Médio Tejo mantém "duplo alerta" após tempestade Kristin e prepara-se para risco de cheias

Foto: Rui Minderico/Lusa
O Médio Tejo mantém-se em "duplo alerta", após a passagem da tempestade Kristin na quarta-feira e agora com o risco acrescido de cheias nas próximas semanas, num território com solos saturado e caudais elevados no Tejo e Zêzere.
Em declarações hoje à Lusa, o presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém, Manuel Jorge Valamatos, alertou para a "fase muito complicada" que o Médio Tejo está a atravessar, conjugando os efeitos da tempestade Kristin com a previsão de muita chuva e a subida dos caudais dos rios, num cenário que classificou como "uma simbiose perfeita de calamidade".
A passagem da depressão Kristin na madrugada de quarta-feira no território do Médio Tejo deixou um "rasto de destruição" nas redes elétricas, sistemas de água, comunicações, habitações e edifícios públicos, relatou, salientando que a previsão de chuva intensa para as próximas semanas agrava o risco, com solos saturados e níveis elevados nos rios Tejo, Zêzere e respetivos afluentes.
Também em declarações à Lusa, o comandante sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, David Lobato, explicou que o dispositivo está a trabalhar "em duas frentes": a norte da região, ainda a lidar com os efeitos diretos da tempestade em concelhos como Ourém, Ferreira do Zêzere, Mação, Tomar, Torres Novas, Sardoal e Abrantes, e a sul, com o problema das cheias nas zonas ribeirinhas.
Segundo o responsável, os corpos de bombeiros dos concelhos mais expostos acompanham a situação "hora a hora", em articulação com os serviços municipais e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), monitorizando as descargas das barragens, nomeadamente Castelo do Bode e Fratel, que têm alternado libertações de água para criar capacidade de encaixe face à chuva prevista.
O caudal do Tejo na estação de Almourol encontra-se "pouco acima dos 3.500 metros cúbicos por segundo", prevendo-se uma "estabilização, mas não uma descida" nos próximos dias, sendo a coordenação com entidades espanholas considerada determinante para evitar agravamentos, acrescentou.
David Lobato admitiu ser "previsível" a necessidade de evacuar algumas zonas ribeirinhas caso a situação se agrave, assegurando que já existem estruturas de retaguarda preparadas, em articulação com a Segurança Social e os municípios, para acolher populações, caso necessário.
Desde quarta-feira, o sub-comando do Médio Tejo registou 1.014 ocorrências nos 11 municípios da sub-região, mobilizando 4.385 operacionais e 1.457 veículos.
A maioria das situações esteve relacionada com quedas de árvores (522), danos em redes elétricas (88) e quedas de elementos de construção (73), com maior incidência em Torres Novas, Ourém e Tomar.
Segundo informação divulgada hoje pela Comissão Distrital de Proteção Civil, encontram-se ativos 11 planos municipais de emergência no Médio Tejo e foi reforçada a monitorização permanente da subida dos leitos dos rios, no âmbito da ativação do Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil, que garante mecanismos de coordenação reforçados a nível nacional.
Manuel Jorge Valamatos adiantou também que no concelho de Abrantes "ainda há dezenas de habitações sem energia" e destacou a campanha de recolha de lonas e telhas a decorrer no estaleiro municipal e nas juntas de freguesia, destinada a apoiar populações afetadas no concelho e em territórios vizinhos.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
