
Salomé Pinho, coordenadora do grupo "Immunology, Cancer & GlycoMedicine" do i3S, e Inês Alves, primeira autora do estudo
Uma equipa do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) descobriu o que leva ao aparecimento de doenças autoimunes como o lúpus. A descoberta valeu ao projeto português um dos sete prémios inovação da associação norte-americana Lupus Research Alliance. O único projeto europeu foi distinguido, esta quinta-feira, por abrir portas ao desenvolvimento de novas terapias para tratar as doenças do sistema imunológico.
A equipa de investigadores do i3S, liderada por Salomé Pinto, descobriu que alterações na composição dos açucares à superfície das células confundem o sistema imunitário, desencadeado doenças autoimunes como o lúpus. A investigação, em colaboração com hospitais como o Centro Hospitalar Universitário de Santo António, no Porto, trouxe assim uma possível resposta a esta modificação para prevenir o desenvolvimento do lúpus.
O i3S revelou esta quinta-feira, em comunicado, que a investigação foi agora distinguida com um dos prémios de inovação de 280 mil euros da Lupus Research Alliance, a maior agência de financiamento não-governamental, sem fins lucrativos, de investigação sobre lúpus em todo o mundo. Com a bolsa, os investigadores esperam desenvolver novas terapias para controlar as doenças autoimunes e melhorar a qualidade de vida dos doentes. Foram atribuídas bolsas a mais seis projetos, todos norte-americanos. O estudo também foi publicado a semana passada na prestigiada revista científica Science Translational Medicine.
No comunicado, Salomé Pinho, coordenadora do grupo "Immunology, Cancer & GlycoMedicine" do i3S, explica que o sistema imune, ao perceber que "há uma expressão anómala de açucares à superfície das células do rim, ativa um certo tipo de células imunológicas que levam à produção de moléculas pro-inflamatórias, contribuindo assim para o estabelecimento do processo inflamatório". O que permitiu aos investigadores "identificar um novo mecanismo subjacente" ao desenvolvimento da doença autoimune.
A investigadora Inês Alves, primeira autora do estudo, esclareceu também que é possível reparar esta alteração dos açúcares e controlar a resposta auto-reativa do sistema imunitário, evitando que o rim seja "atacado pelas células imunes e prevenindo, assim, o desenvolvimento do lúpus».
O i3S sublinha que esta descoberta é particularmente importante uma vez que o lúpus afeta milhões de pessoas em todo o mundo e manifesta-se em qualquer parte do corpo, como os rins, o cérebro, o coração, os pulmões, o sangue, a pele e as articulações. Mais de 90% dos doentes são mulheres e a doença surge normalmente entre os 15 e os 45 anos, a fase mais ativa e produtiva da mulher. Os afro-americanos, hispano-americanos, asiáticos e nativos americanos estão duas a três vezes mais expostos a riscos do que os caucasianos.
As doenças autoimunes não têm cura e caracterizam-se pela incapacidade do sistema imunitário em distinguir o "próprio" do "não-próprio", levando-o a "atacar" as próprias células e a gerar um processo inflamatório crónico. São doenças que debilitam os doentes, trazendo incapacitantes com impactos na qualidade de vida.
