
Jorge Cabrita defende que a pesca deveria ser gratuita
Maria João Gala/Global Imagens
Há cada vez mais pescadores lúdicos em Portugal devidamente autorizados. Em 2020, foram passadas mais 40 535 licenças de pesca lúdica do que no ano anterior.
É um aumento de 13,8%, que fez subir para um total de 334 769 as licenças atribuídas pela Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para pescar, respetivamente, em águas marítimas e interiores (como rios e albufeiras).
Os preços oscilam entre 2 euros, para um dia de pesca apeada, e 70 euros, para um ano geral na DGRM. As do ICNF vão de 20,52 euros para licença nacional e 12,31 para licença regional para residentes.
Em 2019, aquelas duas entidades haviam atribuído 294 234 licenças. Este ano já foram contabilizadas 241 359 licenças.
As receitas provenientes da atividade subiram 16%, passando de 3,40 milhões de euros em 2019 para 3,94 milhões em 2020. Este ano já foram contabilizados pelo menos 2,23 milhões de receitas pela DGRM e ICNF.
De acordo com os dados avançados ao JN, foi a DGRM que passou mais licenças. Em 2019, atribuiu 195 220 e no ano passado 220 169. Quanto ao ICNF, em 2019 atribuiu 99 014 e em 2020, 114 600. Este ano a DGRM já atribuiu 144 206 autorizações de pesca e o ICNF contabiliza 97 153.
O aumento "poderá dever-se ao facto de mais pessoas terem tido tempo livre" no ano passado, na sequência da pandemia, avança João Borges, sócio-fundador da Associação Nacional de Pescadores Lúdicos e Desportivos.
Mais para a região Centro
As licenças da DGRM, que permitem pescar em águas marítimas, podem ter a duração de um dia, um mês ou um ano. Subdividem-se em pesca apeada (a mais solicitada, com 96 150 licenças anuais em 2020), em embarcação, submarina e geral.
As do ICNF podem ser nacionais ou regionais (divididas em Zona Norte, Centro e Sul). Das autorizações atribuídas, a maioria foram para a Zona Centro, com um total de 32 218 pedidos em 2020, contra 29 794 para a Zona Norte e 25 436 para o Sul.
O prazer dos fanáticos de fim de semana
Há quem percorra 100 quilómetros. Quem procure quebrar a solidão. Quem, tendo "herdado" o gosto do pai, mantenha os hábitos. Quem insista, mesmo que revoltado pelas restrições. E quem, emigrado, faça deste um ponto alto das vindas à terra natal.
Na praia da Barra, em Ílhavo, onde as manhãs de sábado são por norma dedicadas à pesca lúdica apeada, as histórias mudam, mas o gosto é o mesmo. Ao longo do canal estão dispostas largas dezenas de homens. No areal, agora que findou a época balnear, mais alguns procuram lugar. Rui Ramos não se alonga em conversas. Fez "100 quilómetros" desde o local onde mora, em Viseu, para ir ali pescar. Começou há 30 anos, desde que, durante umas férias, descobriu o local. "Em termos monetários nunca compensa [a deslocação], mas compensa pelo prazer de estar à pesca", justifica ao JN.
Este é o escape de Armando Calisto para a solidão. O homem de 75 anos desloca-se aos sábados desde Aveiro, onde reside, para tentar "apanhar sargo e dourada". Traz duas canas que prende no muro, senta-se e fica de olhos presos na água.
"Tiro licença para um ano e venho para aqui. É para não estar fechado em casa, a dar voltas à cabeça, porque vivo sozinho", revela. E conta histórias.
Há duas semanas, um pescador "apanhou um robalo com 7,5 quilos", relata. Já ele, no seu currículo, tem "uma dourada de cinco quilos", pescada há 10 anos.
Jorge Cabrita, 59 anos, da Gafanha da Nazaré, Ílhavo, revolta-se quando lhe falam de licenças. "Cada vez há menos espaços para a pesca lúdica. Empurram-nos para aqui, onde há menos peixe e, ainda por cima, temos de pagar", solta, num desabafo, explicando ainda que aquele é um passatempo para "descontrair" e "conviver".
Para Hélder Manuel, de Oliveira de Azeméis, é um dos pontos altos das férias. Está emigrado em França e aproveita para pescar quando regressa a Portugal. Em França, não o faz. Em Portugal, tira licença "para um ano". "Paguei oito euros e fico descansado", diz, adiantando que vai passar o dia inteiro a pescar.
No areal da praia, João Baia, 24 anos, da Póvoa do Valado, Aveiro, lança o isco "mais sossegado". Só se avista mais um pescador naquela zona. Pega no material de pesca "todos os fins de semana", dando largas a um gosto que foi adquirindo desde criança com o pai.
