
Duarte e Maria Isabel faziam videochamadas com os netos
Gerardo Santos/Global Imagens
A maior preocupação das crianças durante o isolamento social foi com a saúde dos avós, mais do que com a saúde dos pais, irmãos ou amigos.
E a alteração de rotinas na relação com os avós esteve associada a maiores níveis de stress e ansiedade nas famílias. É a conclusão de um estudo do Instituto de Apoio à Criança (IAC), que revela que quase 80% das crianças manteve contacto regular com os avós, mas por telefone ou videochamada. Hoje, comemora-se o Dia dos Avós.
"Os avós são um suporte muito importante nas famílias e aquelas em que houve alterações na relação com os avós durante o isolamento sentiram mais stress, afetou o equilíbrio da família", explica Fernanda Salvaterra, coordenadora do estudo sobre o que pensam e o que sentem as famílias em isolamento social.
Apesar de as novas tecnologias terem ajudado a lidar com a saudade, a investigadora doutorada em Psicologia do Desenvolvimento diz que é claro que "não é a mesma coisa". De tal forma que, para quase 70% das crianças, não visitar os avós foi um dos principais aspetos negativos do confinamento - só foi pior não sair à rua e não conviver com os amigos. Também para 67,5% dos adultos não visitar os pais ou sogros foi apontado como negativo.
A "mágoa" dos avós
Segundo a presidente da Sociedade Portuguesa de Demografia, Ana Alexandre Fernandes, "o impacto da ausência dos avós no confinamento provavelmente foi grande, mais ainda nas famílias portuguesas onde é tradicional e estrutural o apoio dos avós". Talvez por isso a investigadora alerte para "a mágoa de os avós por não poderem ver os netos" nestes tempos de pandemia.
"Há filhos que não estão a deixar. Isto é terrível e violento". A demógrafa critica os pais que negam que os filhos estejam com os avós devido ao risco de infeção pelo novo coronavírus. "Esse direito pertence aos avós, eles é que têm que decidir se querem correr o risco e estar com os netos ou não. Os filhos estão a decidir pelos pais, mas as pessoas mais velhas têm todo o direito de decidir sobre a sua vida".
A demógrafa defende que em causa está o "livre arbítrio dos avós". "Há dias estava numa loja e uma avó comprava roupa para os netos e comentava que a filha não os deixa ver. A senhora estava rodeada de crianças naquela loja. Tudo isto me parece absurdo", remata.
Inquérito online
O estudo do IAC foi feito com base num inquérito online a famílias entre 15 de abril e 10 de maio. Participaram 807 adultos com crianças entre os 4 e 18 anos. E 431 crianças entre os 8 e 18 anos.
Só 10% mantiveram
Das famílias que participaram no inquérito, apenas 10% não alteraram a rotina de contacto com os avós. A grande maioria dos netos deixou de ter contacto presencial com os avós.
Saúde e futuro
A maior preocupação das crianças é a saúde e o futuro. Mas o confinamento trouxe aspetos positivos: mais tempo com os pais e para brincar.
Reportagem
De repente ficámos com a casa vazia e custou-me
Era quase meio-dia e o avô Duarte Pereira descascava batatas para o almoço, enquanto Maria Isabel, a avó, se entretinha com os netos. Pedro de 4 anos, Carolina de 9 e Tiago de 12 já andavam pela casa, em Carnaxide. Depois de praticamente três meses a verem-se por um ecrã, têm-nos visitado de vez em quando. E bem preferem assim, mesmo sem abraços nem beijos. "Quando voltei a estar com eles, foi uma grande alegria", confessa a avó.
O isolamento na pandemia custou particularmente a Maria Isabel. "Eles foram criados aqui em casa, desde bebés. Os pais vão trabalhar e deixam-nos aqui. Comem, brincam, saltam, correm. Com o confinamento, fomos do 8 ao 80. De repente, ficámos com a casa vazia e custou-me. Foi um grande impacto", confessa. A avó de 69 anos chegava a ir a casa do filho e da nora, em teletrabalho, ver os netos à varanda.
"Dizia-lhes adeus e punha um miminho no elevador", conta. Diz que é moderna, tem WhatsApp e Instagram. E foram as videochamadas que lhe valeram. "Mas não tem nada a ver. Eu sou muito de afetos. Gosto de beijos e abraços".
Mal se abriram as "portas", Maria Isabel não aguentou mais as saudades: pegou em alguns brinquedos e na máscara e correu para casa dos netos. "Foi o reencontro. Ainda ficámos à distância. Mas até tirámos uma fotografia". O avô Duarte costuma cozinhar para os netos. Diz que o isolamento custou mais à sua mulher, "que é mais sentimental", mas lá confessa que "foi muito difícil".
Agora, os netos já lá vão de vez em quando. "Vêm almoçar, o mais novo é mais reacionário e já tem um vocabulário giríssimo", conta. Ainda tentam manter a distância e os miúdos, afirma a avó, "compreendem muito bem". No próximo ano letivo, diz que os netos talvez tenham que ir para um ATL. "Eles perguntaram-me: "Por causa da covid, avó?" E entenderam".
O mais velho, Tiago, é o mais cauteloso: "Senti medo pelos meus avós. Até dizia que era melhor não virmos para cá, mesmo com máscara, porque tenho medo que fiquem infetados". Mas as saudades eram muitas. "Senti muita falta. De comer cá, de brincar. As videochamadas era melhor do que nada, mas aqui podemos estar ao lado deles".
Enquanto o mais novo via o canal Panda e contava que teve saudades, a irmã do meio, Carolina, era mais despachada: "Foi triste não estar com os avós. Ainda não podemos dar muitos beijos e abraços. Mas já vimos cá a casa, gosto muito deles".
