noutros países que "têm sistemas de controlo de temperatura dispendiosos", esta empresa quer apostar "num modelo mais tradicional, cultivando ao ar livre ou em estufas". "Nos EUA e no Norte da Europa estas culturas são feitas numa espécie de laboratório e vendidas para restaurantes com estrelas Michelin a preços exorbitantes. Queremos mudar isso, trazer para as pessoas comuns". Haverá aulas, visitas de estudo e programas de estágio.
Entrevista
Estimula os cinco sentidos
Quais os benefícios para a saúde mental de manter uma horta numa cidade?
A neurociência comprova que a proximidade com a Natureza tem impacto positivo na saúde mental e física. Maior contacto com a terra e com as plantas reduz a produção de cortisol, a hormona associada à ansiedade e stresse. Baixa a pressão arterial e proporciona sensação de bem-estar, estabilizando o humor.
Pode ajudar em caso de depressão?
Sim. Cuidar das plantas ao ar livre estimula os cinco sentidos, eleva a estimulação cerebral em áreas associadas ao prazer e recompensa. Ajuda a quebrar padrões depressivos e mantém o foco em algo positivo, reduzindo pensamentos negativos e ansiogénicos.
Ter um compromisso com a horta ajuda pessoas mais velhas e desocupadas?
Sem dúvida que sim. O sentimento de utilidade, responsabilidade e propósito é fundamental para a autoestima, assim como manterem-se ocupadas com uma atividade construtiva e positiva. A mobilidade que cuidar da horta exige proporciona bem-estar físico, que impede ou atrasa perdas associadas ao avanço da idade e a maior sedentarismo. O ar livre também proporciona melhor qualidade do ar e absorção da vitamina D, beneficiando ossos e sistema imunitário.
