
Hugo Soares, deputado social-democrata de 33 anos
Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens
Hugo Soares, coordenador dos deputados do PSD na Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos, acusa PS, BE e PCP de travarem apuramento do que está na origem das imparidades do banco público e da necessidade de recapitalização de cinco mil milhões de euros.
O deputado social-democrata Hugo Soares desafia PS, BE e PCP a assumirem que pretendem o "boicote permanente" da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e defende que os socialistas têm uma única estratégia: "esconder" a verdade. Ainda não refeito da decisão do presidente da Assembleia da República, que impediu que a CPI pudesse analisar a recapitalização do banco, e do chumbo da Esquerda a mais audições, o coordenador dos deputados do PSD naquela comissão pretende que seja revelada a correspondência entre o Governo e a última Administração da instituição.
Como é que o PSD vai contornar o veto da Esquerda, para ouvir mais gente na Comissão de Inquérito?
Mais importante é perceber porque é que a Esquerda está a impedir que se realizem essas audições. Era importante que, de uma vez por todas, esclarecessem por que querem boicotar a Comissão. Do PSD tem havido uma procura da verdade sobre o que aconteceu na CGD. Do lado da maioria, temos assistido a um boicote permanente.
O PSD não considera, tal como a Esquerda defende, que o trabalho realizado permite chegar a conclusões?
Ainda não se recebeu documentos requeridos e há ainda mais de 15 audições pedidas pelo PSD e CDS. Inclusive, audições pedidas pelo PS, BE e PCP - que se resumem a quatro. E há já alguns parlamentares que se arrogam de tirar conclusões? É possível tirar conclusões sem se ouvir, por exemplo, Armando Vara - que de resto pediu para ser ouvido -, já que tem sido permanentemente atacado nesta Comissão. O PS deve dizer por que não quer ouvir Armando Vara.
Porque acha que isso acontece?
Das duas uma: ou o PS tem medo ou está a esconder alguma coisa. O BE e o PCP sempre tiveram algumas tendências totalitárias, mas o PS entrou numa lógica que a sua maioria basta para impedir que a democracia funcione. É um tique de quem não tem legitimidade eleitoral e julga que tudo manda e tudo pode esconder.
Do que já ouviu, consegue dizer o que levou ao volume de imparidades e à necessidade de capital?
Não sabemos se a necessidade de capital é real ou não, porque o processo de recapitalização tem sido vedada aos deputados. Algo absolutamente inacreditável. E, depois, como é que a CGD chegou a este ponto? Sabemos pela Comunicação Social -já que no âmbito da Comissão de Inquérito os documentos nos têm sido negados - que há pelos menos cinco devedores, que totalizam imparidades de 900 milhões de euros.
Financiamentos concedidos a projetos considerados então de elevado interesse estratégico?
Santos Ferreira [ex-presidente da CGD] disse na Comissão que nunca falou com o ministro das Finanças [Teixeira dos Santos], que o convidou para o lugar, sobre nenhum financiamento e que era mera coincidência a CGD apoiar o que Governo classificava como de Projetos de Interesse Nacional (PIN). O sucessor de Santos Ferreira [Faria de Oliveira] foi à Comissão dizer que era normal, nas conversas com membros do Governo, que lhe sinalizassem PIN para financiar. A lógica é muito clara: a CGD financiou, e até participou como acionista, em projetos que registam o maior volume de imparidades de sempre.
Quantos pedidos potestativos [direito que se sobrepõe ao veto da Esquerda] vai o PSD usar para ouvir quem quer ouvir?
A Esquerda chumbou muito mais audições do que os pedidos potestativos que o PSD e o CDS têm. Vamos aguardar e esperar uma decisão [da assessora jurídica do Parlamento] sobre o acesso aos documentos do Dr. António Domingues.
O presidente da República alertou para a necessidade de não prejudicar a instituição com esta comissão. Concorda com essa perspetiva?
Creio que a transparência que a Comissão pretende trazer à CGD dá confiança aos clientes e aos depositantes. Já António Costa e o ministro Mário Centeno mostram-se mais interessados em rebentar com o sistema financeiro.
Mas como interpreta as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa?
O presidente da República tem a consciência de que a forma como têm sido gerida as questões do Novo Banco, do Banif e, sobretudo, a do maior banco português, é desastrosa. Em seis meses, a CGD vai para a terceira Administração. E uma delas cai porque o primeiro-ministro comprometeu-se com o dr. António Domingues em relação a algo que não conseguiu cumprir [entrega das declarações de rendimentos], mais uma vez, como aconteceu com a TSU. Um Governo, que quer salvar a CGD, pode dizer, em finais de 2015, que a recapitalização é urgente e estarmos em 2017 e nada ter feito?
Isso deve-se a quê?
À incompetência com que o Governo gere esta matéria. A Comissão de Inquérito deveria servir para isso - ficar claro porque é que o Governo diz ser preciso pôr cinco mil milhões de euros na CGD.
Acha importante ter acesso à correspondência entre o Governo e António Domingues?
Se a correspondência não violar o acórdão do Tribunal da Relação e se essa correspondência demonstrar de forma clara que o ministro das Finanças mentiu, os portugueses merecem conhecê-la.
Porque criticou o presidente da Assembleia da República, que não deixou incluir o plano de recapitalização e reestruturação nos objetivos da Comissão de Inquérito?
Porque há dois pareceres da mesma assessora jurídica que se contradizem. E o presidente da Assembleia da República, ao decidir como decidiu, cerceou um direito dos deputados que não é alienável: o escrutínio do Governo.
O PSD está a tentar ganhar um novo fôlego desde o caso da TSU?
Um partido que ganhou as eleições não perdeu o fôlego. É o Governo quem dá sinal de degradação: enquanto foi preciso fazer as coisas boas, faziam-se com tranquilidade, designadamente as reversões. Agora que começa a ser difícil governar, já não se entendem. O país está imobilizado. Portugal precisava de reformas que o PS não vai fazer, porque navega à vista.
