
Foto: Manuel Fernando Araújo/Lusa
O candidato presidencial Jorge Pinto acusou, este domingo, Seguro de mostrar tibieza perante uma eventual revisão constitucional, comparando-o a um professor que, em casos de bullying, pede apenas ao agressor e à vítima para "fazerem as pazes".
Num discurso num comício, em Coimbra, que encerrou o oitavo dia da sua campanha presidencial, Jorge Pinto retomou as críticas feitas, este sábado, por Rui Tavares, à postura de António José Seguro perante a possibilidade de o parlamento iniciar um processo de revisão da Constituição. "Eu ouço, como ouvi ontem, António José Seguro dizer 'eu acho que a Constituição não precisa de ser mudada, eu não vejo ali nada que precise ser mudado'. Pois bem, eu também não. Mas isso não vai depender do próximo presidente da República, vai depender de algum partido", começou por dizer.
Daí, insistiu na ideia de que o Chega está à espera de um "próximo escândalo" interno para dar início a esse processo para argumentar que, nesse momento, o país precisará de "ter um presidente da República que é um efetivo contrapeso democrático" e que use todos os seus poderes para "impedir uma revisão constitucional feita apenas pela direita e pela extrema-direita".
Para Jorge Pinto, um chefe de Estado deve essa oposição aos portugueses e não pode ter uma postura de "tibieza" ou "medo de dizer o que fazer". "António José Seguro faz-me lembrar muitas vezes aquele professor que, vendo diariamente na sua escola um 'bully' - um agressor - e uma vítima vai lá e diz 'façam as pazes, dêem as mãos' e logo vira as costas e deixa que a situação se resolva por si mesma. Ela não se vai resolver por si mesma. É preciso um professor, é preciso um presidente da República que seja firme e que diga esta situação não pode continuar", atirou, acrescentando que nenhum candidato está a defender essa firmeza.
No mesmo discurso, Jorge Pinto atirou também contra André Ventura, referindo o caso da demissão de uma vereadora do partido em Coimbra para acusar o líder do Chega de "não conseguir sequer pôr ordem na sua casa" enquanto "quer pôr ordem no país".
O candidato a Belém apoiado pelo Livre disse ainda que Ventura "devia ter vergonha e pedir desculpa aos portugueses por tudo aquilo que tem trazido" para a política nacional.
Também Henrique Gouveia e Melo foi visado por Jorge Pinto, que acusou o almirante de "não saber bem de que lado é que está", uma vez que "um dia almoça com uns e noutro dia janta com outros". "Vem dizer que isto é diversidade e que é a maneira de estar com todos os portugueses. Eu acho que a maneira de estar com todos os portugueses é ser transparente em relação àquilo que nós somos ideologicamente. Isso não é pecado. Ser de esquerda não é nem será nunca pecado, como ser de direita também não é. Mas sejamos francos com os portugueses. Digamos ao que vimos e ao que vamos", pediu.
Jorge Pinto encerrou a intervenção virando-se também para as restantes candidaturas à esquerda, sem especificar alvos, estabelecendo as suas diferença com quem é de esquerda e "se fecha em si mesmo" ou se "põe numa gaveta". "Há uma nova esquerda desempoeirada, que não tem vergonha (...), que agrega e que cresce porque pelo europeísmo, pelo ecologismo, pela defesa dos animais. E é essa esquerda, a esquerda que não se fecha em si mesmo. Uma esquerda que, como eu ouvi de outros candidatos, não acha que é a 'esquerda ponto', porque a esquerda nunca é a 'esquerda ponto'. A esquerda é sempre algo que soma, é algo a que vamos acrescentando coisas", exclamou.
Candidatos à direita "andam todos à procura" de Passos
Jorge Pinto acusou os candidatos à direita de terem como única motivação "saber onde está" e quem apoia Pedro Passos Coelho nestas eleições, em vez de se preocuparem com os portugueses. "Eu estou quase preocupado com Pedro Passos Coelho, porque parece que os candidatos à direita andam todos à sua procura. Eu não sei se alguém sabe onde é que ele está, se já o encontraram. Parece que a única coisa que motiva os candidatos à direita é saber onde é que está Pedro Passos Coelho e ao lado de quem é que estará", afirmou.
O tema foi levantado pelo candidato em declarações aos jornalistas à margem de uma visita às Festas em Honra de São Gonçalinho, em Aveiro. Dirigindo-se ao antigo primeiro-ministro social-democrata, Jorge Pinto disse "esperar que esteja bem" e que é preciso transmitir-lhe que "há muita gente à sua procura" em vez de revelarem a sua mensagem política aos portugueses.
Jorge Pinto contrapôs, após as acusações à direita, que a "única coisa que o motiva é saber onde é que estão os portugueses" que "não conseguem ter uma ambulância que os vá buscar para os levar ao hospital" ou os que "estão horas à espera para serem atendidos no hospital". "Tudo o resto, para mim, é politiquice no mau sentido da palavra", acrescentou.
O candidato a Belém apoiado pelo Livre marcou presença no tradicional lançamento de cavacas e viu sinais positivos desse momento da campanha: "Acho que ter tido a sorte de receber três cavacas e ser o terceiro no boletim é sinal de que os astros estão alinhados para que esta candidatura seja mesmo uma boa surpresa no dia 18".
Sobre se é mais fácil apanhar cavacas ou convencer os eleitores a votarem em si, Jorge Pinto frisou a dificuldade de apanhar este doce tradicional e destacou a vontade das pessoas de falarem consigo na rua. "Até quando estou distraído são eles que chamam e que fazem questão de poder falar comigo e isso é bom", disse, acrescentando que isso o motiva porque é sinal que está a conseguir "furar uma barreira" criada por comentadores televisivos que se ocupam de "dizer aos portugueses como é que eles devem perceber as declarações dos candidatos".
Questionado sobre se conseguiu chegar aos eleitores que foram hoje votar antecipadamente, Jorge Pinto respondeu afirmativamente, argumentando que muitas pessoas já perceberam que "há novas vozes à esquerda que se querem afirmar" e que não se resignam contra o ódio e a violência.
Após Rui Tavares ter pedido, no sábado, que António José Seguro se posicionasse face a uma eventual revisão constitucional, Jorge Pinto juntou-se às críticas, exigindo ao socialista que especifique os instrumentos que tenciona usar nesse cenário, caso venha a ser eleito presidente da República.
